Sexo, a coisa mais
natural do mundo
Sexo é bom, faz bem e (quase) todo mundo
gosta. Descubra por que, mesmo com tanta informação, liberdade e medicamentos
que prolongam a vida sexual até a velhice, há ainda muita gente frustrada
entre quatro paredes
O sexo está em todo lugar, é o grande barato
da atualidade. Me perdoe começar a reportagem assim, sem nenhum aquecimento
prévio. Mas pode reparar. O sexo hoje é discutido abertamente em programas de
TV, está escancarado nos filmes, é tema frequente de mesas de bar, presença
constante em revistas e livros e está bem ao alcance do dedo – na internet.
Vamos e venhamos:
Apesar de fazer parte da humanidade desde sempre, nunca o sexo foi considerado
algo tão importante e nunca se gastou tanta lábia no assunto. Tanto é que a
ciência tem dedicado bastante energia a esse ponto nos últimos anos,
desenvolvendo medicamentos para melhorar problemas ligados ao desempenho na cama
que estão ajudando a prolongar a vida sexual de homens e mulheres em todo o
mundo.
Tamanha atenção para o sexo faz sentido – no fim das contas, você está lendo
este texto graças a ele. Freud, que baseou boa parte de sua teoria sobre o
desenvolvimento humano na sexualidade, afirmou que é impossível desvincular o
sexo do cotidiano. Segundo ele, nossa energia sexual é a grande responsável por
nossa disposição para o trabalho, para o lazer, para coisas prosaicas como ir ao
shopping, bebericar um vinho ou bater perna até a padaria. Controvérsias à
parte, o fato é que cada vez mais nossa sexualidade é tratada com importância.
No
entanto, a grande questão é que, apesar de tanta informação, liberdade de agir e
de se expressar, e da ciência a favor do sexo, ainda há muita insatisfação e
ansiedade quando esse é o assunto. Por que será? Calma, acompanhe a reportagem,
agora com as devidas preliminares, para chegar lá.
Para o alto e avante:
Em
um episódio do seriado Os Normais, que escracha as agruras dos relacionamentos
modernos e seus dilemas sexuais, Ruy, interpretado por Luiz Fernando Guimarães,
está no maior lero- lero com a estagiária, que lhe conta detalhes picantes de
seu relacionamento com o namorado. Ruy, que é mais velho, mas nada santinho,
fica mesmo assim ruborizado com as peripécias da menina. E solta a frase: “É
que, Taty, na sua geração sexo é uma coisa normal”. Eis uma das
principais características do sexo nestes tempos: ele é tratado a com maior
naturalidade.
Mas nem sempre foi assim.
Sexo e seus derivados, como sexo oral, anal, orgasmos múltiplos, clitóris,
fetiche, masturbação, prazer feminino... Há 50 anos esses assuntos não eram
falados nem entre quatro paredes. Assunto proibido, coisa do diabo. Com a
revolução sexual, tudo mudou. “Até então, havia muita
repressão e a mulher estava de certa forma submetida aos prazeres masculinos.
Com a pílula, ela se libertou do medo da gravidez indesejada e passou a buscar
seu próprio prazer”, diz a psicanalista Regina Navarro Lins, autora do
livro A Cama na Varanda.
Sim, a libertação sexual abriu caminho para nos expressarmos e falarmos mais
sobre sexo. Há pouco mais de dois anos foi revelada pela primeira vez ao público
na Biblioteca Nacional da França uma seção proibida chamada “Inferno”,
que continha uma vasta coleção de literatura libertina. Nada que surpreenda nos
dias de hoje, em que nossa dieta de sexualidade – em filmes, na TV, nas
conversas – deixaria encabulado até o mais avançadinho dos libertinos do século
18. Basta uma passada na seção erótica de uma livraria para encontrar de
romances a guias duvidosos para galgar o orgasmo inesquecível; ou ainda quais as
posições sexuais para os 365 dias do ano; ou como bombar a libido no casamento.
Se no passado era repressão, hoje é banalização, superficialidade.
