Vida a Dois

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A importância das revelações para os relacionamentos amorosos

O que revelamos e o que deixamos de revelar para os nossos parceiros  amorosos afetam profundamente os relacionamentos que temos com eles. Muita gente conversa bastante sobre assuntos não pessoais. Isto é importante. No entanto, as conversas sobre assuntos pessoais têm um efeito especial na criação, desenvolvimento e manutenção dos vínculos afetivos. Este tipo de conversa funciona como uma espécie de cola dos relacionamentos: nos ligamos mais com aqueles que se abrem conosco e que nos acolhem adequadamente quando nos abrimos com eles.

 

Dosagem certa de revelações

Não é possível falar qualquer coisa, com qualquer profundidade, para qualquer um, de qualquer forma e em qualquer momento. Para que as revelações sejam eficientes é necessário regular suas dosagens, suas formas de apresentações e as circunstâncias em que elas ocorrerão.

 

Zonas de privacidade

Cada um de nós necessita de uma certa quantidade de privacidade. Esta quantidade varia bastante de uma pessoa para outra, de uma circunstância para outra e de um tipo de relacionamento para outro.

A melhor forma de representar visualmente os níveis de privacidade é através de um desenho de vários círculos concêntricos. A área que fica entre os dois círculos mais externos deste desenho representa a zona mais superficial de privacidade. Esta zona pode ser exibida por quase todo mundo, para quase todos os tipos de interlocutores e em quase todos os tipos de situações. O círculo mais interno é a zona mais íntima de privacidade. Os acessos a esta zona são restritos a pessoas com as quais temos relações mais próximas ou a profissionais comprometidos com o sigilo profissional. Existem restrições àquilo que podemos comunicar mesmo para aqueles com quem temos relações muito íntimas. Por exemplo, certas informações que revelamos para os amigos não podem ser reveladas para os cônjuges e filhos (por exemplo, revelar de um caso extraconjugal em andamento).

 

Os tipos de relacionamentos afetam os níveis de intimidade das comunicações.

Cada tipo de relacionamento (amizade, romântico, profissional etc.) limita e impõe um determinado nível de compartilhamento da privacidade. Limita porque para cada tipo de relacionamento só podemos revelar certos tipos de informações. Impõe porque cada tipo de relacionamento dá direito a certos tipos e níveis de revelações. Por exemplo, para que um relacionamento seja considerado romântico cada parceiro deve compartilhar com o outro a grande maioria das coisas importantes que ocorrem com ele. Quando isto não acontece, aparece aquela sensação de que está acontecendo algo errado naquela relação.

 

As circunstâncias afetam os níveis de intimidade das comunicações

Os tipos de conversa devem se adequar às circunstâncias. Existem momentos em que assuntos mais leves são mais indicados e momentos em que as pessoas devem abrir a alma. Por exemplo, os manuais para tratamento de casais em crise sugerem que os assuntos espinhosos não devem ser tratados naqueles bons momentos que existem entre os casais, como por exemplo, durante os jantares, na hora de dormir ou na hora que um está assistindo o seu programa predileto de televisão.

 

Apresentar feedbacks sobre o que o interlocutor está dizendo é muito importante

Muita gente acha que se abrir com o interlocutor é revelar grandes segredos, guardados durante anos. No entanto, os estudos nesta área mostraram que mais importante que isto é o posicionamento sobre o que ele está dizendo e fazendo. Este tipo de posicionamento anima a conversa e é um dos principais tipos de revelação que uma pessoa pode fazer para a outra.

 

A manifestação da atração pela outra pessoa é um dos principais caminhos para iniciar um relacionamento amoroso.

Para que seja possível o início de um relacionamento amoroso, pelo menos uma das partes tem que manifestar o seu interesse pela outra e verificar se esta corresponde ao seu interesse. Esta manifestação pode variar desde uma forma sutil e ambígua (pode ser confundida com manifestações de sociabilidade, polidez, amizade) até formas claras e explícitas de interesse amoroso (beijar na boca, pedido para namorar etc.), passando por formas intermediárias (rodear a outra pessoa, mostrar-se especialmente gentil com ela, só ter olhos para ela etc.).

 

Inimigos das revelações do interesse amoroso

Existe uma espécie de pacto de silêncio entre aquelas pessoas que são solitárias crônicas. Cada uma amarga a sua solidão no seu canto. Já que a manifestação de interesse amoroso é tão importante porque tanta gente deixa de fazê-lo? Vamos examinar agora vários dos motivos para este tipo de falha.

