Comemorar é preciso
Já ouvi muita gente afirmar que não
há qualquer diferença entre casar formalmente e morar junto. Essas pessoas
alegam que “participar de uma cerimônia e assinar um papel não muda nada”.
Algumas pessoas chegam mesmo a alegar que o compromisso formal piora o
relacionamento. Argumentam que o grau maior de segurança proporcionado pelo
casamento formal pode levar os parceiros a se tratarem pior do que quando não
estavam tão fortemente compromissados. Um motivo alegado para isso é que
quanto mais seguros estamos da solidez de uma relação, menos medo temos de
perdê-la através da falta de cuidados ou de ações negativas. Outro
inconveniente apontado é que os compromissos formais e legais podem dificultar
a saída de um relacionamento de má qualidade e sem perspectiva de melhorias.
Embora essas objeções façam sentido e os fatos que
elas se baseiam aparentemente sejam verídicos, as evidências científicas indicam
que as vantagens dos ritos e compromissos formais são maiores do que suas
desvantagens: eles geralmente melhoram a qualidade e a durabilidade do
relacionamento. Vamos examinar neste artigo algumas dessas evidências e os
principais motivos para os seus efeitos positivos.
Diversos tipos de ritos
Em todas as culturas existem vários tipos de ritos:
saudação, demonstrações de deferência (por exemplo, ficar de pé quando o juiz
entra no tribunal), comemoração (por exemplo, aniversários e datas cívicas) e
passagem (por exemplo, casamento e formatura). Geralmente o primeiro rito de
passagem que acontece na vida de uma pessoa é aquele que marca o nascimento (o
batismo ou a circuncisão, por exemplo, marcam a passagem para a existência) e o
último é aquele que marca a sua morte (passagem da existência para a não
existência ou para outros “planos”).
Por que os ritos são importantes?
Os ritos de passagem facilitam a mudança de papéis
sociais. Os antropólogos estudaram as funções que esses ritos desempenham para
os seus praticantes e para a preservação da cultura. Só para ilustrar a
importância que esses estudiosos atribuem aos ritos, tive notícia que aqui de
São Paulo existe um antropólogo que oferece ajuda para aqueles que desejam
comemorar e marcar fatos importantes, mas não querem utilizar os ritos
tradicionais. Esse profissional ajuda a planejar cerimônias que cumpram as
funções dos ritos de passagem e sejam do gosto dos contratantes. Por exemplo,
quando se trata de um casamento, ele ajuda a preparar uma cerimônia para a qual
sejam convidadas pessoas significativas para os noivos, desperte emoção e sejam
proferidos juramentos solenes sobre os novos compromissos.
Funções dos rituais de passagem
Algumas das principais funções dos rituais de passagem
são as seguintes:
• Ajudam as trocas de papéis. Marcar um dia para mudar de papel, convidar
pessoas que investirão tempo e recurso para isso, a presença de pessoas que
testemunham tal passagem e a cerimônia solene e elaborada para marcar a
passagem. Tudo isso faz com que a mudança de papéis seja encarada mais
seriamente por todos e suas conseqüências ultrapassem o âmbito de uma decisão
privada tomada apenas pelo casal que apenas vai morar junto.
• Fortalecem vínculos. Essas cerimônias fortalecem os vínculos existentes entre
quem convida e os convidados e entre os próprios convidados. A participação em
uma festa desse tipo, as apresentações dos convidados que não se conhecem, as
conversas, as comidas e as danças fortalecem os sentimentos de pertencer ao
mesmo grupo ou ao mesmo clã.
• Ajudam a dar significado e marcar a vida. A preparação para participar das
comemorações, esperar por elas, participar delas, sentir as emoções que elas
despertam, conversar sobre elas e pensar nelas ajudam a marcar e a dar
significado à vida.
• Reforçam os status dos participantes. Nessa ocasião, os participantes exibem,
testam e aferem as suas importâncias sociais e os seus vínculos.
Evidências sobre os efeitos do casamento formal
Algumas das principais evidências sobre as diferenças
na qualidade e durabilidade do relacionamento que existem entre o casamento
formal e a união consensual são as seguintes:
• Os casados formalmente relatam maior grau de felicidade do que os unidos
consensualmente.
• Os casados formalmente têm menos chance de se separarem do que os unidos
consensualmente.
• Os casados formalmente traem menos do que os unidos consensualmente.