O
lado bom de tanta informação é que as pessoas não se sentem mais sozinhas com
seus medos, desejos, fantasias e vergonhas. Podem aprender mais sobre seus
corpos e também sobre as doenças, uso de preservativos e como tornar o sexo mais
gostoso. Descobriram que, além de bom, sexo faz um bem danado. Quem tem uma vida
sexual saudável corre 30% menos risco de infarto e de derrame cerebral, adoece
menos e, se adoece, se recupera mais rápido. “As pesquisas
mostram o que a gente já sabe na prática: o sexo deixa as pessoas mais
bem-humoradas e rejuvenesce uns bons anos”, diz a terapeuta sexual Glene
Rodrigues.
O
problema é que essa orgia de informações traz muitas referências de
comportamento, o que confunde as pessoas. Foi o que percebeu a antropóloga
Miriam Goldenberg, que pesquisa a sexualidade do brasileiro há 20 anos. Segundo
ela, a mídia e formadores de opinião falam muita abobrinha sobre sexo, o tal do
“faça assim, faça assado”, que acaba induzindo a
certos tipos de comportamento que muitas vezes não condizem com a personalidade
da pessoa. Ela está cansada de entrevistar homens e mulheres que têm uma vida
sexual normal, mas que estão sempre se questionando. Caso do engenheiro Palhares
(nome fictício, a pedido do entrevistado), de 53 anos, cuja história lembra
mesmo a de um personagem de Nelson Rodrigues. Estava tudo indo nos conformes até
que, de tanto ouvir falar que a frequência sexual dos casais brasileiros é em
média de três vezes por semana, começou a achar que estava defasado.
Instaurou-se um problema. Para piorar, a mulher, que teve poucos parceiros,
começou a se questionar se não precisava ter mais experiências. Não fosse o
suficiente, ela passou a se preocupar com a quantidade de orgasmos que deveria
ter.
Ainda estamos numa fase em que as pessoas têm que aprender que a sexualidade é
uma marca individual, como uma digital. É algo particular e reflete a
personalidade de cada um de nós. “Informação é importante,
mas o fundamental é que cada pessoa se sinta bem com sua sexualidade. Se ficar
se comparando com o que é dito por aí, ela acaba se sentindo deslocada”,
diz Miriam.
E como fazer isso?
Primeiro percebendo do que você gosta ou não, o que o excita e o que o inibe. E
fundamental sempre: ter a capacidade de percepção do outro. E isso vale para
qualquer questão referente à sexualidade: não há problemas se você estiver
feliz, e o que você faz está coerente com quem você é. Essa é a verdadeira
liberdade sexual.
De
consumo rápido Vivemos a cultura consumista do prazer imediato. E esse
comportamento também foi parar em cima do colchão. Não se trata de sexo por
dinheiro, mas do chamado “fast
sex”, o sexo de uma noitada só, outra
característica dos tempos atuais. Segundo a psiquiatra Carmita Abdo – que
coordenou há dois anos a maior pesquisa sobre sexualidade do brasileiro e
publicou o livro Descobrimento Sexual do Brasil –, um dos resultados que mais
chamaram atenção na pesquisa foi justamente a mudança de comportamento da
brasileira em relação à transa – as mulheres, assim como os homens, têm
diferenciado sexo de amor e há um aumento significativo no número delas que
praticam sexo casual quase com o mesmo desembaraço dos homens.
Isso não é nenhum problema, pelo contrário, a experimentação é saudável, faz
parte do nosso descobrimento sexual. “O que não é saudável
é assumir um modelo em que você sente que não está vivendo a plenitude de sua
capacidade de se relacionar, e daí sentir um vazio”, diz o urologista
Celso Gromatzky, do hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. O que ele quer dizer é
que o sexo casual exige trocas de parceiros constantes, não há tempo para
estabelecer vínculos afetivos. “O que se perde é a
cumplicidade”, diz. Em seu consultório, há muitos pacientes que adotaram
a prática da “ficada
horizontal” como modo de vida, justificando que não querem envolvimento
para não ter problemas. Querem o prazer e nada mais. “A
imperfeição desse modelo é a falta de amor, do cuidar e ser cuidado, da
construção do relacionamento, que dá trabalho”, diz Celso. O que se perde
é o artesanato da relação, que leva tempo para ser elaborado, ajustado.
Porque, ao fim e ao cabo, sexo é importante, mas não tanto quanto imaginamos.
Segundo a pesquisa de Carmita, o sexo para as mulheres está em oitavo lugar na
lista de prioridades para se ter qualidade de vida, depois de uma alimentação
saudável, tempo com a família, bom sono, prevenção de doenças e cuidados com a
saúde, trabalhar no que se gosta, tempo para atividades culturais, hobbies e,
ufa! convivência social. Para os homens isso muda um pouco. Sexo é mais
importante, mas perde para ter uma alimentação saudável e tempo com a família.
