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Preconceitos Contra os Ciganos
É fácil entender, dessa
forma, todo o processo de formação desses
preconceitos contra os ciganos. Em sua
maioria, as pessoas imaginam que, em função do
nomadismo e do sentido de liberdade, os
ciganos tenham costumes dissolutos, que podem
chocar as pessoas de costumes mais rígidos.
Nada existe de mais falso
em relação a esse povo, onde a mulher é
extremamente pudica e tradicional. Para
exemplificar melhor ainda, basta verificar que
a prostituição é praticamente inexistente
entre os ciganos. O adultério é condenado e
execrado e a virtude é sempre exaltada. Os
valores morais mantêm-se rígidos e cultivados
como um aspecto cultural próprio desse povo.
Outro aspecto típico dos
ciganos que é mal interpretado pelos gadjos
refere-se à maneira como vestem, embora isso
seja muito diversificado entre os ciganos.
Nos Estados Unidos, são chamados de Povo que
se Veste de Vermelho, dada à predileção das
tribos daquele país por essa cor.
Alguns ciganos não se
importam de se vestir com andrajos, sem, no
entanto, dispensar os enfeites comuns e
vistosos, próprios de sua tradição. Sentem-se
à vontade dessa forma e pouca importância dão
a uma roupa nova.
Quando, no entanto,
trata-se de uma cerimônia tradicional ou de
uma grande festa, jamais abrem mão de seus
trajes completos, cheios de cores, com
enfeites, principalmente as mulheres. Usarão,
nessas ocasiões, lenços coloridos nos cabelos,
coletes ricamente bordados e enfeitados com
pedrarias. As saias e as blusas serão sempre
em tecidos brilhantes, esbanjando cores mas
formando um conjunto harmonioso que dá ao
grupo reunido o aspecto de um campo florido.
Jamais dispensarão suas
jóias, sejam de ouro ou apenas bijuterias,
pois o objetivo é apenas enfeitar-se e não
demonstrar riqueza ou aparentar ostentação, no
que se diferenciam dos demais povos, que vê no
luxo e na demonstração de riqueza quase que
uma necessidade social.
Para o cigano, acumular
riquezas é algo impensável, pois isso
fatalmente acabaria por fixá-lo ou prendê-lo a
um lugar, coisa que abomina, em seu desejo de
liberdade e movimentação contínua.
Quanto à falta de higiene
de quem são acusados os ciganos, trata-se
também de outra falsidade ou má interpretação.
Nas estradas, quando há água, o cigano
mantém-se limpo.
Sua falta, no entanto, não
o impede de seguir em frente. Ele apenas
convive com o problema passageiro.
As críticas, no entanto,
tentem normalmente a mascarar uma outra
realidade, a dos sedentários miseráveis, sem
condições de saneamento básico e de moradia
digna, que abundam por todo o planeta. Cada
país têm seus problemas nessa área e deveria
ater-se a solucioná-los. As populações do
mundo sempre acharam conveniente desviar a
atenção de seus problemas reais,
concentrando-se em subterfúgios com que tentam
aplacar suas consciências pesadas.
Durante a Inquisição ou
mesmo na Segunda Guerra mundial, o genocídio
de ciganos foi aceito porque pintava-se sobre
eles e suas crenças um quadro negro, destinado
justamente a provocar a ira daqueles que,
passivamente, assistiam a tudo aquilo. Suas
consciências ficavam preservadas com as
mentiras e falsidades levantadas.
Naquele tempo, como agora,
o objetivo dos preconceitos sempre foi o
mesmo: desviar a atenção das pessoas dos reais
problemas de sua sociedade sedentária,
acusando gratuitamente uma cultura que não
aceitam apenas porque não conseguem ou não
querem entender.
A Origem do Preconceito
Já afirmamos que os valores
defendidos pelos ciganos são totalmente
diferentes daqueles defendidos pelos demais
povos, ou gadjos, o que provoca um natural
conflito entre as duas culturas. Os gadjos
vivem em função do passado e do futuro.
Cultivam o que se foi e preparam-se para o
futuro, amealhando bens e riquezas, planejando
os dias que ainda virão, numa visão idealista
de que o futuro poderá ser melhor, como se
pudessem construí-lo.
A fatalidade é algo muito
forte entre os ciganos. Cultivar o passado só
se justifica enquanto maneira de manter usos,
costumes e preservar valores. Preparar-se para
o futuro significa abrir mão de viver o
presente e o cigano tem por lema que a vida se
vive apenas no presente. O futuro é incerto. A
morte repentina, a que todos estão sujeitos,
pode jogar por terra todo um futuro brilhante
e pacientemente construído. Ao fazer isso, o
indivíduo não viveu seus dias. Preparou-se
para um futuro que jamais chegará.
Para os ciganos, a velhice
é uma conseqüência de se ter vivido um dia
após o outro, aproveitando-os ao máximo.
Por esse motivo, o
dinheiro, para os ciganos, tem um valor
enquanto atende suas necessidades imediatas. É
um instrumento para chegar ao que precisa para
viver seu dia a dia. Ele não deseja bens ou
riquezas, porque, como já se disse,
significariam o fim de sua liberdade.
Nesse aspecto, diferenciam
enormemente dos gadjos, que vivem em função do
dinheiro. Observar os ciganos, em sua vida
simples e alegre, preocupados apenas com o
sustento daquele dia e não dos próximos, é
algo que não é digerido pelos gadjos, que não
entendem que alguém possa viver sem ser
escravizado pelo vil metal.
