Traição
Infelizmente todos nós estamos sujeitos à traição amorosa: trair e ser traído. A
infidelidade sempre acompanhou os relacionamentos amorosos. Nenhuma sociedade
conseguiu erradicá-la, mesmo aquelas que tomaram medidas extremas com este
propósito.
Geralmente a traição feminina é considerada mais grave do que a masculina.
Segundo Laura Betzig, uma antropóloga americana que realizou um estudo
internacional sobre este tema, em todas as sociedades onde há punição para a
traição, esta recai mais fortemente sobre as mulheres do que sobre os homens ou,
no máximo, o seu grau de severidade é igual para ambos os sexos.
As
medidas contra a traição podem ser classificadas como preventivas ou punitivas.
Exemplos de medidas preventivas e punitivas adotadas em várias culturas: Medidas
preventivas contra a traição feminina: obrigar as mulheres a esconder todo o
corpo e boa parte do rosto para “evitar tentar os homens”; obrigá-las a usar
cinto de castidade; restringir qualquer tipo de relacionamento com não
aparentados do sexo oposto. Exemplos de medidas punitivas: conceder ao traído o
direito de matar os traidores (“lavar com sangue a desonra sofrida”);
apedrejamento dos infiéis pela comunidade; extirpação do nariz da traidora e
ameaça do fogo do inferno para quem cometer esse tipo de pecado.
Estas medidas preventivas e punitivas nunca foram muito eficazes para coibir a
traição, o que faz pensar que existam forças muito poderosas que a favorecem.
Vamos examinar agora algumas destas forças.
Sentir atração por terceiros é inevitável e não
é traição
Sentir atração e começar a ser assaltado por pensamentos eróticos e românticos
por outras pessoas, além do parceiro oficial, não é necessariamente traição.
Esses sentimentos e pensamentos são evocados automaticamente pela presença de
pessoas bonitas, charmosas e que possuam sex appeal e, por isso, é impossível
impedi-los. Quem assume um compromisso de exclusividade amorosa com uma pessoa
não fica cego e surdo para outras que possuam esses atrativos. A traição começa
a acontecer quando quem sente esse tipo de atração não tenta controlá-lo e, pelo
contrário, alimenta-o, permitindo que ele se desenvolva. A traição também começa
a ganhar corpo quando quem sente esse tipo de atração começa a agir de modo a
verificar se ele é retribuído pela outra pessoa ou tenta criá-lo e amplificá-lo.
Como definir a traição?
Não há acordo sobre os critérios que devem ser usados para identificar a
traição. Esse desacordo acontece tanto entre os estudiosos desse tema como entre
as pessoas comuns. Por exemplo, algumas pessoas acham que flertar com
desconhecidos, praticar sexo virtual na Internet, fantasiar com outro parceiro
durante a masturbação ou durante o sexo com o próprio parceiro e cultivar
paixonites por outros parceiros não são traições. Outras pessoas, no entanto,
consideram todos esses atos como formas de traição.
O engano do parceiro na área romântica ou sexual é o principal ingrediente da
traição. A traição não pode ser definida apenas pela fantasia ou prática de
ações românticas e sexuais com parceiros não oficiais. Por exemplo, na nossa
sociedade quase ninguém considera traição assistir filmes, peças teatrais e
novelas e deleitar-se com a beleza dos atores e com os atos românticos e
libidinosos que eles praticam enquanto atuam. Pelo contrário, geralmente esses
espetáculos são assistidos em público e na companhia do parceiro! Até mesmo a
prática sexual com outros parceiros pode não ser traição. Por exemplo, quando
ambos os parceiros concordam em ter um “casamento aberto”, onde ambos poderão
ter outros parceiros românticos e sexuais ou quando ambos aderem à troca de
casais ou ao sexo grupal, não há traição: nenhum parceiro está enganando o
outro.
Esse tipo de engano pode ser perpetrado de três
formas:
•
Tomar precauções para manter ocultos atos amorosos condenáveis praticados com
uma terceira pessoa. Por exemplo, marcar um encontro com essa pessoa em um local
não frequentado por conhecidos.