Ou seja, saúde e vínculos vêm antes.
Repare em outra investigação reveladora sobre o comportamento das pessoas – mas
agora na internet. O pesquisador americano Bill Tancer analisou o comportamento
de 10 milhões de usuários da web na obra O Que Milhões de Pessoas Estão Fazendo
Online e Por Que Isso Importa. Suas conclusões apontam que uma das grandes
mudanças no uso da internet ao longo dos últimos dez anos é a diminuição do
interesse por sites de pornografia, por muito tempo campeões de audiência,
destronados pelo grande aumento da busca de sites de rede sociais.
De novo: a importância do
vínculo social, de parcerias, também acontece no mundo virtual, superando a
questão sexual em si.
Sexo longa vida Outra mudança na sexualidade de hoje se deve ao arsenal de
medicamentos para combater os males que afligem as camas do planeta. E a munição
só tende a aumentar. Ainda este ano deve chegar ao mercado brasileiro mais um
medicamento para disfunções sexuais, 12 anos após o lançamento do Viagra – e
agora o alvo é a ejaculação precoce. Tanto investimento nessa área tem suas
razões: 25% a 30% dos homens no mundo gozam muito rápido, logo nos primeiros
minutos de intercurso. Esse é o segundo maior problema dos machos. O primeiro é
o de ereção – cerca de 15 milhões de brasileiros têm disfunção erétil, e sua
incidência aumenta com a faixa etária: 20% dos homens na faixa dos 20 aos 40
anos, e 50% na faixa dos 40 aos 70 anos. Conclusão: com os medicamentos, há mais
gente transando, e por mais tempo de vida.
Mesmo em idade avançada, mulheres e homens que perderem o fogo podem voltar a
tê-lo com a ajuda de reposição hormonal – que deve ser sempre avaliada pelo
médico. Homens na andropausa têm uma queda na produção de testosterona, o que
pode diminuir o apetite sexual. Já para as mulheres na menopausa, alguns
hormônios produzidos pelo ovário durante a idade fértil diminuem bastante, mas
são importantes pois previnem o risco de infarto, auxiliam na circulação e
aumentam a lubrificação da vagina. Com a reposição, ambos podem se sentir melhor
e mais dispostos. Mas só o médico pode indicá-la para cada caso.
Ou
seja, os medicamentos podem ajudar no desempenho sexual masculino, os hormônios
podem trazer mais disposição sexual para homens e mulheres, mas o maior de todos
os problemas ainda é o mais difícil de tratar: a falta de desejo sexual. “Aí
o buraco é mais em cima”, diz a ginecologista Beleza Terra, referindo-se
ao nosso maior órgão sexual, o cérebro. Muito da vontade de fazer sexo vem de
questões emocionais. E a falta de desejo é uma manifestação de que algo não está
indo bem e por isso tem de ser analisado com muita atenção pelos especialistas.
Conclusão: mesmo com todos os avanços da medicina, os conflitos internos e de
parceria permanecem desde sempre. O histórico sexual da consultora Norma (nome
fictício), 45 anos, ia muito bem até completar 17 anos de casada. Ela perdeu a
vontade e não havia amendoim e ostra que a animasse. A junção trabalho duro +
filhos adolescentes + desleixo do marido funcionavam como um banho de água fria
no desejo. Antes que sua relação naufragasse, procurou a ajuda de uma terapeuta
sexual que a orientou a se conhecer melhor.
O que fazer com as frustrações sexuais de cunho
psicológico?
A
terapeuta Glene Rodrigues, que dá cursos de orientação sexual e tem diversos
grupos de sexualidade no Hospital Pérola Byington, em São Paulo, trabalha com
seus pacientes – a maioria mulheres – algumas questões quando há momentos de
baixa, porque eles sempre vão existir (veja no quadro ao lado).
São estratégias que ajudam a compreender a sexualidade e aumentar a libido.
Porque a própria palavra libido, conceito freudiano usado para designar o tão
famigerado desejo sexual, está em sua origem vinculada a algo muito maior, como
foi dito no começo da reportagem – a energia para a vida. Se algo não vai bem,
se há estresse, falta de tempo, ansiedade, vai ser difícil mesmo sobrar energia
para o bem-bom.