 

“E se....?”: um dos maiores inimigos dos inícios de relacionamentos amorosos

Uma vez atendi um cliente muito tímido. Ele já tinha perto dos trinta anos e nunca tinha namorado. Perguntei se ele tinha uma explicação para isso. Ele disse que ia relatar uma conversa que teve com um amigo do seu pai, a qual, pensava ele, explicava a sua situação. O seu relato foi o seguinte:

–    Fulano, que conhecia meu pai a vida toda, ao saber que eu tinha dificuldades para namorar, me chamou e disse:

“O motivo de você não namorar é o mesmo que o seu pai tinha antes de se casar (ele só namorou a sua mãe). Este motivo é o “E se...?”. “

–    Como assim?, perguntei. Ele explicou.

O seu pai, sempre que sentia atração por uma moça, passava a fazer o seguinte questionamento: “E se ela ficar incomodada com a minha abordagem? E se ela tiver outros pretendentes muito melhores que eu? E se todo mundo ficar sabendo que eu levei um fora dela?”, e assim por diante. Em razão destes questionamentos e dos temores que eles suscitavam, ele sempre optava por não tomar nenhuma iniciativa amorosa. A sua mãe teve que laçá-lo, se não ele teria fugido também.

 

Conseqüências mais temidas da manifestação de interesse amoroso

As conseqüências são as seguintes:
•    Medo de ser rejeitado. Este é o maior medo. Quando temos certeza de que uma iniciativa amorosa será aceita, quase todo o medo termina. 
•    Medo de ser visto como inadequado. Temos medo de que a pessoa que recebeu a revelação passe a nos ver como inadequados e desprezíveis. 
•    Medo de ver a si próprio como inadequado. Quando somos rejeitados e atribuímos a rejeição a alguma inadequação ou deficiência nossa, isto é muito difícil. Quando quem é rejeitado atribui a rejeição a peculiaridades do rejeitador ou às circunstâncias, ela é bem mais leve.
•    Medo de perder um relacionamento profissional ou amistoso que já existe. Existe uma boa chance da revelação do interesse amoroso alterar o relacionamento que já existe com uma pessoa. O risco é duplo: ser rejeitado e, além disso, perder o relacionamento que havia anteriormente.  Já ouvi muita gente se gabar de ser respeitada em um círculo profissional devido ao fato de nunca ter se envolvido com os clientes (“Onde se ganha o pão não se come a carne”).
•    Medo que outras pessoas fiquem sabendo da rejeição. Existe a chance de a notícia da rejeição se difundir para outras pessoas e daí ocorrerem novas conseqüências (fofocas, condenações etc.). 
•    Perda da chance de cativar a outra pessoa. Quando uma pessoa sabe do nosso interesse amoroso por ela, isto pode prejudicar as chances de cativá-la. Enquanto passávamos apenas por seu amigo ou colega tínhamos a oportunidade de tentar despertar a sua admiração e o afeto. Quando ela fica sabendo do nosso interesse amoroso, as nossas ações passam a ser consideradas sob a ótica da suspeita de segundas intenções.

Acolher adequadamente as revelações do parceiro
Não basta ter boas habilidades para revelar informações pessoais. Saber acolher as revelações do outro também é fundamental. O essencial é ouvir atenciosamente o que o outro está dizendo e validar os seus sentimentos. Quem ouve desta maneira diz palavras como: “Chato, não é?”, “Pesado isso, não é?”, “Você tem razão por estar se sentindo assim.” Ou, quando o relato trata de algo positivo: “Que legal”, “Parabéns”. Tudo isso é dito no tom de voz condizente e com as expressões faciais adequadas. Um erro muito comum é dar conselhos não solicitados. Muita gente alega que fica desconfortável quando outras pessoas estão revelando sentimentos porque não sabem o que dizer. Outras lançam mão de argumentos para tentar diminuir as causas do sofrimento. Outras ainda partem para o “Comigo aconteceu algo semelhante”. 

Revelar da forma adequada o nosso interesse amoroso e acolher adequadamente as manifestações amorosas dos possíveis parceiros podem melhorar muito a nossa vida amorosa. 

Ailton Amélio da Silva é doutor em Psicologia, psicólogo, psicoterapeuta e professor da USP, em São Paulo (SP). É autor de vários estudos científicos sobre relacionamentos amorosos e dos livros "O Mapa do Amor", "Para Viver um Grande Amor" e o mais recente "Relacionamento Amoroso: Como Encontrar Sua Metade Ideal e Cuidar Dela".

 

Fonte:  Provedor BOL, por Ailton Amélio

Postado por Izabel Cristina da Fonseca, dia 5 de junho de 2010 (13.248)

 

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