Ciúme
“Mas eu me
mordo de ciúme...” (Ultraje a Rigor)
Segundo os psicólogos
israelenses Ayala Pines e Elliot Aronson,
autores de uma ótima pesquisa sobre este
tema, o ciúme pode ser definido como um
“complexo de pensamentos, sentimentos e
ações que são provocados por ameaças à
existência ou à qualidade do relacionamento
que são gerados pela percepção da atração,
real ou potencial, entre o parceiro e um
rival (imaginário ou real)”.
Você sente ciúme?
Parabéns, este sentimento é normal e
razoável. O ciúme é como o medo. Só os seus
excessos é que são disfuncionais: falta de
ciúme ou excesso de ciúme, tal como a falta
de medo ou o medo de tudo, é que são
prejudiciais. O ciúme é experimentado por
quase todas as pessoas, em quase todas as
culturas e em todas as épocas. Várias
pesquisas constataram que quase todo mundo
já sentiu ciúmes alguma vez na vida. Cerca
de 50% das pessoas declararam que são
ciumentas.
Antigamente era moda
condenar certos fenômenos psicológicos como
o medo, a timidez e o ciúme. Os
especialistas daquela época acreditavam que
estes fenômenos só eram apresentados por
pessoas imaturas, egoístas e problemáticas.
As teorias psicológicas modernas
reabilitaram estes fenômenos. Esta
reabilitação aconteceu porque foi
compreendido o papel importante que eles têm
para a sobrevivência da nossa espécie, para
o nosso bem-estar e para o funcionamento dos
relacionamentos humanos. Por exemplo,
segundo a teoria evolucionista, o ciúme,
quando é manifestado em doses moderadas e
nas circunstâncias adequadas, ajuda a evitar
que o parceiro se envolva amorosamente com
outros pretendentes e desfaça o vínculo
conjugal atual. Na nossa espécie, a
manutenção do vínculo conjugal, pelo tempo
necessário para que os seus filhos ganhem
autonomia, é importante porque as crianças
necessitam de cuidados durante muitos anos
para que possam sobreviver sozinhas. Tais
cuidados são muito mais eficazes quando são
proporcionados por um casal do que quando
são proporcionados por apenas um dos
cônjuges.
Causas reais e causas fantasiosas do ciúme
Ciúme realista
Muitas pessoas que
procuram o meu consultório porque estão
sentindo uma intensidade insuportável de
ciúme dos seus parceiros têm razões para
isto: elas realmente estão sendo traídas.
Neste caso o ciúme é uma reação razoável e
saudável ao que está se passando. O que
resta fazer é comprovar a traição e tomar as
medidas adequadas para lidar com os danos
psicológicos que ela acarreta e com o
parceiro traidor.
Ciúme fantasioso
Uma parte daquelas
pessoas que procuram o meu consultório
devido aos problemas gerados pelo ciúme não
tem motivos reais para esta reação: elas
estão tendo ciúmes descabidos. Este tipo de
ciúme é característico daquelas pessoas que
são chamadas de “ciumentas”. Quando o ciúme
é muito irrealista e muito exagerado pode se
tratar de uma patologia – o ciúme
patológico.
O ciúme patológico é
provocado por delírios de traição por parte
do parceiro. Nenhum tipo de prova em
contrário convence o enciumado de que o
parceiro não o está traindo. Cada suspeita
que é desconfirmada só o tranqüiliza por
pouco tempo. Logo em seguida aparece outra
suspeita e novos ciúmes. As vidas de quem
tem este tipo de ciúme e a do seu parceiro
se transformam em um inferno. A insegurança
de que o parceiro está traindo é constante.
Todas as atividades da vida diária podem ser
prejudicadas pelas perturbações decorrentes
do ciúme. O enciumado não consegue se
concentrar em mais nada. Tudo fica
subordinado aos seus sentimentos de ciúme. O
sono fica prejudicado, o parceiro é
submetido à vigilância continua – ¬¬a sua
privacidade é invadida de todas a formas –,
outras atividades importantes podem ser
interrompidas para que a vigilância do
parceiro possa ser exercida. Este tipo de
distúrbio requer tratamento especializado.
Ingredientes do
ciúme
O ciúme tem dois
ingredientes: o disposicional e
o situacional. O ingrediente disposicional é
aquele que faz com que duas pessoas tenham
diferentes intensidades de ciúme em uma
mesma situação. Por exemplo, quando dois
homens descobrem que suas namoradas estão
trocando e-mails com seus respectivos
ex-namorados, cada uma deles pode sentir
intensidades muito diferentes de ciúme: um
pode ficar possesso e querer acabar o
namoro, enquanto o outro pode ficar apenas
ligeiramente enciumado. Ou seja, um deles é
“muito ciumento”, enquanto o outro é “pouco
ciumento”.
O ciúme exagerado pode
ser causado por pelo menos um dos
seguintes motivos:
(1) Possuir um amor do estilo Mania (são
pessoas possessivas e inseguras) ou ter um
estilo de apego ansioso-ambivalente
(típico daqueles que receberam cuidados na
infância por parte de pessoas que eram
inconstantes para proporcionar segurança e
afeto e se portavam de uma forma
invasiva).
