Está na hora de
terminar?
A eficácia para terminar
relacionamentos insatisfatórios é tão importante para o estabelecimento de um
bom relacionamento amoroso quanto as capacidades para atrair parceiros,
iniciar relacionamentos e desenvolver bons relacionamentos deste tipo.
Está na hora de terminar o relacionamento?
É importante não prolongar desnecessariamente um
relacionamento que não tem chance de dar certo. Este prolongamento implica na
perda de tempo, na criação de outros compromissos e no estabelecimento de
vínculos que dificultarão ainda mais a separação e aumentarão os danos, tanto
para aqueles que permanecem no relacionamento insatisfatório como para aqueles
que o romperão no futuro. Por isso, o término de relacionamentos inviáveis,
embora possa ser difícil e dolorido na época que está acontecendo, é vantajoso
para ambos os parceiros a médio e longo prazo.
Critérios para avaliar o relacionamento
Os graus de satisfação ou insatisfação com o parceiro
e com o relacionamento dependem dos critérios e das expectativas que são
utilizados para julgá-los. Alguns destes critérios são compartilhados por quase
todo mundo (por exemplo, quase ninguém gosta de ser maltratado pelo parceiro).
Outros destes critérios variam entre as pessoas (por exemplo, algumas pessoas
ficarão mais satisfeitas do que outras pelo fato de o parceiro dedicar muito do
seu tempo aos amigos).
Os graus de satisfação ou a insatisfação são
resultantes da comparação entre aquilo que é esperado e aquilo que o
relacionamento está oferecendo ou pode oferecer. Algumas pessoas são pouco
exigentes e acabam envolvidas em relacionamentos pouco satisfatórios. Outras são
exigentes demais. Certas pessoas têm expectativas irrealistas quanto ao que um
relacionamento pode oferecer. Uma delas é, por exemplo, a expectativa de que o
casamento vai trazer a felicidade (“E foram felizes para
sempre!”). Esta expectativa é irrealista porque existem evidências de que
as pessoas tendem a ser tão felizes ou infelizes durante o casamento quanto já
eram antes do mesmo (portanto, não acredite no ditado: “Quando
casar sara!”). Quando as exigências são irrealistas, o psicólogo vai
sugerir uma terapia e não a separação. Outra expectativa irrealista é esperar
receber mais do que oferece para o parceiro. Quem é super exigente nesta área
deve pensar se estaria à altura do parceiro e do relacionamento que procura. O
problema da pessoa irrealista está nela própria e não no parceiro.
Motivos para terminar um relacionamento
Vamos apresentar aqui alguns dos principais problemas
que são mais frequentes nos inícios dos relacionamentos amorosos. Leia a
descrição de cada um deles, pense no seu relacionamento e responda as seguintes
questões: (1) Quão frequente este problema aparece? (2) Quanto ele dificulta o
relacionamento? (3) Quanto este problema me incomoda? (4) Qual a chance de
solucioná-lo?
Refletir sobre a presença e a gravidade destes obstáculos ajudará você a decidir
se deve terminar o relacionamento. Por outro lado, para tomar esta decisão
também leve em conta tudo de bom que este relacionamento oferece para você.
Principais problemas que podem surgir nos
inícios dos relacionamentos amorosos
• Pouca atração sexual e romântica pelo parceiro. Por
exemplo, logo nos primeiros encontros você verifica que “não
houve química” com o
parceiro: ele não despertou quase nada do seu romantismo ou do seu desejo.
• Incompatibilidades de objetivos para o relacionamento. O parceiro apresentou
indícios de que aquilo que ele quer no relacionamento está muito longe daquilo
você quer. Por exemplo, você quer namorar e ele não quer assumir nenhum
compromisso. Para ele, cada encontro vale por si. Ele sempre se esquiva de
marcar qualquer compromisso futuro: o próximo encontro sempre tem que ser
tratado em outra ocasião e de acordo com as conveniências dos dois.
• Incompatibilidades em características pessoais que são muito importantes para
o relacionamento. Estas incompatibilidades podem estar presentes em várias áreas
como, por exemplo, nas características pessoais, na forma de lidar com o
dinheiro, quanto aos valores, objetivos de vida e graus de escolaridade. Por
isso, você sente que “habitam
mundos diferentes” e terão muitas
dificuldades para se compreenderem e se apreciarem em áreas importantes da vida.
