Vida a Dois

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Amor à distância

“Amor ausente, amor para sempre”
“Longe dos olhos, longe do coração” (Provérbios de autoria desconhecida)


Muitas pessoas que se amam estão separadas pela distância. Por exemplo, casais que conviviam e tiveram que se separar temporariamente (devido a viagem de estudos, transferência de emprego etc.), casais que se conheceram e se envolveram amorosamente enquanto estavam temporariamente em um mesmo local (congresso, férias etc.) ou pessoas que moram distantes entre si e se conheceram através de algum meio de comunicacão (Internet, telefone etc.).

Os dois provérbios acima apresentam expectativas opostas em relação ao que pode ocorrer com estes amores à distância. Ambos, no entanto, contêm uma certa dose de verdade: dependendo das circunstâncias, a ausência do parceiro pode contribuir para que o amor perdure indefinidamente ou para que ele termine mais rapidamente. Neste artigo vamos examinar algumas destas circunstâncias. Vamos examinar também algumas medidas que contribuem para aumentar as chances de que este amor sobreviva e seja fortalecido.

 

“Amor ausente, amor para sempre”

Este fenômeno, a preservacão do amor através dos tempos, foi bem ilustrada em um filme, que tem um enredo mais ou menos assim: aconteceu um amor à primeira vista entre um americano, que está viajando pela França, e uma francesa. Eles se conheceram acidentalmente em uma viagem de trem. Eles, no entanto, ficam juntos durante muito pouco tempo, pois ele já estava com a viagem marcada para voltar para os EUA. Após vários anos, eles se reencontram e, apesar de tantos acontecimentos e tanto tempo (ele havia se casado nos EUA e tinha uma filha, e ela tinha um namorado sério), finalmente eles decidem ficar juntos e dar seqüência àquele grande amor que havia ficado intacto. Conheço vários casos semelhantes a este do filme, que realmente aconteceram na vida real, onde um amor não vivido perdura quase indefinidamente e sobrevive a vários relacionamentos com outras pessoas. Bonito e triste, não é?

Vamos examinar agora alguns fatores que contribuem para que este amor perdure quase que indefinidamente:

(1) A idealização do parceiro continua intacta.
Quando acontece o apaixonamento entre pessoas que se conhecem pouco e que, em seguida, não convivem ou convivem muito pouco tempo, esta idealização pode continuar a existir indefinidamente, o que contribui para manter viva a paixão que havia entre eles. A convivência é o maior corretor da idealização. Ela ajuda a corrigir as imagens que formamos sobre pessoas recém-conhecidas, tornando-as mais realísticas. Aplica-se aqui o ditado popular que afirma que “O amor é míope e a convivência, um bom par de óculos”. Esta correção através da convivência, no entanto, só acontece até um certo ponto: uma pesquisa indicou que cônjuges que convivem há bastante tempo só conhecem cerca de 50% das características do outro.

(2) Encontros entre pessoas que se vêm pouco são otimizados.
Os encontros pouco freqüentes podem até contribuir para aumentar a idealização. Isto pode acontecer porque, nestes encontros, os parceiros dão o melhor de si: estão com saudades e por isso ficam mais amorosos, se tratam melhor, procuram evitar desentendimentos que estraguem o pouco tempo que ficarão juntos e também sabem que estes bons momentos juntos são cruciais para a manutenção do relacionamento. Além disso, provavelmente tais encontros acontecerão em circunstâncias agradáveis: feriados, lazer, passeios, restaurantes etc., o que contribuirá para associar a presença do outro com bons momentos.

(3) O amor à distância pode ser vantajoso.
O amor à distância satisfaz melhor aquelas pessoas que gostam de ter vida independente. Um episódio da série televisiva “Seinfeld” apresentou uma boa caricatura das vantagens do relacionamento com uma pessoa ausente. Neste episódio George Constanza (interpretado pelo ator Jason Alexander) namora uma presidiária. Ele está muito feliz porque só consegue vê-la duas horas por semana, nos horários de visita do presídio e, por isso, tem bastante tempo para sair com os amigos. O relacionamento dos dois termina quando ela obtém liberdade condicional e quer vê-lo mais freqüentemente.

(4) A distância pode ajudar a valorizar o parceiro.
A ausência faz com que a falta do parceiro seja sentida continuamente. Esta carência e saudade continuada ressaltam os valores da outra pessoa e ajudam a concretizar o amor existente.

 

“Longe dos olhos, longe do coração”

A distância prolongada geralmente traz mais riscos do que benefícios aos relacionamentos amorosos. Estes riscos têm três origens principais:

(1) parceiros separados pela distância ficam impossibilitados de exercer vários tipos de funções na vida do outro, que só são possíveis quando há presença física.
Por exemplo, eles não poderão ir ao teatro juntos, trocar carinhos, fazer amor, dar carona para o outro etc.

