Vida a Dois

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A Paixão que nos move

O monge zen-budista japonês Yasuhiko Genku Kimura nos convida a olhar para dentro de nós e começar uma jornada de descoberta da própria alma e do sentido maior que atribuímos à nossa existência.

Acordar de manhã cheia de energia para viver mais um dia, ir saltitante para o trabalho, encontrar pes­soas que acrescentam algo em nossa vida e nos sentir bem a cada instante. Quem não quer esse pacote de felicidade?! Para a maioria das pessoas, no entanto, esse é um cenário apenas idealizado. A boa notícia é que ele pode se tomar real. Em vez de tristeza, ansiedade ou apatia, dá para viver com mais alegria e conquistar uma força interior que traga integridade, plenitude e liberdade. O monge zen-budista japonês Yasuhiko Genku Kimura, após um doloroso processo, vivenciou essa transformação.

Aos 14 anos, ele perdeu a motivação pela vida. Havia sido educado para o sucesso e para ser o "número um" em todas as disciplinas da escola. Então percebeu que estava extrema­mente solitário e sem perspectiva de futuro. Perdido e angus­tiado, passou a perguntar aos mestres e parentes qual era o sentido da vida. Foi também buscar pela resposta na filosofia. Tudo em vão. Tinha apenas 16 anos quando começou a pen­sar em um jeito de se suicidar sem deixar pistas. Um dia, em meio a esses pensamentos, Yasuhiko teve uma experiência que os budistas chamam de iluminação. De repente, ele se sentiu unificado ao Universo e entendeu o sentido da existên­cia. Decidiu viver em um mosteiro e ordenou-se monge pre-cocemente, aos 21 anos. Ouvindo seu coração, deixou seu país e foi para os Estados Unidos. Hoje, mora em Nova York com a mulher e presta consultoria a empresários e executivos, ministra cursos, seminários e workshops no mundo todo.

Aos 55 anos, uma de suas atividades preferidas é ajudar as pessoas a encontrar sua verdadeira paixão, que Yasuhiko denomina de Paixão da Alma. Trata-se da essência genuí­na, aquilo que realmente somos. Para ele, a paixão de toda alma é evoluir, o que significa tornar-se cada vez mais ela mesma. Alguns não estão conscientes disso, mas, à medida que adquirem informações sobre a evolução, começam a detectar esse desejo intrínseco e, quanto mais o percebem, mais capazes são de guiar seu próprio desenvolvimento. O monge acredita que cada alma tem uma missão específica, que é de sua responsabilidade e não pode ser transferida a ninguém. Realizá-la é tudo o que nossa alma mais deseja. Não há felicidade maior do que descobrir a paixão e estabe­lecer consigo o compromisso de viver de forma coerente com essa verdade mais íntima.

Em seu workshop Passion, durante dois dias de intenso tra­balho, Yasuhiko faz uma série de questionamentos que esti­mulam os participantes a olhar para dentro de si. Em vez de se basearem em um raciocínio lógico, são orientados a "ficar com a pergunta" até que a resposta brote do seu interior. Nor­malmente, ao final do processo, cada um descobre sua paixão e a expressa por meio de uma frase curta, bastante clara, mas com sentido amplo. A paixão do mestre Kimura, por exemplo, é "contribuir com as pessoas em seu processo de ganho de consciência" e ele fez disso a sua profissão. O monge afirma que quanto mais uma pessoa vive de acordo com seu desejo íntimo, mais alegria, energia e felicidade ela experimenta. »

 

Entrevista

 

BFI Por que precisamos descobrir nossa verdadeira paixão?

YKI Essa é a natureza de nossa alma. Ela deseja se expressar, se manifestar. As pessoas querem ser quem realmente são. Quan­do fazemos algo que não tem a ver com a nossa paixão, nos sentimos infelizes. Quando queremos ser como outra pessoa, nos limitamos. Cada pessoa é única e original. A originalidade é um dos critérios para saber se alguém é, ou não, iluminado, porque quando uma pessoa se ilumina, se torna ela mesma.

 

BF I Para adquirirmos consciência e nos darmos conta do que viemos fazer neste planeta, é necessário passarmos por uma crise existencial?

YKIA iluminação acontece quando nos descolamos de nosso ego, cuja predominância determina um modo de vida em que há mais sofrimento do que alegria. Só livres do domínio do ego vamos em direção à nossa verdadeira essência. Essa passagem é uma experiência de crise. Além disso, viver no âmbito do ego leva à insatisfação, porque tudo o que realmen­te queremos - amor, alegria e felicidade verdadeiras - ele não pode nos oferecer. A essa passagem chamamos "a noite escura da alma", tempo em que estamos à procura de uma nova luz. Nessa trajetória em busca da consciência, ramos de um extre­mo a outro e isso nos faz morrer para o passado, abrindo espa­ço para o novo. A mente, que estava orientada pelo passado, vive essa experiência como uma crise profunda. Com a evolu­ção espiritual, aprende-se a ter cada vez mais alegria.