Orientação sexual
O sexo está em todo lugar, é o grande barato da atualidade. Me perdoe começar a
reportagem assim, sem nenhum aquecimento prévio. Mas pode reparar. O sexo hoje é
discutido abertamente em programas de TV, está escancarado nos filmes, é tema
frequente de mesas de bar, presença constante em revistas e livros e está bem ao
alcance do dedo – na internet.
Vamos e venhamos: apesar de fazer parte da humanidade desde sempre, nunca o sexo
foi considerado algo tão importante e nunca se gastou tanta lábia no assunto.
Tanto é que a ciência tem dedicado bastante energia a esse ponto nos últimos
anos, desenvolvendo medicamentos para melhorar problemas ligados ao desempenho
na cama que estão ajudando a prolongar a vida sexual de homens e mulheres em
todo o mundo.
Tamanha atenção para o sexo faz sentido – no fim das contas, você está lendo
este texto graças a ele. Freud, que baseou boa parte de sua teoria sobre o
desenvolvimento humano na sexualidade, afirmou que é impossível desvincular o
sexo do cotidiano. Segundo ele, nossa energia sexual é a grande responsável por
nossa disposição para o trabalho, para o lazer, para coisas prosaicas como ir ao
shopping, bebericar um vinho ou bater perna até a padaria. Controvérsias à
parte, o fato é que cada vez mais nossa sexualidade é tratada com importância.
No
entanto, a grande questão é que, apesar de tanta informação, liberdade de agir e
de se expressar, e da ciência a favor do sexo, ainda há muita insatisfação e
ansiedade quando esse é o assunto. Por que será? Calma, acompanhe a reportagem,
agora com as devidas preliminares, para chegar lá.
Para o alto e avante Em um episódio do seriado Os Normais, que escracha as
agruras dos relacionamentos modernos e seus dilemas sexuais, Ruy, interpretado
por Luiz Fernando Guimarães, está no maior lero- lero com a estagiária, que lhe
conta detalhes picantes de seu relacionamento com o namorado. Ruy, que é mais
velho, mas nada santinho, fica mesmo assim ruborizado com as peripécias da
menina. E solta a frase: “É que, Taty, na sua geração sexo
é uma coisa normal”. Eis uma das principais características do sexo
nestes tempos: ele é tratado a com maior naturalidade.
Mas nem sempre foi assim. Sexo e seus derivados, como sexo oral, anal, orgasmos
múltiplos, clitóris, fetiche, masturbação, prazer feminino... Há 50 anos esses
assuntos não eram falados nem entre quatro paredes. Assunto proibido, coisa do
diabo. Com a revolução sexual, tudo mudou. “Até então,
havia muita repressão e a mulher estava de certa forma submetida aos prazeres
masculinos. Com a pílula, ela se libertou do medo da gravidez indesejada e
passou a buscar seu próprio prazer”, diz a psicanalista Regina Navarro
Lins, autora do livro A Cama na Varanda.
Sim, a libertação sexual abriu caminho para nos expressarmos e falarmos mais
sobre sexo. Há pouco mais de dois anos foi revelada pela primeira vez ao público
na Biblioteca Nacional da França uma seção proibida chamada “Inferno”,
que continha uma vasta coleção de literatura libertina. Nada que surpreenda nos
dias de hoje, em que nossa dieta de sexualidade –
em filmes, na TV, nas conversas – deixaria encabulado até o mais avançadinho dos
libertinos do século 18. Basta uma passada na seção erótica de uma livraria para
encontrar de romances a guias duvidosos para galgar o orgasmo inesquecível; ou
ainda quais as posições sexuais para os 365 dias do ano; ou como bombar a libido
no casamento. Se no passado era repressão, hoje é banalização, superficialidade.
O
lado bom de tanta informação é que as pessoas não se sentem mais sozinhas com
seus medos, desejos, fantasias e vergonhas. Podem aprender mais sobre seus
corpos e também sobre as doenças, uso de preservativos e como tornar o sexo mais
gostoso. Descobriram que, além de bom, sexo faz um bem danado. Quem tem uma vida
sexual saudável corre 30% menos risco de infarto e de derrame cerebral, adoece
menos e, se adoece, se recupera mais rápido. “As pesquisas
mostram o que a gente já sabe na prática: o sexo deixa as pessoas mais
bem-humoradas e rejuvenesce uns bons anos”, diz a terapeuta sexual Glene
Rodrigues.
