Encontro com a alma no espaço virtual
Site na internet faz
uma interessante conexão entre dois universos aparentemente incompatíveis:
O
mundo dos sonhos e o mundo virtual por Silvia Graubart
Há quem suponha impraticável
trabalhar as imagens oníricas pela internet. Polêmico, sem dúvida, esse modo de
entrar em contato com os sonhos foi desenvolvido pelo analista junguiano de
Boston, Robert Bosnak, e sua assistente Jill Fischer, em 1997. Mas além de
possível, a prática é uma interessante conexão entre dois universos
aparentemente incompatíveis: o mundo virtual e nossas imagens inconscientes. No
universo on line pode ser associado à linguagem dos sonhos.
Uma breve introdução sobre a relação que se estabelece
entre analista, paciente e sonhos a partir de Freud, entretanto, se faz
necessária para melhor compreender essa proposta de trabalho que se desenvolve
em grupo. Freud vê no sonho a possibilidade de descobrir, por meio da associação
livre, o núcleo das idéias patológicas e as diversas estruturas oníricas
rastreando a memória do sonhador. Jung radicaliza essa proposta, permitindo que
o sonhador encontre os elos associativos agrupados em torno de cada imagem para
recuperar o contexto geral de seu sonho. Robert Bosnak aprofunda ainda mais essa
questão, dando total prioridade ao papel do sonhador e atribuindo às imagens
oníricas um corpo capaz de liberar a psique definitivamente das amarras do ego,
do controle da razão e de qualquer influência que o analista possa ter enquanto
intérprete, facilitador ou amplificador.
Bosnak concebe os sonhos como
“estruturas espaciais”, ou seja: imagens tridimensionais, perceptíveis por meio
do resgate – com a maior riqueza de detalhes possível – do ambiente e dos
personagens que fazem parte do sonho. Cheiros, cores, texturas ganham
importância, desencadeando associações e transformações que eliciam novos
estados psíquicos e conferem novos sentidos e significações às imagens. Ele toma
emprestado o modelo alquímico e a antiga tradição de contar sonhos em voz alta,
em grupo, atualizando-a para a perspectiva da rede mundial de computadores.
Estabelece, assim, uma espécie de ritual contemporâneo de aprofundamento nas
imagens oníricas que também pertence à tradição oral.
No cyberdreamwork, como as sessões são chamadas, a
aproximação das imagens oníricas acontece à medida que o sonhador recria
novamente o sonho, como se este acontecesse novamente, no tempo presente. Isso
permite que as imagens mais sombrias e difíceis do enredo sejam mais bem
elaboradas, possibilitando reais potencialidades de transformação.
Bosnak segue a esteira junguiana, alargando a moldura
psicanalítica que enquadra os sonhos como meras lembranças e anseios
inconscientes não satisfeitos, frutos de experiências passadas. Como Jung e
James Hillman, ele encara os sonhos prospectivamente (do por quê? ao para quê?),
ou seja, o futuro tomando forma no indivíduo sem disfarces, e a psique criando
novas e múltiplas realidades por meio da imaginação.
Aproximação das imagens
– Para restabelecer o contato com o ambiente e as
imagens do sonho, sonhador e demais participantes do grupo são convidados a
perceber as sensações corporais desencadeadas quando o sonho é contado pela
primeira vez. Num segundo relato novas reações corporais podem surgir e as
pequenas variações entre a escuta de uma e outra apresentação do sonho sugerem a
direção que o trabalho deve tomar. Através de um exercício que recria o espaço
do sonho e acessa diferentes níveis de realidade psíquica, o sonhador é levado a
aprofundar a interação com essas imagens: uma espécie de reencontro com o mundo
onírico, que se dá por meio de um cuidadoso questionamento não indutivo e não
sugestivo, que ajuda o sonhador a intensificar progressivamente o foco nas
imagens.