• Falta de confiança. Esta falta de confiança pode ter surgido porque o parceiro
já traiu a sua confiança ou você ficou sabendo de coisas que ele fez em outros
relacionamentos que indicam que ele não é confiável. Por exemplo, você descobriu
que o seu parceiro contou algumas mentiras graves para você ou você ficou
sabendo que ele já traiu outras parceiras anteriores.
• O parceiro age de forma abusiva ou desrespeitosa. Por exemplo, ele quer sempre
impor a sua vontade, é agressivo com palavras e tenta tirar vantagens de você
sempre que pode.
• Falta de admiração. Um dos dois ou ambos não tem admiração pelo outro. Por
exemplo, você vai ficar constrangida e envergonhada na hora de apresentá-lo para
seus amigos ou para a sua família. A admiração é um dos requisitos do amor e,
por isso, não pode ser dispensada.
• O relacionamento está proporcionando muitos custos e poucos benefícios. Os
momentos ruins entre vocês são mais freqüentes e duradouros do que os bons
momentos. Por exemplo, você ou ele ficam aliviados quando os fins de semana
terminam e, assim, não terão que conviver por tanto tempo com o outro.
• Você sente que este relacionamento não tem chance de dar certo. Você já está
convencida de que este relacionamento não tem chance e você simplesmente está
adiando o inevitável, porque ainda não tem condições para terminá-lo.
Crise não é sinônimo de término
É claro que nem sempre a presença de problemas indica
a necessidade de separação. Um estudo sobre as crises entre os casais verificou
que quase todos os relacionamentos duradouros passam por crises sérias. Este
estudo verificou também que quase todos aqueles que estão passando por estas
crises pensam que a separação é inevitável. No entanto, a maioria dos
relacionamentos sobrevive a estas crises e volta a se firmar posteriormente.
Portanto, quem está vivendo uma crise deste tipo deve se perguntar: será que
isto que estou vivendo é apenas uma crise ou realmente está acontecendo algo
mais sério?
Fatores
que dificultam o término do relacionamento
Nem sempre é fácil terminar um relacionamento amoroso.
Existem vários motivos que dificultam a separação, mesmo quando já está claro
que o relacionamento é inviável e que o melhor seria terminá-lo. Alguns dos
principais motivos que dificultam o término dos relacionamentos são os
seguintes:
• Ainda há atração romântica e
sexual. Em certos casos, embora o relacionamento seja inviável por
diversos motivos ainda assim há atração romântica e sexual entre os parceiros.
• Perdas secundárias causadas pelo término. Quanto
mais estabelecido está o relacionamento e quanto mais áreas da vida de cada um
dos parceiros já foram integradas com a do outro, maiores são os danos
provocados pela separação.
• Baixa autoestima, baixa autoconfiança e pouca
assertividade. Quanto mais estas características psicológicas estiverem
presentes, mais difícil será terminar um relacionamento insatisfatório.
• Sentir pena do parceiro. Quase sempre quem quer
se separar fica aliviado quando o outro não fica muito mal ou, melhor ainda,
quando ele também quer a separação.
• Medo de ficar só. Você está mantendo este
relacionamento só porque tem medo de não encontrar outro parceiro? Você está
seguindo a regra: “Mal com ele, pior sem ele”?
Maneiras de terminar um relacionamento amoroso
Os procedimentos para iniciar a separação podem variar
desde aqueles que são diretos e sumários até aqueles que são indiretos e
complexos. Leslie A. Baxter, professora da Universidade de Iowa, identificou
quinze estratégias para terminar um relacionamento amoroso. Para catalogar estas
estratégias, esta pesquisadora levou em conta quem iniciou a separação (você, o
seu parceiro ou ambos) e a forma de iniciar a separação (direta ou indireta).
As maneiras diretas e unilaterais são as mais utilizadas nos inícios dos
relacionamentos amorosos. Neste estágio do relacionamento, os envolvidos estão
cientes de que se encontram em uma espécie de período de experiência e, por
isso, eles já estão razoavelmente preparados para esta possibilidade. Outro fato
que facilita o término dos relacionamentos que estão se iniciando é que os
parceiros ainda não integraram uma boa parte das suas vidas e das suas
individualidades e, por isso, eles não ficarão tão desamparados e
desestruturados quanto ficariam caso muitas áreas de suas vidas já estivessem
mais integradas.