(2) Ter sido traído em relacionamentos
anteriores: “Gato escaldado tem medo de
água fria”.
(3) Ter sido afetado por traições por
parte de terceiros. Por exemplo, uma
paciente que atendi desenvolveu uma
desconfiança muito grande em relação aos
homens porque durante a sua infância e
adolescência ela presenciou várias brigas
entre o seu pai e a sua mãe. Nestas
brigas, a mãe acusava o pai de traição.
Além disso, a mãe sempre a advertia de que
“não podia confiar nos homens”.
O ciúme situacional é
aquele que faz com que uma mesma pessoa
experimente diferentes intensidades de ciúme
em diferentes situações. Por exemplo, Maria
relatou que sentiu uma intensidade dez de
ciúme, em uma escala que vai de zero a cem,
quando atendeu ao telefone e ele foi
imediatamente desligado por quem fez a
chamada. Ela também relatou que sentiu uma
intensidade oitenta de ciúme, nesta mesma
escala, quando soube que o namorado tinha
“ficado” com uma conhecida de ambos em um
feriado que ela viajou sozinha para visitar
os pais em outra cidade.
O ciúme é normal e saudável quando a sua
intensidade é proporcional ao risco que a
situação traz para o seu relacionamento. Por
exemplo, se o parceiro conversa rapidamente
com uma desconhecida muito bonita em uma
festa isto oferece um risco muito menor para
o seu relacionamento do que se o parceiro
tivesse dançado repetidamente e de rosto
colado com esta bela desconhecida. Um estudo
que fiz mostrou que as pessoas ordenam de
forma muito semelhante as intensidades do
ciúme que são provocados por diferentes
situações. Por exemplo, quase todo mundo diz
que sente menos ciúme quando o parceiro
menciona repetidamente o nome de uma
possível rival do que quando ele viaja com
ela para um congresso.
Outros fatores também afetam a intensidade
do ciúme. Por exemplo, o ciúme geralmente é
menor quando o relacionamento é mais estável
(já existe há bastante tempo e há um bom
grau de compromisso entre os parceiros) e
quando o parceiro é confiável.
As reações ao ciúme
A grande maioria das
pessoas não gosta de sentir ciúme. As
reações daqueles que são objeto de ciúme
moderado vão desde sentir-se amado e ficar
lisonjeado até não suportar ser objeto deste
sentimento. As pessoas que não gostam de ser
objeto de ciúme sentem-se acuadas, tolhidas
e desrespeitadas quando isto acontece.
A forma de agir daqueles que sentem ciúme
também varia muito. Por exemplo, algumas
pessoas escondem este sentimento, enquanto
outras se tornam agressivas e apresentam
represálias. Alguns estudos indicaram que as
mulheres têm mais propensão do que os homens
para desenvolver sentimentos negativos
contra elas próprias quando sentem ciúme.
Por exemplo, ficam com a auto-estima
rebaixada e podem ficar deprimidas. Os
homens, por outro lado, tendem a agir contra
os outros quanto sentem ciúme: ficam
agressivos com a parceira e com os rivais.
É possível matar
por ciúmes?
Não creio que alguém
mate, suicide-se ou até mesmo cometa atos
violentos só porque é muito ciumento. Quem
comete excessos quando fica muito enciumado
é porque, além de ser ciumento, também tem
algum tipo de desequilíbrio psicológico ou
social. Por exemplo, tal pessoa pode não ter
aprendido a controlar os seus impulsos
destrutivos. Ela provavelmente considera
legítimos estes tipos de reações. Por
exemplo, ela pode ter sido educada para
acreditar que é louvável “lavar a honra com
sangue”.
Perdoar é mais fácil do
que recuperar a confiança
Quem foi traído pode
desenvolver uma desconfiança crônica em
relação ao parceiro que o traiu. Esta
desconfiança pode ser muito difícil de ser
tratada. Por exemplo, certa vez atendi uma
paciente que constatou uma traição por parte
do marido. Depois desta constatação, tudo o
que ele fazia ou deixava de fazer era visto
por ela como evidência de uma nova traição
em curso. Por exemplo, se ele dava presentes
para ela era porque ele estava com a
consciência pesada por estar traindo. Se ele
não dava presentes era porque estava
apaixonado por outra e pensando em sair do
casamento. Este tipo de desconfiança durou
muito tempo apesar do tratamento
psicológico.
Se o seu ciúme está
prejudicando o seu relacionamento, verifique
se ele é legítimo. Caso não o seja e você
não esteja conseguindo se controlar sozinho
procure ajuda profissional.
Ailton Amélio da Silva é doutor em
Psicologia, psicólogo, psicoterapeuta e
professor da USP, em São Paulo (SP). É autor
de vários estudos científicos sobre
relacionamentos amorosos e dos livros "O
Mapa do Amor", "Para Viver um Grande Amor" e
o mais recente "Relacionamento Amoroso: Como
Encontrar Sua Metade Ideal e Cuidar Dela".