Dores de amor
O amor é uma das maiores fontes de
satisfação e prazer, mas também pode ser uma fonte de sofrimentos terríveis. As
quatro principais circunstâncias onde o amor produz sofrimentos são as
seguintes:
1. amor platônico,
2. amor não correspondido,
3. amor impossível e
4. amor que morreu. Vamos examiná-las neste artigo.
Amor platônico
Este amor geralmente é unilateral, pode ser desconhecido pelo
amado e, por definição, nunca foi consumado através de algum tipo de
relacionamento amoroso.
O amor platônico geralmente surge em duas situações
principais:
1. quando o amado é inacessível e
2. quando o amante não teve condições psicológicas para
tentar realizar o seu amor.
O amado é inacessível
O amado pode ser inacessível por muitos motivos como, por
exemplo, por morar muito longe e ser socialmente e culturalmente muito
diferente. Em certos casos, quem experimenta este tipo de amor nunca teve
qualquer tipo de contato direto com o amado. Isto acontece, por exemplo, quando
uma adolescente se apaixona por um artista ou cantor que viu em um filme ou
novela. Neste caso, o amor também é bastante baseado na idealização do amado, já
que muitas das suas características são desconhecidas. Um estudo que realizei
com a cooperação de alunos da pós-graduação onde leciono mostrou que a maioria
das pessoas já teve pelo menos um amor platônico na sua vida.
O amante não tem condições
psicológicas para tentar realizar o seu amor
O amor platônico também pode ocorrer quando quem ama nunca
teve a coragem de apresentar sinais deste amor e verificar se ele era
correspondido e nem tentou conquistar o amado. Isto pode acontecer, por exemplo,
quando uma pessoa é muito tímida ou tem a auto-estima muito baixa. Tive uma
paciente que era apaixonada por um colega de trabalho. Esta paixão já existia
havia vários anos. Ele não sabia disso. Ela não dava nenhum sinal dos seus
sentimentos devido a sua extrema timidez e baixa auto-estima. Após algum tempo
de terapia ela se desinibiu e começou a dar sinais de interesse por ele. Foi
quando descobriu que ele ia se casar dali a dois meses. Ela lastimou muitos os
anos que tinha ficado iludida com ele. Ela já tinha quarenta e tantos anos e
tinha deixado escapar várias oportunidades de se envolver com outras pessoas
devido àquele amor.
Amor não correspondido
Esta paixão também é unilateral e pode levar a várias
tentativas de conquista do amado. Quem ama pode dedicar muito tempo pensando no
outro, criando oportunidades para encontrá-lo e deixando de se envolver com
outros parceiros. Quando o amado não é claro e definitivo na sua recusa, isto
pode prolongar o tempo em que a outra pessoa vai permanecer apaixonada. A
esperança por parte de quem ama continua a se alimentar desta ambigüidade da
parte do amado. Por isso, sugiro que aquele que não vê nenhuma chance de
corresponder a um amor que deixe isto claro, de uma maneira firme e delicada.
Quem é claramente rejeitado vai sofrer uma dor aguda, mas permanecerá apaixonado
por menos tempo e poderá dar prosseguimento à sua vida amorosa.
Um dos requisitos para que haja o apaixonamento é a esperança de reciprocidade.
No entanto, como muitos sinais de amizade e polidez são idênticos ou parecidos
com os sinais de interesse amoroso, aqueles podem ser confundidos com estes e,
desta forma, criar esperanças infundadas. Por exemplo, quando uma pessoa é
atraente e apresenta sinais de polidez ou amizade por um possível parceiro
amoroso, existe o risco de este confundi-los com sinais de interesse amoroso e
se apaixonar unilateralmente.
Amor impossível
Um amor “impossível” é aquele que é correspondido, mas que
não pode ser vivido devido à presença de obstáculos intransponíveis. O caso
clássico a este respeito, registrado na literatura, é o de Romeu e Julieta.