Com isso, quebra-se a supremacia do ego, que deixa de
ser protagonista e dono da ação. A progressiva retomada do contato com as
imagens do sonho remete o sonhador a sentimentos polarizados que desencadeiam
sensações corporais contrastantes, enraizadas no núcleo do conflito. As imagens
do sonho rompem as fronteiras da clínica convencional e o mundo inconsciente se
apresenta atrelado à realidade do sonhador através de associações que despertam
memórias relacionadas a sensações corporais, possibilitando ao sonhador
continuar “sonhando” o sonho com a atenção flutuante entre a consciência
desperta e a consciência das imagens. O espaço virtual, como um novo pano de
fundo, amplia a habilidade dos participantes do grupo estar emocionalmente
presentes, mesmo quando fisicamente ausentes. E esse contato que se estabelece
com as imagens pode se constituir em mais uma alternativa para, independente de
interpretação ou amplificação, intensificar a realidade do mundo inconsciente,
que difere tanto da experiência imediata do sonho quanto da interpretação que
possamos fazer dele.
Quanto mais o sonhador estiver focado nos eventos e no ambiente do sonho, mais
emoções vão surpreendê-lo com sensações que se manifestam no corpo físico. Indo
e voltando a essas imagens, circulando entre elas como se o sonho estivesse
acontecendo novamente, torna-se possível tecer uma trama entre sensações e
emoções, de um lado, e os eventos do sonho no seu próprio ambiente, de outro.
Esse entrelaçamento de imagens provoca uma transformação na psique, na medida em
que eliciam uma ampla seqüência de insights que mesclam emoção, sensações e
fazem reverberar as imagens em outras imagens. Essa atividade auto-reguladora da
psique permite que sentimentos polarizados possam ser revividos, levando a um
novo estágio de compreensão ou a uma nova atitude consciente para solucionar o
conflito por eles desencadeado. A esse movimento psíquico Jung dá o nome de
função transcendente.
Bosnak inverte a direção sugerida
por esse conceito, ou seja, entende que o movimento acontece de cima para baixo,
por isso propõe uma nova nomenclatura: função radical pela qual a psique, como o
próprio nome indica, entende os sentimentos desencadeados por estados de
consciência contrastantes como originários da mesma raiz que desencadeia o
conflito. Para levar o sonhador a tomar consciência dessa polaridade, o trabalho
de cyberdreamwork foca primeiro um dos pólos do conflito, identificando-o por
meio das sensações corporais (físicas, auditivas, olfativas ou visuais) em torno
deste estado, tornando-o mais vivo e real. É o que a psicologia junguiana
entende pelo conceito de circumambulação: a exploração exaustiva ao redor das
imagens, movimento que lhes confere mais força e permite que sejam mais
facilmente identificadas no corpo.
Essa nova e ousada maneira de trabalhar com sonhos
também abandona a noção freudiana da livre associação, por não circular a imagem
e afasta-se da amplificação por acreditar que, freqüentemente, essa técnica
também pode afastar o sonhador do contato imediato com as imagens. Poderíamos
dizer que o cyberdreamwork vale-se mais da imaginação ativa, não no sentido de
afastar o sonhador da imagem original, mas com a intenção de circunscrever seus
limites. Por imaginação ativa, entendemos o método de assimilação dos conteúdos
inconscientes através de alguma forma de auto-expressão, que pode ser corporal.
Na mesma trilha da psicologia arquetípica, Bosnak propõe ao sonhador “ficar com
a imagem”, dialogando com ela nos seus próprios termos, ou seja, com outras
imagens. Para ele, a função radical – em direção às raízes – começa a tomar
corpo quando estados de consciência contrastantes, que determinam o conflito,
são suportados no corpo ao mesmo tempo: é o corpo da psique (as imagens
inconscientes) gerando um movimento descendente, para baixo, em direção à alma.
Silvia Graubart é analista junguiana, jornalista, terapeuta sexual,
membro da Associação Junguiana do Brasil (AJB), do Instituto Junguiano de São
Paulo (IJUSP) e da International Association for Analytical Psychology, Zurique
(IAAP).
Fonte:
Revista
Mente e Cérebro, por Silvia Graubart
Postado por
Izabel Cristina da Fonseca, dia 2 de abril de
2010 (12.101)