O
problema é que essa orgia de informações traz muitas referências de
comportamento, o que confunde as pessoas. Foi o que percebeu a antropóloga
Miriam Goldenberg, que pesquisa a sexualidade do brasileiro há 20 anos. Segundo
ela, a mídia e formadores de opinião falam muita abobrinha sobre sexo, o tal do
“faça assim,
faça assado”, que
acaba induzindo a certos tipos de comportamento que muitas vezes não condizem
com a personalidade da pessoa. Ela está cansada de entrevistar homens e mulheres
que têm uma vida sexual normal, mas que estão sempre se questionando. Caso do
engenheiro Palhares (nome fictício, a pedido do entrevistado), de 53 anos, cuja
história lembra mesmo a de um personagem de Nelson Rodrigues. Estava tudo indo
nos conformes até que, de tanto ouvir falar que a frequência sexual dos casais
brasileiros é em média de três vezes por semana, começou a achar que estava
defasado. Instaurou-se um problema. Para piorar, a mulher, que teve poucos
parceiros, começou a se questionar se não precisava ter mais experiências. Não
fosse o suficiente, ela passou a se preocupar com a quantidade de orgasmos que
deveria ter.
Ainda estamos numa fase em que as pessoas têm que aprender que a sexualidade é
uma marca individual, como uma digital. É algo particular e reflete a
personalidade de cada um de nós. “Informação é importante,
mas o fundamental é que cada pessoa se sinta bem com sua sexualidade. Se ficar
se comparando com o que é dito por aí, ela acaba se sentindo deslocada”,
diz Miriam.
E como fazer isso?
Primeiro percebendo do que você gosta ou não, o que o excita e o que o inibe. E
fundamental sempre: ter a capacidade de percepção do outro. E isso vale para
qualquer questão referente à sexualidade: não há problemas se você estiver
feliz, e o que você faz está coerente com quem você é. Essa é a verdadeira
liberdade sexual.
De
consumo rápido Vivemos a cultura consumista do prazer imediato. E esse
comportamento também foi parar em cima do colchão. Não se trata de sexo por
dinheiro, mas do chamado “fast
sex”, o sexo de uma noitada só, outra
característica dos tempos atuais. Segundo a psiquiatra Carmita Abdo – que
coordenou há dois anos a maior pesquisa sobre sexualidade do brasileiro e
publicou o livro Descobrimento Sexual do Brasil –, um dos resultados que mais
chamaram atenção na pesquisa foi justamente a mudança de comportamento da
brasileira em relação à transa – as mulheres, assim como os homens, têm
diferenciado sexo de amor e há um aumento significativo no número delas que
praticam sexo casual quase com o mesmo desembaraço dos homens.
Isso não é nenhum problema, pelo contrário, a experimentação é saudável, faz
parte do nosso descobrimento sexual. “O que não é saudável
é assumir um modelo em que você sente que não está vivendo a plenitude de sua
capacidade de se relacionar, e daí sentir um vazio”, diz o urologista
Celso Gromatzky, do hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. O que ele quer dizer é
que o sexo casual exige trocas de parceiros constantes, não há tempo para
estabelecer vínculos afetivos. “O que se perde é a
cumplicidade”, diz. Em seu consultório, há muitos pacientes que adotaram
a prática da “ficada
horizontal” como modo de vida, justificando que não querem envolvimento
para não ter problemas. Querem o prazer e nada mais. “A
imperfeição desse modelo é a falta de amor, do cuidar e ser cuidado, da
construção do relacionamento, que dá trabalho”, diz Celso. O que se perde
é o artesanato da relação, que leva tempo para ser elaborado, ajustado.
Porque, ao fim e ao cabo, sexo é importante, mas não tanto quanto imaginamos.
Segundo a pesquisa de Carmita, o sexo para as mulheres está em oitavo lugar na
lista de prioridades para se ter qualidade de vida, depois de uma alimentação
saudável, tempo com a família, bom sono, prevenção de doenças e cuidados com a
saúde, trabalhar no que se gosta, tempo para atividades culturais, hobbies e,
ufa! convivência social. Para os homens isso muda um pouco. Sexo é mais
importante, mas perde para ter uma alimentação saudável e tempo com a família.