• Omitir informações comprometedoras. Por exemplo, deixar de relatar para a
esposa conversas picantes que teve com uma colega.
• Elaborar ativamente uma mentira. Por exemplo, dizer para a esposa que foi a
uma reunião de negócios quando, de fato, foi ao motel com uma amante.
Por que ocorre a
traição?
A traição tem
múltiplas causas. Geralmente diversas delas contribuem simultaneamente para a
ocorrência de cada caso de infidelidade. As principais dessas causas são as
seguintes:
• Predisponentes para
a traição
Os predisponentes são características
pessoais, herdadas ou adquiridas durante o desenvolvimento, que aumentam as
chances da traição por parte dos seus portadores. Existem vários tipos de
predisponentes desse tipo. Os principais deles são os seguintes:
– Predisposição biológica
para a poligamia. Os psicobiólogos apresentaram evidências bastantes
convincentes de que a nossa espécie é moderadamente poligâmica. Por exemplo, a
maioria das culturas aprova a poliginia (um homem e várias mulheres). Os
seguidores dessa teoria também apontam várias vantagens evolutivas para a
poliandria (uma mulher e vários homens). Por exemplo, Helen Fisher, no seu livro
“Anatomia do Amor”, afirma que a poliandria traz os seguintes benefícios para as
mulheres: diversidade genética da prole; proteção por parte de diversos homens;
vantagens materiais propiciadas pelos diversos parceiros e maior facilidade de
reposição do parceiro quando há abandono ou morte do parceiro oficial.
– Estilo de amor tipo ludos.
Existem diversos estilo de amor. Aquelas pessoas que têm o estilo ludos
têm prazer na conquista, podem ter vários namorados simultâneos e perdem o
interesse pelo parceiro assim que os conquistam. (Ver a descrição dos estilos de
amor no meu livro “O Mapa do Amor”).
– Alto grau de herotofilia. Uma percentagem de
homens e mulheres tem um altíssimo interesse por sexo. Uma parte destas pessoas
necessita de um contexto afetivo para praticar o sexo. Outra parte desenvolve um
grande interesse por diversos tipos de manifestações sexuais, sejam elas
acompanhadas ou não pela afetividade. Estas pessoas gostam, por exemplo, de sexo
por sexo, filmes eróticos e sexo em grupo.
• Relacionamento insatisfatório com o “parceiro
oficial”
Aquelas pessoas que têm um mau relacionamento com o parceiro
oficial têm mais chance de trair. Esta chance ainda é maior quando este
relacionamento não satisfaz as suas aspirações românticas e as suas necessidades
sexuais. No primeiro caso, existe uma carência afetiva e o carente pode se
tornar uma presa fácil daqueles que acenam com a sua satisfação. As necessidades
sexuais são poderosas propulsoras da procura por satisfação, mesmo que esta seja
alcançada com outro parceiro.
Um bom relacionamento diminui as chances da traição, mas não as elimina. Da
mesma forma, o amor diminui as chances da traição, mas também não as elimina –
ao contrário do que afirma o ditado popular, quem ama pode trair sim,
principalmente quando o amor já existe há bastante tempo (mais que cinco anos,
segundo algumas estimativas). Mesmo quando há amor e um bom relacionamento, a
traição ainda pode acontecer porque ela pode ser motivada pelos outros fatores
que estão sendo descritos neste tópico.
• Atração pelo novo
A explicação mais simples para os motivos da traição é aquela
que afirma que paquerar, seduzir e transar com um novo parceiro é gostoso,
excitante e bom para a auto-estima. O efeito motivador que é provocado por um
novo parceiro já foi relatado, inclusive, em outras espécies de animais e
recebeu diversos rótulos, tais como “efeito Coolidge”, “efeito da novidade” e
“efeito carne fresca”. Por exemplo, um rato que acabou de copular com uma
parceira até perder o interesse, recomeça a copular quando tem acesso a uma nova
parceira. Isto acontece mesmo quando esta nova parceira também copulou
recentemente com outro parceiro e, por isso, não estaria mais interessada em
sexo do que a ex-parceira deste rato que recomeçou a copular com ela. Uma
analogia com a comida ajuda a entender este tipo de motivação: uma pessoa que
acabou de comer e está satisfeita pode aceitar mais comida, caso lhe seja
oferecido um novo alimento que desperte o seu apetite.
