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Sobre o Povo Cigano
Rotulados injustamente como ladrões,
feiticeiros e vagabundos, os ciganos
tornaram-se um espelho onde os homens das
grandes cidades e de pequenos corações
expiaram suas raivas, frustrações e sonhos de
liberdade destruídos.
Pacientemente, este povo diferenciado,
continuou sua marcha e até hoje seus estigmas
não sararam. O homem moderno ainda não
aprendeu a viver e deixar viver. Diferente
continua sendo o sinônimo de inimigo. Mas a
“alma cigana” perfuma o lugar por onde passa.
O Povo Cigano é guardião da LIBERDADE.
A vida é uma grande estrada, a alma é uma
pequena carroça e a Divindade é o Carroceiro.
Com valores muito diferente dos nossos, os
ciganos estão longe de querer o poder e não
fazem a mínima questão de ascender na escala
social. Os “golpes” que aplicam nos
“gadjé” (nome dado aos não ciganos) são mais
um meio de provar sua superioridade do que um
jeito de enriquecer fácil. É também em nome
dessa superioridade (cujas raízes estão em
lendas como a de que os ciganos seriam filhos
da primeira mulher de Adão, Lilith, e,
portanto, livres do pecado original) que eles
não aceitam de modo algum ser empregados dos
“gadjé” e apegam-se a antigas profissões
artesanais que caracterizam suas tribos e são
ensinadas desde cedo às crianças.
O valor da família para um Cigano
A família é a base da organização social
dos ciganos, não havendo hierarquia rígida no
interior dos grupos. O comando normalmente
é exercido pelo homem mais capaz, uma vez que
os ciganos respeitam acima de tudo a
inteligência. Este homem é o Kaku e representa
a tribo na Krisromani, uma espécie de tribunal
cigano formado pelos membros mais respeitados
de cada comunidade, com a função de punir quem
transgride, a rígida ética cigana. A figura
feminina tem sua importância e é comum haver
lideranças femininas como as phury-day
(matriarca) e as bibi (tias-conselheiras),
lembrando que nenhum cigano deixa de consultar
as avós, mães e tias para resolver problemas
importantes por meio da leitura da sorte.
O misticismo e a religiosidade, fazem parte de
todos os hábitos da vida cigana. A maior parte
deles acredita em um único deus (Dou-la ou
Bel) em eterna luta contra o demônio (Deng).
Normalmente, assimilam as religiões do lugar
onde se encontram, mas jamais deixam de lado o
culto aos antepassados, o temor dos
maus-olhados, a crença na reencarnação e na
força do destino (baji), contra a qual não
adianta lutar. Quase todos são devotos de
“Santa Sara”, que é reverenciada nos dias 24 e
25 de maio, em procissões que lotam Lês Saints
Maries de La Mer, em Camargue, no Sul da
França.
A Sexualidade para um Cigano
A sexualidade é outro ponto importante
entre os ciganos. E,
ao contrário do que se imagina, eles têm uma
moral bastante conservadora. Alguns
mitos antigos falam da existência das
mães-de-tribo, que tinham um marido e um
“acariciador”. Outros falam das gavalies de la
noille, as misteriosas noivas do fim de noite,
com quem os kakus se encontravam uma única
vez, passando desde então, a ter poderes
especiais. Mas o certo mesmo é que os ciganos
se casam cedo, quase sempre seguindo acordos
firmados entre as duas famílias. Não recebem
nenhum tipo de iniciação sexual e ter filhos é
a principal função do sexo. Descobrir os seios
em público é comum e natural, mas nenhuma
mulher pode mostrar as pernas, pois da cintura
para baixo todas são merimé (impuras). Vem daí
a imposição das saias compridas e rodadas para
as mulheres, que também são proibidas de
cortar os cabelos, e nunca sentam à mesma mesa
que os homens. Ironicamente, como praticantes
da magia e das artes divinatórias, são elas
que cada vez mais assumem o controle econômico
da família, pois a leitura da sorte é a
principal fonte de renda para a maioria das
tribos. O resultado é uma situação
contraditória, em que o homem manda, mas é a
mulher quem sustenta o grupo.
A cultura do Povo Cigano
A cultura dos ciganos, representada por um
conjunto de tradições e crenças, está em fase
de constante mudança e, em alguns casos, está
se desagregando de maneira irreversível
perante a hegemonia da cultura da sociedade
sedentária. Existem algumas mudanças que
permitem prever um caminho em direção a uma
tomada de consciência difundida entre Rom,
Sintos e Gitanos. No plano social e político,
no decorrer dos últimos anos, foi-se
delineando um amadurecimento, que resultou no
surgimento de formas associativas e de
movimentos de âmbito internacional.
