Relações
viciadas em brigas. O que fazer?
São
muitas as relações amorosas que parecem se alimentar de brigas,
desentendimentos, desconfianças, agressões verbais e, muitas vezes, muito mais
vezes do que primeiramente supomos, agressões físicas. As pessoas estão
infelizes, vivem numa montanha-russa, sofrem emoções fortes e oscilantes com
freqüência, mas, no entanto, parecem manter essa roda viva com muito empenho e
dedicação.
Na
medida em que entendemos as relações como processos dinâmicos, fruto da
interação entre duas ou mais pessoas, portanto, influenciada e determinada
pelo comportamento passivo ou ativo de todos que dela fazem parte, somos
obrigados a abdicar definitivamente da idéia de vítima e algoz, um sofredor e
um carrasco, um bom e o outro mau. Quando compreendemos verdadeiramente o
conceito de relações sistêmicas, ou seja, relações onde há uma interdependência
direta entre ações e reações, normalmente fechando um círculo vicioso,
podemos começar a visualizar o poder que cada um tem sobre sua própria vida.
Somos consciente ou inconscientemente responsáveis em grande parte pelo padrões
de vida afetiva que mantemos com as pessoas.
O
fundamental é pararmos de tentar mudar e culpar o outro e passarmos a olhar
para nossos padrões de resposta e feedback ao sistema implantado. Sei que não
é muito fácil entender que só fazem conosco o que permitimos, mas temos que
reconhecer que essa é uma verdade quase irrefutável.
Voltando
aos casais viciados em briga, vale ressaltar que estes criam uma falsa impressão
de que a vida calma, estável e serena é monótona, sem graça, morna. As
pessoas que mantêm relacionamentos que precisam da briga como ingrediente
importante, ficam viciados em emoções fortes. Lidam o tempo todo como o eixo
do ser amado e rejeitado, do amor e do ódio, de duras ofensas e pedidos dramáticos
de desculpas, de tapas e beijos. Essas brigas, quase que invariavelmente
terminam em tesão e incrementam a vida sexual desses casais. É claro que todo
mundo já experimentou o gosto sedutor do brigar e fazer as pazes. Quando isso
se torna o padrão do relacionamento, gerando sofrimento e as pessoas não
conseguem sair desse túnel é que começam os problemas.
Esses
casais geralmente vivem uma “relação gangorra”. Para que um se sinta
seguro e pouco ameaçado o outro precisa estar inseguro e vulnerável. Há inúmeras
maneiras de manipular essa situação. Às vezes o mais inseguro, temeroso de
transparecer sua vulnerabilidade, adota postura oposta. O parceiro/a se sente um
pouco desprezado, com a impressão de que é pouco importante. Passa então a
fazer contato com a rejeição e o medo de perda, fica ansioso/a, passa a ter
atitudes controladoras. O que “está por cima” naquele momento, no caso o
verdadeiro inseguro, cria um sistema onde sua sensação de confiança e segurança
vem da fragilidade do seu parceiro/a. Esse quadro se inverte, a gangorra muda de
posição cada vez que o que está “por baixo” consegue sair da fragilidade
e se apossar de sua dignidade. Encontrar o equilíbrio da gangorra é que é o
desafio. Esta situação descrita é mais comum do que se pensa e gera uma relação
onde amor se confunde com medo, onde paz se confunde com tédio e onde respeito
e harmonia se confundem com fraqueza e monotonia.
Talvez
precisem muito de doses fortes de adrenalina para se sentirem vivos e pulsantes.
Não seria melhor aderir aos esportes radicais? Não seria menos doloroso cada
um procurar se ver e dessa forma ser capaz de escolher e interferir nos sistemas
criados em sua vida?
Tenham
a certeza de que sim.
Até
a próxima!
Eda
Fagundes é psicóloga clínica. Atua há
25 anos na área de terapia individual, de
casal e de família. Há 17 anos também
atende pacientes com assuntos voltados à
sexualidade e seus transtornos. É
proprietária do Centro de Psicologia Clínica
e Preventiva, no Rio de Janeiro.
Fonte: Provedor
UOL, por Eda Fagundes
Postado por
Izabel Cristina da Fonseca, dia 14 de maio de
2010 (12.802)