Nesta tragédia, escrita por William Shakespeare, o obstáculo encontrado por
estes personagens para viver o grande amor que sentiam um pelo outro era a
inimizade entre as suas famílias, os Montecchios e Capuletos. Atualmente o
obstáculo mais freqüente para viver um grande amor correspondido é o
comprometimento de um ou de ambos amantes com outras pessoas. Por exemplo, um
deles é casado e não pretende sair, ou não consegue sair, deste relacionamento
para viver o seu novo amor. Os amantes respeitam este compromisso anterior e não
se permitem viver esta nova paixão ou amor.
Amor que morreu
Neste caso, o amor era correspondido até que um dos parceiros
deixa de amar o outro. Existem três motivos principais para deixar de amar:
1. falta de cuidados com o amor
2. mudanças nos critérios usados para avaliar a atratividade
de parceiros amorosos e
3. apaixonamento por uma terceira pessoa.
Morte do amor devido à
falta de
cuidados
Neste caso, um ou ambos os parceiros deixaram de cuidar do
amor que havia entre eles. Muita gente age como se, após a conquista do
parceiro, o amor durasse eternamente, sem a necessidade de outros cuidados. Puro
engano! Um estudioso desta área comparou o amor com andar de monociclo: se parar
cai! (O meu livro “Para Viver um Grande Amor”, em co-autoria com Mônica
Martinez, descreve os principais cuidados que são necessários para que um amor
dure e tenha uma boa qualidade).
A morte do amor é um dos maiores inimigos da durabilidade e qualidade dos
relacionamentos amorosos. Costumo atender casos de separação em que aquele que
tomou a iniciativa de se separar alega que não ama mais o parceiro. Quando a
separação se dá por este motivo, é comum que aquele que foi abandonado fique
“fixado” no outro durante muito tempo. Além do sofrimento que isto acarreta,
quem está com este tipo de fixação tem dificuldade para se envolver com outras
pessoas. Fica com o “coração ocupado”!
Morte do amor devido à
mudança nos critérios usados para avaliar a atratividade de parceiros amorosos
É natural que as nossas prioridades, valores e gostos se
alterem durante nossas vidas. No campo amoroso, também é esperado e natural que
durante a vida mudemos consideravelmente aquilo que queremos e admiramos em um
parceiro amoroso. Por este motivo, pode acontecer que o nosso companheiro que
era considerado muito atraente no início do relacionamento agora não preencha
mais as novas expectativas que desenvolvemos neste setor. Por exemplo, no início
de um relacionamento uma mulher admirava muito o seu parceiro porque ele era um
surfista descolado. Agora, vinte anos depois, ela valoriza bem menos os
surfistas e passou a valorizar o sucesso econômico dos possíveis parceiros
amorosos. O seu companheiro, no entanto, continuou a ser um ótimo surfista, mas
é péssimo na área econômica. Ela sente-se decepcionada com ele e já não o ama
mais.
Morte do amor devido ao
apaixonamento por uma terceira pessoa
Este caso representa o sofrimento de quem está sendo traído.
O amor era correspondido até que um dos parceiros se apaixonou por uma terceira
pessoa. Esta nova paixão geralmente enfraquece o amor que já existia. Tal paixão
pode durar pouco tempo, ou ser o início de algo mais sério, como um novo amor.
Este novo amor pode levar a uma traição e a uma separação dos parceiros
originais. Os casos de traição são uma das maiores causas de separação em todo o
mundo.
Amor clandestino
Vamos descrever aqui os sofrimentos daqueles que estão
participando de uma traição. Aqui, tal como na situação do “amor impossível”, os
amantes encontraram um obstáculo que dificulta a realização plena de seus
amores. A diferença entre esta situação e a do “amor impossível” é que naquele
caso os amantes renunciaram a viver seus amores e, neste caso, os amantes passam
a viver seus amores clandestinamente. A situação que melhor representa este tipo
de amor é aquela onde um ou ambos os parceiros são comprometidos com outras
pessoas, mas resolveram ou não conseguiram evitar viver este novo amor, ao mesmo
tempo em que mantêm aqueles compromissos.
