O amor é míope e o namoro, um bom par de
óculos
Ao
contrário do que muita gente pensa, o grau
de sucesso para iniciar relacionamentos
amorosos não se mede apenas pela quantidade
de parceiros que são atraídos, pela
quantidade de encontros que são marcados ou
mesmo pela habilidade para desenvolver este
tipo de relacionamento. Este sucesso também
depende do grau de acerto na escolha de um
parceiro atraente e compatível.
Condições necessárias para iniciar um bom
relacionamento
Geralmente são
necessárias várias tentativas para achar um
parceiro compatível e é necessário um bom
tempo para conhecer esse parceiro. As
seguintes condições são necessárias para
realizar estas duas atividades com eficiência:
(1) Ser capaz de
atrair parceiros atraentes e compatíveis.
(2) Estar apto para tomar iniciativas
amorosas e responder eficientemente a estas
iniciativas quando elas são tomadas por
parte de possíveis parceiros interessantes.
(3) Estar disposto a conviver com o parceiro
em diversos tipos de situações e por um
tempo razoável para conhecê-lo melhor antes
de assumir um compromisso muito sério.
(4) Ser capaz de absorver da melhor forma
possível os términos de relacionamentos que
aconteceram por iniciativa dos parceiros.
(5) Ser capaz de terminar na hora certa e
com o menor desgaste possível os
relacionamentos que se mostram inviáveis.
(6) Ter condições para desenvolver
relacionamentos satisfatórios e duradouros.
Neste artigo vamos
nos concentrar na terceira destas condições:
namorar até conseguir “enxergar” bem o
parceiro e, desta forma, fazer boas escolhas.
As outras condições serão abordadas em outros
artigos.
Os inícios de relacionamentos amorosos podem
ser encarados como períodos de experiência. Os
principais objetivos desta fase do
relacionamento são permitir que os parceiros
se conheçam melhor, e verificar se há atração
e compatibilidade entre eles. Os estudiosos do
comportamento animal afirmam que todas as
espécies que têm relacionamentos conjugais
prolongados (por exemplo, a arara azul
geralmente fica com o mesmo parceiro durante
toda a vida) também têm uma fase longa de
cortejamento antes da primeira cópula. Um dos
motivos para este “namoro prolongado” é a
necessidade de escolher bem o parceiro, porque
os resultados desta escolha têm tremendas
conseqüências. Dela depende, por exemplo, o
desempenho sexual do casal e a coordenação
eficaz de múltiplas atividades diárias como
construir o ninho, encontrar comida e defender
os filhotes contra predadores. Devido a estas
grandes conseqüências, testar a
compatibilidade com o parceiro antes de se
vincular com ele de forma profunda, ampla e
duradoura é essencial.
São necessárias várias tentativas para
encontrar um parceiro compatível
Não é razoável
esperar que um ótimo parceiro seja encontrado
logo na primeira tentativa. Pelo contrário, é
comum que as pessoas não se casem com o
primeiro amor, com o primeiro namorado e,
muito menos, com a primeira pessoa com quem
flertaram. Muitos parceiros que parecem
adequados à primeira vista, se mostram
indesejáveis ou incompatíveis durante o
namoro: à medida que vão se sentindo mais
seguros e mostrando como realmente são (é
comum só mostrar as qualidades e omitir os
defeitos nos inícios dos relacionamentos) ou
vão tendo que lidar com diversos tipos de
situações que só aparecem durante um
relacionamento mais duradouro (características
indesejáveis ou incompatíveis com o outro
parceiro vêm à tona). Um levantamento que
realizei recentemente com 368 universitários
mostrou que eles, em média, já haviam se
apaixonado quatro vezes, ficado com 26
parceiros diferentes, praticado sexo com cinco
parceiros sexuais e namorado três pessoas
diferentes. Em cada um destes acontecimentos
amorosos, houve uma troca de parceiro, ou
seja, um relacionamento foi iniciado e
terminado ou um sentimento nasceu e se
extinguiu ou não foi correspondido. Este
estudo confirma, portanto, que fazer várias
tentativas é uma experiência comum para a
maioria da pessoas antes que elas iniciem um
relacionamento mais duradouro e compromissado.