• Maneiras diretas de terminar um
relacionamento
Esta maneira consiste simplesmente no anúncio do
término do relacionamento e o fornecimento de algumas explicações. Estas
explicações podem ser simples ou elaboradas, honestas ou manipuladoras. A
ausência de explicações é muito impolida e trata-se de uma desconsideração
intolerável com o parceiro. Alguns tipos de procedimentos diretos são
deploráveis e devem ser evitados como, por exemplo, terminar por e-mail ou por
telefone. Também é muito rude enumerar todos os defeitos do parceiro e
imputar-lhe os motivos do término do relacionamento. O mais provável é que o
término seja mais uma questão de incompatibilidade mútua do que a presença de
defeitos de uma das partes.
• Maneiras indiretas de terminar o
relacionamento
As maneiras indiretas são mais utilizadas para
terminar relacionamentos que já existem há um bom tempo e as vidas dos parceiros
já se entrelaçaram de várias formas. Neste caso, aquele que quer terminar pode
começar a tomar medidas que tornem o relacionamento menos importante para si e
para o parceiro. A diminuição desta importância facilita a separação. Estas
medidas podem ser tomadas conscientemente ou inconscientemente. Por exemplo, um
dos parceiros começa a investir menos no relacionamento, a reconstruir uma vida
independente para si e até mesmo a sabotar o relacionamento atual, tanto para
diminuir o interesse do companheiro em permanecer nele e facilitar a separação
como para fazer o parceiro sofrer menos. Algumas das principais destas maneiras
são as seguintes:
– Aumentar custos e diminuir
benefícios do relacionamento para o parceiro. Por exemplo, deixar de ser
atencioso e romântico com o parceiro, deixar de apoiá-lo e aumentar as críticas.
– Criar um clima ruim com o parceiro que dificulte a
continuidade do relacionamento e diminua as chances de uma reconciliação.
Por exemplo, comentar que não suporta as reclamações diárias do parceiro e que
vai manter aqueles hábitos que o parceiro vem criticando.
– Provocar raiva e ressentimentos do parceiro contra si.
Estes sentimentos ajudam o parceiro a focalizar os defeitos daquele que os
provocou e aumenta a sua coragem e a motivação para tomar uma atitude contra
quem os provocou.
– Deteriorar a própria imagem que foi projetada para o
parceiro. Este tipo de medida visa passar a mensagem: “O
problema sou eu e não você”.
– Dizer que não ama mais o parceiro, que sente o
relacionamento como obrigação. Esta medida tem o efeito de liquidar as
suas esperanças. (“Você não
é a pessoa por quem me apaixonei”).
– Aumentar a independência em relação ao parceiro.
Exemplos: começar a desenvolver atividades independentes do parceiro e
incentivá-lo a fazer o mesmo. Adotar a seguinte política: “De
agora em diante vou agir assim, independentemente de você gostar ou não”.
Voltar a realizar programas de lazer sozinho e começar a desenvolver círculos de
amizade que não incluam o parceiro.
– Cometer atos que o parceiro considera imperdoáveis.
Exemplos: traí-lo e fazer com que ele saiba disso. Dizer que não o ama
mais.
Se você está segura de que o seu
relacionamento não tem chance, é melhor terminá-lo logo. Prolongar a situação
provavelmente vai aumentar os prejuízos para você e para o seu parceiro.
Ailton Amélio da Silva é doutor em
Psicologia, psicólogo, psicoterapeuta e
professor da USP, em São Paulo (SP). É
autor de vários estudos científicos sobre
relacionamentos amorosos e dos livros "O
Mapa do Amor", "Para Viver um Grande Amor"
e o mais recente "Relacionamento Amoroso:
Como Encontrar Sua Metade Ideal e Cuidar
Dela".
Fonte: Provedor
UOL, por Ailton Amélio da Silva
Postado por
Izabel Cristina da Fonseca, dia 24 de maio de
2010 (12.942)