 

BF I Em seus woricshops, o senhor propõe questionamen-tos profundos e pede aos participantes que deixem a res­posta vir de dentro. Temos todas as respostas em nós? Por que é tão difícil acessá-las?

YKI Sim, temos. O que eu ensino é como atingir esse lado interior. A meditação é um caminho, pois traz luz para a cons­ciência. Uma alternativa é focar na pergunta e aprender a es­tar atento ao mundo interno. Tudo que nos ajuda nesse pro­cesso contribui para a busca pela nossa essência.

 

BF I Quanto tempo isso pode levar?

YKI Há pessoas que meditam poucos meses e adquirem esse contato íntimo, outros passam anos sem conseguir. Se você medita de 15 a 30 minutos por dia começa a perceber cada vez mais claramente qual é o seu propósito na vida. No entanto, é necessário transformar o simples querer meditar em um com­prometimento. Isso significa fazê-la todos os dias. Meditação requer prática diária e, mesmo quando não há vontade, é pre­ciso insistir até que você comece a se divertir e aproveitar.

 

BF I Se nossa alma já nasce conhecendo a verdade sobre sua essência, por que nos distanciamos tanto disso?

YKI No processo de crescimento, acabamos nos desconec-tando da fonte de nosso ser. O próprio sistema educacional não é desenhado para nutrir a paixão. As pessoas escolhem o que fazer de sua vida baseadas em um padrão social, em con­dições superficiais, e não no que elas realmente são. Conse-quentemente, não experimentam felicidade e não têm suces­so. Há ainda condições culturais e familiares que nos atrapa­lham. E nós mesmos nos colocamos limitações que, com o tempo, se tomam invisíveis a nossos olhos. Então, começa­mos a viver dentro daquilo que achamos que podemos fazer ou ser e isso restringe nossas possibilidades reais. Quando as pessoas descobrem sua verdadeira paixão, essas barreiras se tomam irrelevantes e desaparecem.

 

BF I Viver em desacordo com o que realmente somos signi­fica falta de coragem?

VKI Do futuro, pouco sabemos, e o medo é uma reação natu­ral frente ao desconhecido. No entanto, esse sentimento é apenas uma interpretação negativa diante do novo. Quando descobrimos nossa paixão, o medo se transforma em estímulo, em um desafio atraente. Muitas vezes, aparece exatamente porque a pessoa estava muito perto de entrar em contato com sua paixão e ainda não havia percebido isso.

 

BF I Muitos abrem mão de fazer o que gostam por uma pro­fissão que lhes renda melhor remuneração. Como é possí­vel conciliar as duas coisas?

YKI Quando você faz algo que ama, naturalmente faz me­lhor. Se a sua profissão é uma expressão da sua paixão, a ten­dência é que você se tome um profissional melhor do que os que apenas têm talento para desempenhar aquela função. O que faz um grande mestre é a expressão criativa de sua essên­cia. É isso o que permite o grande florescimento de nosso ta­lento e genialidade. Só assim seremos pessoas bem-sucedidas. E, se a profissão é uma daquelas que envolvem muito dinhei­ro, você pode ficar rico ao mesmo tempo.

 

BF IE se não for uma dessas profissões bem remuneradas?

YKI Alguns ofícios não produzem tanta riqueza, mas, se eles refletem o seu âmago, ter muito dinheiro perde a importância. Muitos procuram por essa recompensa exatamente porque não vivem a paixão. Mas há casos de pessoas que estão vivendo sua paixão e ganham muito dinheiro com isso. Meu conselho é: faça alguma coisa que você faria de graça e cobre por isso.

"Pouca gente se lembra de que a vida é finita e nunca considera que hoje pode ser o último dia.

 

BFI Quando uma pessoa descobre que tem pouco tempo de vida, em geral decide fazer tudo da forma como sempre quis. Por que esperamos tanto tempo para isso?

YKI I Infelizmente, as pessoas não são capazes de se dar con­ta de quão precioso é cada momento. Presumimos que esta­remos vivos amanhã. Poucos têm em mente que a vida é fi­nita, e nunca consideram que hoje pode ser o último dia de sua existência. Cada minuto é único e precioso. Quando alguém descobre que tem pouco tempo pela frente, se dá conta de que a maior parte do que nos traz preocupação é coisa miúda. Pelo fato de assumirmos que nossa vida conti­nua dia após dia, esses pequenos problemas se tornam gran­des demais e acabamos nos esquecendo do quão importan­te é viver nossas verdadeiras paixões.

 

BF I Será que não agimos dessa maneira porque é difícil pensar em nossa finitude?

YKI Faz parte da evolução da consciência e da maturidade do ser humano perceber que há coisas que não podem ser alteradas, como a morte. Aceitar isso nos faz mudar de atitu­de e aproveitar cada instante com a alma, entendendo que nada é permanente. Assim, a vida se torna plena: não impor­ta o que aconteça, você está presente em cada momento.

 

 

Fonte:  Revista BONS FLUIDOS, março de 2010

Postado por Izabel Cristina da Fonseca, dia 3 de abril de 2010 (12.123)

 

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