Para conhecer o parceiro é necessário conviver
com ele
Para conhecer bem o
parceiro é necessário uma boa dose de
convivência com ele em diversos tipos de
situações. A necessidade desta convivência foi
confirmada por um estudo que verificou que os
casamentos precedidos por namoros breves
demais ou longos demais tinham menor chance de
dar certo do que aqueles precedidos por
namoros que duravam um tempo razoável.
O que é um namoro “breve demais” ou “longo
demais”?
Não existe uma
resposta simples para esta pergunta. É mais
fácil pensar nos motivos da influência do
tempo de namoro no sucesso do relacionamento
posterior. O motivo provável para a menor
chance de sucesso dos namoros muito breves é
que eles não permitem que os parceiros se
conheçam o suficiente antes do casamento, o
que aumenta as chances de o casal descobrir
posteriormente muitas incompatibilidades
graves. A menor chance de sucesso daqueles
casamentos que são precedidos por namoros que
se prolongam demais é que esta demora pode
indicar que um ou ambos os parceiros estão
hesitantes, não se amam o suficiente, estão
com motivação insuficiente para dar este
passo. É claro que este prolongamento também
pode acontecer por motivos alheios às suas
vontades (por exemplo, ambos os parceiros
ainda não têm idade e condições econômicas
para assumir um compromisso) e, neste caso,
isto não influi nas chances de sucesso do
casamento
Outro motivo para a maior chance de sucesso
daqueles que já se conheciam ou que foram
apresentados antes do início do namoro é que
eles são mais cautelosos para iniciar este
tipo de relacionamento amoroso. Isto acontece
porque eles correm o risco de estragar o
relacionamento que já havia entre eles
anteriormente e podem criar constrangimentos
para o convívio posterior, caso o namoro não
dê certo. Aqueles que foram apresentados,
geralmente também pertencem ao mesmo círculo
de relacionamentos. Além disso, eles também
têm o afiançamento daquele que os apresentou
e, por isso, devem se portar de modo a não
decepcioná-lo ou a trair a sua confiança.
No entanto, conhecer o parceiro ou ter sido
apresentado para ele anteriormente não é uma
garantia de que o relacionamento vai dar
certo. Cada tipo de relacionamento implica em
tipos especiais de interação que não podem ser
bem testados em outros tipos de
relacionamento. Por exemplo, um ótimo amigo
pode ser um péssimo parceiro romântico ou
sexual.
O
tempo necessário para conhecer o parceiro e
testar a compatibilidade com ele no campo
amoroso depende de diversos fatores, tais
como:
• Quão bem já
conhecia o parceiro antes do início do
relacionamento amoroso. Quanto melhor já o
conhecia e gostava dele antes do início do
namoro, menor a chance de decepção nas áreas
já conhecidas.
• Oportunidades de convivência. Quantas
vezes e por quantas horas os parceiros se
vêem por semana? Em que situações eles se
encontram? Por exemplo, quem só se encontra
nos fins de semana para fazer programas
agradáveis vai conhecer menos o parceiro do
que alguém que o vê no dia-a-dia em diversos
tipos de situações.
• Grau de exposição aos diversos círculos de
relação. Observar o parceiro desempenhando
diversos papéis (por exemplo: amigo, filho,
profissional) é muito mais informativo do
que apenas conhecê-lo como parceiro amoroso
em momentos de lazer. Além disso, as
informações fornecidas por outras pessoas
que o conhecem também são muito valiosas. A
permissão e o incentivo para participar
destes círculos, na condição de parceiro
amoroso, é um forte sinal de comprometimento
por parte do parceiro.
Uma boa escolha de
parceiro deve acontecer durante o período de
namoro e não depois, durante a união estável
ou o casamento, quando os custos da separação
podem ser bem maiores devido aos investimentos
já realizados e aos compromissos já assumidos.
Escolha bem aquele que pode ser o seu
companheiro pelo resto da vida e viva feliz!
Ailton Amélio da Silva é doutor em
Psicologia, psicólogo, psicoterapeuta e professor da USP, em São Paulo (SP). É
autor de vários estudos científicos sobre relacionamentos amorosos e dos livros
"O Mapa do Amor", "Para Viver um Grande Amor" e o mais recente "Relacionamento
Amoroso: Como Encontrar Sua Metade Ideal e Cuidar Dela".
Fonte: Provedor
BOL, por Ailton Amélio da Silva
Postado por Izabel
Cristina da Fonseca, dia 8 de julho de 2010 (13.700)

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