• Atração pelo proibido
O próprio ato de trair pode ser atraente. A sensação de fazer
algo proibido e perigoso pode servir como estimulante do desejo para certos
tipos de pessoas. Este efeito já foi descrito através da expressão “o fruto
proibido é mais gostoso” e recebeu o nome “Efeito Romeu e Julieta” (como se
recorda, estes dois personagens não podiam se apaixonar um pelo outro porque
suas famílias eram inimigas).
• A ocasião faz o traidor
Quando situação é motivadora, permissiva e oferece grandes
tentações, aumentam as chances de traições. Por exemplo, acontecem muitas
traições quando as pessoas estão fora do local onde são conhecidas (por exemplo,
quando estão em outra cidade e quando estão participando de congressos e
convenções). Também existem muitas traições quando pessoas que são sexualmente
compatíveis convivem no dia-a-dia. Um estudo realizado pela famosa sexóloga
americana Shere Hite constatou que mais de 60% das pessoas que trabalham juntas
já tiveram algum tipo de envolvimento romântico ou sexual. Um estudo que
realizei em quatro cidades brasileiras confirma o achado desta autora: uma
grande quantidade de namoros começa entre pessoas que já se conheciam (37%) ou
que foram apresentadas (32%).
• Motivos indiretos da traição
A traição pode ser motivada por outros fatores não
relacionados com a atração romântica e o desejo sexual. Por exemplo, a traição
pode acontecer porque a pessoa não consegue resistir a um assédio (teme frustrar
o assediante), por vingança (pagar da mesma moeda), para obter benefícios
(transou com o dono da empresa para obter benefícios), melhorar a auto-estima
(“Meu marido nunca me elogiava e o parceiro com quem o traí me cobria de
lisonjas”), curiosidade (“Queria experimentar para ver se gostava”) e influência
de conhecidos (“Todas elas tinham amante e me incentivaram a fazer o mesmo”)
• Ausência de inibidores mais poderosos do que
os motivadores
Os inibidores da traição podem ser classificados como
externos ou internos.
– Inibidores externos. Quanto menos medo uma pessoa tem das conseqüências que
poderão lhe ser impostas, tanto pelo parceiro traído quanto por terceiros, maior
a chance de ela trair. Por exemplo, quem acha que pode arranjar facilmente um
parceiro tão ou mais atraente do que o atual terá menos medo de ser abandonado,
caso seja pego traindo, do que quem não pensa assim.
– Inibidores internos. As pessoas que tem menos restrições morais, éticas e
religiosas contra a traição têm mais chance de trair.
Quanto mais predisponentes uma pessoa tiver e quanto mais intensos eles forem,
maior a probabilidade de ela trair.
Custos da traição
Raramente a traição compensa, ou seja, geralmente ela traz mais custos do que
benefícios. Isto parece ainda ser mais verdade com a traição contumaz ou quando
a traição se transforma em um “caso” duradouro entre duas pessoas. Vamos
examinar agora os principais custos da traição.
• Os custos superam os benefícios
Nem tudo é um mar de rosas para aqueles que traem.
Entremeados com os sentimentos positivos freqüentemente estão presentes os
sentimentos de culpa e o medo das conseqüências. Aquelas pessoas que possuem
valores morais, éticos e religiosos contra a traição não se sentem bem quando
traem e se autocondenam por fazerem isso.
Quando a traição perdura e se transforma em um “caso”, os seus custos geralmente
superam os seus benefícios. A relação entre os amantes vai se parecendo cada vez
mais com os relacionamentos oficiais, com a diferença que não possuem muitos dos
benefícios que estes oferecem. Por exemplo, nos “horários nobres” os amantes
nunca estão juntos: viagens de férias, fins de semana, festas de fim de ano. Os
amantes estão sempre se escondendo e passando por situações humilhantes. O ciúme
logo aparece. As seguintes frases são muito comuns entre aqueles que estão
envolvidos neste tipo de situação “Você comprou um carro novo para ela?”, “Vocês
continuam a transar?”.
