Amor patológico: Quando o amor vira doença
O amor – apesar de ser um dos sentimentos humanos mais conhecidos e
retratados nas artes e na mídia em geral – somente passou a ser cientificamente
estudado recentemente e muitas pessoas que sofrem com sua maneira de amar, se
mantendo em relacionamentos dolorosos e destrutivos ou mesmo amando à distância
sem conseguir se desligar, têm procurado os profissionais especializados com a
dúvida: “Afinal, a minha maneira de amar é normal ou patológica?
A resposta a essa questão ajuda a pessoa a iniciar a sua própria avaliação.
Assim como ocorre com todos os sentimentos, como o medo e a raiva, por exemplo,
o limiar entre o que é normal e o que é patológico no amor romântico é difícil
de ser estabelecido. Não existe uma maneira certa ou errada para amar, isso é
variável de indivíduo para indivíduo.
No entanto, sabemos que, no amor saudável, é comum e até esperado o
comportamento recíproco de prestar atenção e cuidados ao parceiro. Quando esse
comportamento se torna excessivo e a pessoa se vê obrigada a manter atenção no
parceiro mais do que ela considera razoável, passando a deixar de lado outras
atividades e pessoas que antes valorizava como filhos e amigos, ela pode estar
com um problema que convencionamos chamar de amor patológico.
Para ajudar na avaliação da “dosagem” de seu amor com relação a(o) seu(ua)
parceiro(a), procure se questionar sobre:
-
Você costuma sentir-se satisfeito com a quantidade de atenção e tempo que
dedica a(o) seu(ua) parceiro(a) ou percebe que fez mais do que gostaria ou do
que ele(a) mereceria?
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Você acha que a quantidade de atenção que você dirige a(o) seu(ua)
parceiro(a) está sob o seu controle ou é comum tentar se conter e não
conseguir?
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Você mantém outros interesses e relacionamentos ou
abandonou pessoas e atividades para privilegiar a relação com essa pessoa em
especial?
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Você continua se desenvolvendo pessoal e profissionalmente após o início
de seu relacionamento amoroso?
Se você respondeu “não” à maioria das questões, é um sinal de alerta; nesses
casos, existe a necessidade de realizar uma avaliação clínica mais aprofundada
com um especialista, psicólogo ou psiquiatra.
Outra pergunta bastante comum é “Amar dessa maneira patológica é,
definitivamente, sofrer?” A resposta é “sim”. Muitas pessoas que estão passando
por essa situação referem sentir que o(a) parceiro(a) que é alvo desse
sentimento funciona como uma droga. Dizem eles: “Fulano(a) é a minha cocaína”.
De fato, há características do amor patológico que se assemelham às da
dependência de álcool e outras drogas que precisam ser avaliadas cuidadosamente,
tais como:
1. Sinais e sintomas de abstinência (dores
musculares, insônia, taquicardia, ansiedade, depressão etc.) na ausência ou
distanciamento (mesmo afetivo) do(a) companheiro(a); quando o(a) parceiro(a)
“volta” ou “dá sinal de interesse”, esses sintomas desaparecem ao menos
momentaneamente;
2. A pessoa se ocupa do parceiro e dos interesses
dele mais do que ela gostaria, muitas vezes não chegando a receber a mesma
atenção em retorno;
3. Atitudes para diminuir ou para controlar o
comportamento de cuidar do parceiro são difíceis e, em geral, mal sucedidas;
4. A pessoa gasta muito tempo pensando no(a)
parceiro(a) ou controlando suas atividades;
5. Ocorre abandono de interesses e atividades
antes valorizadas;
6. O quadro é mantido, apesar da pessoa saber que
gera problemas (inclusive profissionais) para ela, para o(a) parceiro(a) ou para
os familiares.
Além dessa avaliação, o profissional irá analisar, juntamente com cada
cliente, se um transtorno psiquiátrico está presente ou não. Existem pessoas que
desenvolvem esse quadro devido a sintomas de ansiedade e de depressão anteriores
ao amor patológico e, nesses casos, o relacionamento destrutivo e conturbado
funciona como atenuante do sofrimento gerado por esses sintomas e o tratamento
medicamentoso pode ser necessário.
No entanto, os casos de amor patológico também podem ocorrer como problema
isolado tanto em homens quanto em mulheres, principalmente aqueles com baixa
auto-estima e profundos sentimentos de raiva, abandono e rejeição. Na infância
dessas pessoas, o modelo familiar predominante era o ansioso-ambivalente, ou
seja, na relação entre mãe/pai com o bebê, este não se sentia seguro quanto ao
apoio do(a) pai/mãe (ou de quem os substituiu) em situações amedrontadoras.
Quando uma criança aprendeu esse modelo de relação, ela poderá repeti-lo em sua
relação amorosa, na vida adulta. A psicoterapia está indicada nestes casos, para
reestruturação desse modelo, ajudando a pessoa a se fortalecer, de modo a
possibilitar o desenvolvimento de outro modelo de relação. Isso não significa
trocar de parceiro, mas sim adquirir a capacidade de se relacionar de maneira
mais segura e saudável com o parceiro atual ou com quem ela queira se
relacionar.
Outro tipo de problema que ocorre frequentemente no âmbito do relacionamento
amoroso é a dificuldade de um dos parceiros em formar um laço mais duradouro,
apegar-se, de forma a amadurecer a relação. Esses indivíduos têm dificuldade de
passar do estágio da paixão. O que os motiva é o jogo da sedução e da conquista
e, uma vez conquistado, o parceiro deixa de representar um interesse. Em geral,
o modelo aprendido na infância é o rejeitador, no qual o bebê, ao procurar
proteção, experimentava constante rejeição por parte dos pais. Ao se tornar
adulta, a pessoa passa a tentar viver sem precisar se envolver, isto é, sem amar
e sem a ajuda dos outros, dificultando a formação do laço amoroso. Muitos
conquistadores se encaixam nessa situação e alguns se incomodam a ponto de
procurar um terapeuta, enquanto outros são pressionados pelo(a) parceiro(a) a
mudar.
Mais informações
Se você ou alguém que você conhece precisar de mais esclarecimentos, o
Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas de São Paulo oferece,
através do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (AMITI),
avaliação e tratamento especializado. Mais informações pelo site:
www.amiti.com.br ou pelo telefone (11)
3069-7805. Email
contato@amiti.com.br.
Eglacy Sophia é psicóloga clínica com mestrado pelo
Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).
Monica Zilberman é médica psiquiatra, pesquisadora do
Laboratório de Psicofarmacologia (LIM-23) do Instituto de Psiquiatria da USP e
professora do programa de pós-graduação do Departamento de Psiquiatria da USP.
Fonte:
Site UOL, Psicologia
Postado por
Izabel Cristina da Fonseca, dia 13 de março de
2010 (11.625)