Ou seja, saúde e vínculos vêm antes.
Repare em outra investigação reveladora sobre o comportamento das pessoas – mas
agora na internet. O pesquisador americano Bill Tancer analisou o comportamento
de 10 milhões de usuários da web na obra O Que Milhões de Pessoas Estão Fazendo
Online e Por Que Isso Importa. Suas conclusões apontam que uma das grandes
mudanças no uso da internet ao longo dos últimos dez anos é a diminuição do
interesse por sites de pornografia, por muito tempo campeões de audiência,
destronados pelo grande aumento da busca de sites de rede sociais.
De novo: a importância do
vínculo social, de parcerias, também acontece no mundo virtual, superando a
questão sexual em si.
Sexo longa vida Outra mudança na sexualidade de hoje se deve ao arsenal de
medicamentos para combater os males que afligem as camas do planeta. E a munição
só tende a aumentar. Ainda este ano deve chegar ao mercado brasileiro mais um
medicamento para disfunções sexuais, 12 anos após o lançamento do Viagra – e
agora o alvo é a ejaculação precoce. Tanto investimento nessa área tem suas
razões: 25% a 30% dos homens no mundo gozam muito rápido, logo nos primeiros
minutos de intercurso. Esse é o segundo maior problema dos machos. O primeiro é
o de ereção – cerca de 15 milhões de brasileiros têm disfunção erétil, e sua
incidência aumenta com a faixa etária: 20% dos homens na faixa dos 20 aos 40
anos, e 50% na faixa dos 40 aos 70 anos. Conclusão: com os medicamentos, há mais
gente transando, e por mais tempo de vida.
Mesmo em idade avançada, mulheres e homens que perderem o fogo podem voltar a
tê-lo com a ajuda de reposição hormonal – que deve ser sempre avaliada pelo
médico. Homens na andropausa têm uma queda na produção de testosterona, o que
pode diminuir o apetite sexual. Já para as mulheres na menopausa, alguns
hormônios produzidos pelo ovário durante a idade fértil diminuem bastante, mas
são importantes pois previnem o risco de infarto, auxiliam na circulação e
aumentam a lubrificação da vagina. Com a reposição, ambos podem se sentir melhor
e mais dispostos. Mas só o médico pode indicá-la para cada caso.
Ou
seja, os medicamentos podem ajudar no desempenho sexual masculino, os hormônios
podem trazer mais disposição sexual para homens e mulheres, mas o maior de todos
os problemas ainda é o mais difícil de tratar: a falta de desejo sexual. “Aí
o buraco é mais em cima”, diz a ginecologista Beleza Terra, referindo-se
ao nosso maior órgão sexual, o cérebro. Muito da vontade de fazer sexo vem de
questões emocionais. E a falta de desejo é uma manifestação de que algo não está
indo bem e por isso tem de ser analisado com muita atenção pelos especialistas.
Conclusão:
Mesmo com todos os avanços da medicina, os conflitos internos e de parceria
permanecem desde sempre. O histórico sexual da consultora Norma (nome fictício),
45 anos, ia muito bem até completar 17 anos de casada. Ela perdeu a vontade e
não havia amendoim e ostra que a animasse. A junção trabalho duro + filhos
adolescentes + desleixo do marido funcionavam como um banho de água fria no
desejo. Antes que sua relação naufragasse, procurou a ajuda de uma terapeuta
sexual que a orientou a se conhecer melhor.
O que fazer com as frustrações sexuais de cunho
psicológico?
A
terapeuta Glene Rodrigues, que dá cursos de orientação sexual e tem diversos
grupos de sexualidade no Hospital Pérola Byington, em São Paulo, trabalha com
seus pacientes – a maioria mulheres – algumas questões quando há momentos de
baixa, porque eles sempre vão existir (veja no quadro ao lado).
São estratégias que ajudam a compreender a sexualidade e aumentar a libido.
Porque a própria palavra libido, conceito freudiano usado para designar o tão
famigerado desejo sexual, está em sua origem vinculada a algo muito maior, como
foi dito no começo da reportagem – a energia para a vida. Se algo não vai bem,
se há estresse, falta de tempo, ansiedade, vai ser difícil mesmo sobrar energia
para o bem-bom.
Fonte: Revista
vida simples, por Marcia Bindo
Postado por
Izabel Cristina da Fonseca, dia 28 de abril de
2010 (12.591)

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