• Deterioração da qualidade dos relacionamentos
Quando um parceiro se interessa fortemente por um terceiro,
isto faz com que ele perca o envolvimento e energia em relação ao parceiro
oficial e este desinteresse faz com que este parceiro se sinta desprezado,
desatendido e desconsiderado. O relacionamento se torna pouco estimulante, a
atração sexual e romântica diminui muito e o clima negativo se instala
(quantidade excessiva de brigas ou brigas com ações muito graves). Muitas vezes
aquele que está traindo perde o desejo sexual pelo parceiro oficial. Um dos
motivos desta perda do desejo é o sentimento de fidelidade que muitos amantes
desenvolvem entre si e, por isso, não sentem desejo pelo parceiro oficial.
• A traição é uma das principais causas de
separações
Segundo Laura Betzig, a antropóloga americana citada acima, a
traição é a principal causa mundial das separações. (Outras duas causas
importantes das separações são o esvaziamento do relacionamento e a
esterilidade). Apesar de a traição ser uma das principais causas das separações,
isto não significa que todas as traições redundem em separações. Pelo contrário:
uma pesquisa americana verificou que cerca de 90% dos casamentos sobrevivem às
traições.
• Perda da confiança no traidor
Após uma traição, o relacionamento dificilmente volta a ser o
mesmo que era antes deste acontecimento. A maior alteração é a diminuição da
confiança que o traído deposita no traidor. O seguinte relato ajuda a ter uma
idéia das dimensões da desconfiança gerada por uma traição.
Karina, uma ex-paciente, confiava cegamente
no marido. Um dia ela, sem querer e sem que ele percebesse, ouviu-o falando no
telefone de uma forma obviamente amorosa. Começou então a ficar desconfiada e
acabou descobrindo que estava sendo traída. Como estavam casados há muito
tempo, tinham filhos pequenos e ele era uma ótima pessoa em muitas outras
áreas. Então, ela não conseguiu terminar o relacionamento. No entanto, a
partir deste acontecimento, ela passou a desconfiar de tudo o que ele fazia ou
deixava de fazer. Por exemplo, se ele lhe dava um presente, ela suspeitava que
ele estava fazendo isso porque se sentia culpado. Se ele passava algum tempo
sem presenteá-la, ela achava que ele não gostava mais dela. Se ele a convidava
para acompanhá-lo em uma viagem de negócios, ela suspeitava que ele estivesse
querendo deixá-la segura para que ela se tornasse menos vigilante e, aí, ele
pudesse voltar a traí-la. Se ele não a convidava para este tipo de viagem, ela
achava que ele iria com a amante. E assim por diante! Nada conseguia aplacar
sua desconfiança e insegurança. Este estado persistiu, sem arrefecer, por mais
de um ano. A vida dos dois ficou um inferno.
Este relato dá uma idéia da tortura que passa aquele que foi traído e o inferno
que se transforma a vida daquele que traiu. Quando a traição acontece num
momento em que existem poucos compromissos, como no início de um namoro ou
quando o casal não tem filhos, as chances de o relacionamento terminar são
maiores, obviamente.
Creio que não vale a pena trair. O melhor é investir no relacionamento. Caso
mesmo assim ele não dê certo, o melhor é terminá-lo. A integridade pessoal é um
bem muito valioso!
Ailton Amélio da Silva é doutor em
Psicologia, psicólogo, psicoterapeuta e professor da USP, em São Paulo (SP). É
autor de vários estudos científicos sobre relacionamentos amorosos e dos
livros "O Mapa do Amor", "Para Viver um Grande Amor" e o mais recente
"Relacionamento Amoroso: Como Encontrar Sua Metade Ideal e Cuidar Dela".
Fonte: Provedor
BOL, por Dr. Ailton Amélio da Silva
Postado por
Izabel Cristina da Fonseca, dia 21 de abril de
2010 (12.500)