(2) A ausência do parceiro nas atividades cotidianas abre espaço para a concorrência.
Por exemplo, esta ausência implica em carências afetivas, sexuais e práticas, o que dá oportunidades para que a concorrência as preencha (companhia, oferecer os préstimos, carinhos etc.).

(3) A ausência do parceiro impõe restrições às vidas de ambos.
Muitas atividades que são exercidas pelo casal ficam prejudicadas quando um dos parceiros não está presente. Por exemplo, cada um deles pode não ser convidado para muitas atividades típicas de casais: ir ao cinema ou a um restaurante com outro casal. Estas restrições ainda são maiores quando o parceiro é ciumento. O ciúme é acirrado quando o parceiro participa de eventos em que possam estar presentes possíveis rivais (festas, congressos, almoços de negócios etc.). Pior ainda quando um deles vai a baladas. Também é muito comum que as pessoas ciumentas monitorem de perto as páginas pessoais dos parceiros que existem na Internet para verificar se estes estão expondo devidamente os seus compromissos e amores com elas e para verificar se existem rastros que indiquem relacionamentos com possíveis rivais. Quando uma das partes passa a freqüentar eventos que fazem parte de uma vida saudável para não descontentar a outra pessoa e, além disso, deixa de fazer isso também para não dar direito para que a outra parte faça o mesmo, isto impõe um alto custo para o relacionamento: as pessoas começam a deixar de ter vida social, diversão e a perder os amigos. Para aquelas pessoas sociais – que gostam e precisam muito de atividades sociais –, os custos desta forma de agir ainda podem ser insuportáveis.

 

O que fazer para diminuir os efeitos negativos da distância

A manutenção de um relacionamento já apresenta problemas mesmo quando os parceiros convivem normalmente no dia-a-dia. Com a distância, a expectativa é que aumentem estas dificuldades. É necessário, portanto tomar medidas mais cuidadosas para manter o relacionamento. Algumas destas medidas são as seguintes:

(1) Usar os meios de comunicação para ajudar a manter o relacionamento.
Os meios de comunicação são extremamente importantes para ajudar cada parceiro a continuar a participar da vida do outro apesar da distância. A tecnologia tornou possível a conversa à distância de uma forma muito semelhante à conversa face a face. Quando a conversa à distância acontece através de câmeras de vídeo ela é quase idêntica à conversa face a face. Ainda existem algumas diferenças, é claro, como contatos físicos, comunicação odorífica etc. Atualmente também existem outras formas pouco custosas de fazer contatos mais sumários, como enviar torpedos através do telefone celular, conversar através de programas de mensagens instantâneas, que também ajudam a manter o relacionamento.

(2) Fazer planos.
Fazer planos para ficarem juntos temporariamente quando surgirem oportunidades (por exemplo, feriados prolongados, viagens de negócios) e planos para ficarem juntos definitivamente assim que for possível (fazer planos para pedir transferência do emprego, ir estudar na cidade do outro etc.). A espera também é aliviada por visitas freqüentes. Tive um paciente que namorava alguém de outro estado. Ele sabia de cor todos os feriados do ano, principalmente os feriados prolongados, quando poderia ver a namorada.

(3) Levar mais benefícios do que custos para o parceiro em cada um dos contatos que tiver com ele.
Ouvi-lo, se interessar por ele, expressar os seus sentimentos positivos etc.

(4) Dar sinais que está compromissado com ele.
Por exemplo, colocar a sua foto no Orkut, apresentá-lo para as pessoas com quem convive sempre que possível, contar para ele que sempre o menciona nas conversas com os conhecidos etc.

(5) Evitar restringir as atividades da vida diária.
Lutar para que a vida do parceiro e a própria vida não sofra muitas restrições devido à insegurança de que o parceiro vai se envolver com outras pessoas, caso freqüente eventos que ocorrem naturalmente na vida de qualquer um (festas comemorativas, reuniões com amigos, ir ao cinema acompanhado por amigos etc.).
Lute para que o seu amor, mesmo à distância, traga muitas alegrias para você e o seu parceiro. Esta luta também poderá trazer o seu parceiro para perto de você. Aí valerá um outro ditado: “Amor próximo, satisfação dobrada, vida realizada.”

Ailton Amélio da Silva é doutor em Psicologia, psicólogo, psicoterapeuta e professor da USP, em São Paulo (SP). É autor de vários estudos científicos sobre relacionamentos amorosos e dos livros "O Mapa do Amor", "Para Viver um Grande Amor" e o mais recente "Relacionamento Amoroso: Como Encontrar Sua Metade Ideal e Cuidar Dela".

Fonte:  Provedor BOL, por Dr. Ailton Amélio da Silva

Postado por Izabel Cristina da Fonseca, dia 19 de abril de 2010 (12.451)

 

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