Na metade dos anos 60, aconteceu a fundação da
União Internacional Romaní, seguida pelo
surgimento de numerosas Organizações Ciganas,
que apareceram no decorrer dos últimos 30 anos
defendendo a causa da minoria cigana e
tutelando sua cultura. Algumas delas contam
com a participação conjunta de ciganos e gadjê,
outras são geridas exclusivamente por membros
das diversas comunidades ciganas.
Os
ciganos viveram e vivem diante de uma
realidade complexa e às vezes difícil de
decifrar.
Em meio a situações de desagregação social e à
perda de identidade, surgem sinais
contrapostos de esperança e de renovação que
testemunham uma rebelião contra um destino
amargo.
A defesa do direito à diferença; uma
diferença que, no caso dos ciganos, pode
conter aspectos que para muitos são difíceis
de entender e de compartilhar. É preciso
ter consciência de que tais formas de “desvio
social” não são peculiares à cultura romaní,
mas freqüentemente, são conseqüência da
secular rejeição oposta a eles pelas
sociedades circunstantes.
Os ciganos constituem talvez o último desafio
a um modelo de vida voltada à especulação e ao
cimento: o futuro deles depende da boa vontade
dos povos vizinhos. Eles continuarão a existir
na medida em que a sociedade dos gadjê (não
ciganos) não ficar indiferente às suas
ansiedades, a seus problemas e às suas
aspirações.
Os Costumes do Povo Cigano
Os ciganos não representam um povo compacto e
homogêneo, mesmo pertencendo a uma única
etnia, existe a hipótese de que a migração
desde a Índia tenha sido fracionada no tempo,
e que desde a origem fossem divididos em
grupos e subgrupos, falando dialetos
diferentes.
As diferenças no tipo de vida, a forte vocação
ao nomadismo de alguns, contra a tendência à
sedentarização de outros gera uma série de
contrastes que não se limitam a uma simples
incapacidade de conviver pacificamente.
Em linhas gerais, os Sintos são menos
conservadores e tendem a esquecer com maior
rapidez a cultura dos pais. Talvez este fato
não seja recente, mas de qualquer modo é
atribuído às condições socioculturais nas
quais por longo tempo viveram.
Quanto aos Rom de imigração mais recente, se
nota ao invés uma maior tendência à
conservação das tradições, da língua e dos
costumes próprios dos diversos subgrupos. Sua
origem desde países essencialmente agrícolas e
ainda industrialmente atrasados (leste
europeu) favoreceu certamente a conservação de
modos de vida mais consoantes à sua origem.
Não é possível, também em razão da variedade
constituída pela presença conjunta de vários
grupos, fornecer uma explicação detalhada das
diversas tradições. Alguns aspectos
principais, ligados aos momentos mais
importantes da existência, merecem ser
descritos, ao menos em linhas gerais.
Antigamente era muito respeitado o período da
gravidez e o tempo sucessivo ao nascimento do
herdeiro; havia o conceito da impureza
coligada ao nascimento, com várias proibições
para a parturiente. Hoje a situação não é mais
tão rígida; o aleitamento dura muito tempo, às
vezes se prolongando por alguns anos.
A importância do dote é fundamental
especialmente para os Rom; no grupo dos Sintos
se tende a realizar o casamento através da
fuga e conseqüente regularização. Aos filhos é
dada uma grande liberdade, mesmo porque logo
deverão contribuir com o sustento da família e
com o cuidado dos menores.
O Nascimento
Uma criança sempre é bem
vinda entre os ciganos. É claro que sua
preferência é para os filhos homens, para dar
continuidade ao nome da família. A mulher
cigana é considerada impura durante os
quarenta dias de resguardo após o parto.
Logo que uma criança nasce, uma pessoa mais
velha, ou da família, prepara um pão feito em
casa, semelhante a uma hóstia e um vinho para
oferecer ás três fadas do destino, que
visitarão a criança no terceiro dia, para
designar sua sorte. Esse pão e vinho será
repartido no dia seguinte com todos as pessoas
presentes, principalmente com as crianças.
Da mesma forma e com a finalidade de espantar
os maus espíritos, a criança recebe um patuá
assinalado com uma cruz bordada ou desenhada
contendo incenso. O batismo pode ser feito por
qualquer pessoa do grupo e consiste em dar o
nome e benzer a criança com água, sal e um
galho verde. O batismo na igreja não é
obrigatório, embora a maioria opte pelo
batismo católico.
Fonte:
Portal
Povo de Aruanda
Postado por
Izabel Cristina da Fonseca, 17 outubro de 2010
(14.922)
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