Também existem evidências de que união consensual não
aumenta as chances de o casamento formal posterior com o mesmo parceiro dar
certo. Por exemplo, um estudo verificou que casamentos precedidos pela união
consensual não eram mais felizes do que aqueles em que os cônjuges casaram sem
passar por esse tipo de união. Essa união, portanto, não funciona como “test
drive” para verificar as chances de sucesso do
relacionamento. Creio que isso ocorre porque não é fácil terminar uma união
consensual, mesmo quando os parceiros verificam que não são compatíveis entre
si. Por isso, ela perde uma boa parte da sua eficácia como critério para decidir
pela separação ou pelo casamento formal. A decisão de casar formalmente - para
aqueles que vivem em união consensual - muitas vezes é tomada quando acontece
uma gravidez ou ela produz algum benefício econômico, como a facilitação do
financiamento para compra de uma casa.
Por que os ritos funcionam?
Vamos examinar agora alguns dos principais motivos
pelos quais os ritos produzem os seus efeitos.
Elas indicam um estado psicológico especial daqueles que se dispõem a
praticá-las
Uma maneira de encarar as formalidades do casamento é pensar que, mesmo que elas
não tivessem nenhum efeito posterior, a demonstração da disposição para
praticá-las já revela um estado diferente e mais positivo quanto ao
relacionamento do que a ausência dessa disposição. Por exemplo, a disposição
para comemorar, gastar, investir tempo e participar de solenidades revela um
estado de espírito bem diferente daquele em que não há ânimo para nada disso.
Geralmente quem está disposto a se casar “com tudo que tem direito” acredita
mais que encontrou a parceira certa e que o relacionamento com ela tem uma boa
chance de ser bem-sucedido do que quem quer apenas morar junto, sem nenhum
alarde ou comemoração.
A exibição dos sinais dessa disposição afeta positivamente tanto aquele que os
apresentam como o seu parceiro e as outras pessoas que deles tomam conhecimento:
eles funcionam como uma espécie de evidência da seriedade de intenções e da
disposição para o comprometimento daqueles que os exibem.
Conseqüências psicológicas dos ritos
A Teoria da Atribuição ajuda a entender alguns dos
efeitos psicológicos que são produzidos naqueles que assumem formalmente o
casamento. Essa teoria diz que tendemos a interpretar e a atribuir causas a tudo
que está se passando conosco. Por exemplo, tendemos a tirar conclusões sobre a
importância que os acontecimentos têm para nós com base na forma que agimos em
relação a eles: “Se me empenhei tanto é porque deve ser
muito importante para mim”. Outro exemplo: quem é levado a defender
idéias que não acredita muito ficará mais favorável a ela após essa defesa. Os
chineses usaram essa técnica para fazer lavagem cerebral nos prisioneiros
americanos durante a guerra da Coréia: os obrigavam a escrever ensaios atacando
a política americana e defendendo a chinesa e a lê-los em público. Depois disso,
os prisioneiros ficavam mais propensos a adotarem uma posição mais favorável aos
chineses. Analogamente, parece que quem se casa formalmente passará a assumir
mais o relacionamento e a se envolver com ele.
Consequências sociais dos ritos
O grau de pressão social para assumir o papel de casado é maior para aqueles que
praticam rituais de passagem do que para aqueles que apenas foram morar juntos.
Aqueles que testemunham ou tomam conhecimento de que uma dupla se submeteu aos
ritos do casamento ficam mais propensos a tratá-la como casada do que quando
simplesmente ela foi morar junto de alguém. Isso ajuda e pressiona o novo casal
se portar como tal. Por exemplo, uma pessoa que se separa logo após um
compromisso formal e público é encarada com suspeita pelos que participaram da
cerimônia: por que se separou em tão pouco tempo? O que aconteceu? Será que vão
devolver os presentes?
Conseqüências legais dos ritos
A importância dos ritos de passagem não tem origem
apenas nas suas conseqüências psicológicas e sociais. Certos ritos incluem ações
que têm implicações legais. Por exemplo, registrar um recém-nascido como filho
ou casar-se no civil tem conseqüências legais e implicam em grandes
responsabilidades, direitos e deveres.
Ninguém assume um compromisso legal sem motivos quando pode haver graves
conseqüências pelo seu descumprimento. Por exemplo, pouca gente assina um
contrato de compra de um apartamento que preveja multa pela sua rescisão sem
realmente pretender comprá-lo e ter condições para isso. Da mesma forma, o
casamento no civil implica em diversos tipos de compromissos entre os cônjuges,
direitos e deveres e pode ser complicado e custoso dissolvê-lo.
Ailton Amélio da Silva é doutor em
Psicologia, psicólogo, psicoterapeuta e
professor da USP, em São Paulo (SP). É
autor de vários estudos científicos sobre
relacionamentos amorosos e dos livros "O
Mapa do Amor", "Para Viver um Grande Amor"
e o mais recente "Relacionamento Amoroso:
Como Encontrar Sua Metade Ideal e Cuidar
Dela".
Fonte: Provedor
UOL, por Ailton Amélio da Silva
Postado por
Izabel Cristina da Fonseca, dia 22 de maio de
2010 (12.915)