Geralmente o início de um amor clandestino traz algum medo e culpa, mas é
maravilhoso e excitante. No entanto, depois de algum tempo o sofrimento vai
sobrepujando a satisfação que é gerada por este tipo de relacionamento. Por
exemplo, quando o envolvimento vai aumentando, os amantes vão integrando áreas
das suas vidas e passando a contar com o outro para satisfazê-las. Nesta altura,
geralmente um dos amantes começa a pressionar o outro para obter mais atenção e
para que este apresse o rompimento do seu compromisso com a outra pessoa e
constitua uma nova família com ele. O parceiro que tem outro compromisso também
paga um bom preço por este relacionamento clandestino. Por exemplo, ele tem que
simular várias atitudes e sentimentos em relação ao parceiro com quem tem o
compromisso oficial, sofre pressões por parte do amante para terminar o seu
compromisso oficial, tem que arranjar tempo e inventar pretextos para participar
dos dois relacionamentos simultâneos, sente-se desonesto por estar tendo um caso
e está constantemente com medo de ser pego. Quando esta situação perdura por
muito tempo a vida pode ficar infernal.
Outras dores que podem ser
confundidas com dores de amor
Acho importante diferenciar as fontes de sofrimento de quem
não está conseguindo realizar o seu amor. Uma parte destas dores é conseqüência
direta do amor não realizado. Outra parte destas dores pode ocorrer por motivos
relativamente independentes do amor e dever ser tratada através de medidas
específicas adequadas. Vamos ver um exemplo das fontes de sofrimento que afligem
as pessoas cujos relacionamentos terminaram porque o amor do parceiro morreu.
A sensação de catástrofe e de vazio que são experimentadas por uma pessoa cujo
parceiro a deixou de amar e terminou o relacionamento só em parte decorre do
término de amor. A outra parte é decorrente da baixa na auto-estima por ter sido
preterido e da desregulação da vida social e material que aconteceu devido a
esta separação. Um relacionamento amoroso oferece, além das atividades
propriamente de natureza amorosa (afetos, romance e sexo), uma estrutura para a
realização de atividades sociais, atividades econômicas e para a execução de
atividades da vida diária (por exemplo, manter o lar funcionando). Quando atendo
pessoas que estão sendo deixadas pelos parceiros, procuro ajudá-las a amainar as
suas dores de amor (criei um “programa de desapaixonamento”
com esta finalidade), a resolver o mais rapidamente possível os problemas
práticos e econômicos decorrentes da separação, a recuperar a auto-estima, a
refazer a vida social, a recuperar a sua identidade pessoal (deixar de ser “nós”
e voltar a ser “eu”), a refazer seus planos para o
futuro e a recomeçar a vida amorosa.
Sempre que um amor está trazendo mais sofrimento do que felicidade e não há
esperanças de reverter esta situação, sugiro que sejam tomadas medidas para
superá-lo e recomeçar a vida. Acredito que durante a vida sempre temos a mesma
quantidade de oportunidades para sermos felizes. O que muda são os tipos de
oportunidades. Cabe a nós largar aquelas que nos prejudicam e aproveitar as
novas para encontrar nossa felicidade.
Ailton Amélio da Silva é doutor em Psicologia, psicólogo,
psicoterapeuta e professor da USP, em São Paulo (SP). É autor de vários estudos
científicos sobre relacionamentos amorosos e dos livros "O Mapa do Amor", "Para
Viver um Grande Amor" e o mais recente "Relacionamento Amoroso: Como Encontrar
Sua Metade Ideal e Cuidar Dela".
Fonte: Provedor
BOL, por Dr. Ailton Amélio da Silva
Postado por
Izabel Cristina da Fonseca, dia 10 de abril de
2010 (12.297)