Um dos hábitos dos ciganos
que muito incomoda os gadjos, principalmente
no interior, quando da passagem de uma
caravana, é o fato dos viajantes apanharem
frutas ou caçarem animais para sua refeição.
Para os fazendeiros, isso é chamado roubo.
Para os ciganos, isso é apenas aceitar o que a
natureza oferece ao homem. Os frutos e os
animais são, de direito, daqueles que deles
têm necessidade. Essa lógica simples para os
ciganos não é aceita e, mas combatida e
hostilizada. Isso chega ao cúmulo de,
antecipando-se à passagem de uma caravana
cigana, fazendeiros mandarem pulverizar com
veneno as plantações para que os ciganos delas
não pudessem fazer isso.
Como um povo livre, o
cigano encara tudo com praticidade, ao mesmo
tempo que se interessa pelas coisas práticas.
Um exemplo disso é a maneira como hoje está se
disseminando entre eles o uso de trailers para
viagens.
Neles encontram todo o
conforto necessário, podendo, inclusive,
deslocar-se com maior rapidez e vencer
distâncias que, antes, eram impossíveis com
seus velhos e coloridos carroções.
Com isso, perde-se uma
longa tradição de conhecimentos e prática no
trato e no treinamento de animais, atividade
em que sempre se distinguiram.
Nos encontros que promovem
ainda, em determinados locais do mundo, as
velhas carroças cedem lugar gradativamente aos
modernos veículos motorizados, sendo postas à
venda.
Com isso, um importante
aspecto da arte e da cultura cigana, onde se
retratava com habilidade e beleza a delicadeza
e a imaginação de seus decoradores, está em
processo de extinção.
Os modernos trailers
recebem pintura especial e cores tradicionais,
mas não permitem a expressão de todo o talento
artístico de um entalhe feito na madeira ou no
metal, aplicado ao antigo meio de locomoção.
Segue-se uma praxe dos
ciganos, de viverem o presente do modo mais
prático possível, assimilando com naturalidade
as características de seu tempo e das culturas
dos povos por onde passam. Reflete também uma
outra característica do espírito cigano: a da
versatilidade. Se vendiam cavalos antigamente,
porque deles se utilizavam, conhecendo-os
profundamente, com certeza passarão a
comercializar veículos motorizados. Sua
inteligência privilegiada lhe dá meios de
passar de uma para outra atividade com
absoluta.
Uma característica comum a
todos os ciganos é sua natural inclinação para
tudo que é fantástico ou maravilhoso. A origem
disso remonta a suas origens, na antiga Índia,
de onde trouxeram conhecimentos astrológicos
que se completaram na Pérsia e no Egito.
Em suas andanças,
incorporaram toda sorte de crenças, não se
fixando a uma religião determinada, mas
assimilando ingredientes de todas elas.
Foram associados as lendas
dos lobisomens da Alemanha medieval, os
morcegos-humanos que habitavam os Montes
Cárpatos, as bruxas que agiam no interior da
Inglaterra e da França, os montadores de bode,
que agiam nos Países Baixos, os
invocadores do demônio da Floresta Negra, os
druidas da Grã-Bretanha, os fantasmas dos
velhos castelos da Escócia, monstros
fantásticos como os do Lago Ness e toda sorte
de entes, duendes, gnomos e outros que povoam
a imaginação das diferentes culturas por onde
passaram.
Em todas as narrativas
desses acontecimentos fantásticos,
principalmente naqueles ocorridos durante o
período mais negro da Inquisição, vamos
encontrar relatos de grupos de ciganos
perseguidos e mortos, acusados da prática de
uma dessas lendas.
Em fins do século XVII, com
o domínio turco da Europa Oriental, conta-se
que um grupo de ciganos fugiu para os países
do ocidente da Europa, espalhando o terror.
Pertenciam a uma seita até
hoje não devidamente esclarecida, chamada de
Montadores de Bodes Caracterizavam-se pelo
terror que espalhavam, praticando os crimes
mais hediondos, principalmente contra jovens
virgens e crianças recém-nascidas.
Segundo a lenda, eram
acompanhados de demônios, que se encarregavam
de arrebanhar as almas das vítimas desses
ataques sangüinários e cruéis.
Muitos ciganos foram
presos, torturados e condenados à forca e à
fogueira por esses crimes, já que, além de
assassinos e de terem pacto com o demônio,
aqueles ciganos, segundo seus acusadores,
abjuravam Jesus Cristo e a religião.
As informações contidas nos
processos que foram lavrados na época
detalham, inclusive, a maneira como esses
bandos eram constituídos e até como um novo
membro passava a fazer parte, num ritual de
iniciação verdadeiramente escabroso. Além de
quebrar uma imagem de Cristo e de urinar e
cuspir sobre ela, ingeriam hóstias consagradas
com vinho e sangue de virgens e crianças.
Além disso, comiam uma
espécie de bolo, feito de carne humana, sangue
e vísceras.
Para se locomoverem,
montavam em bodes, que os levavam a qualquer
parte, para cometerem suas atrocidades. Vale
dizer que todos esses relatos foram feitos por
testemunhas que não precisavam se identificar
e que a confirmação era arrancada através de
métodos abomináveis de tortura.
O que ocorreu, na
realidade, é que, coincidindo com a fuga de
ciganos do domínio turco, bandidos e
desertores de toda sorte invadiram igualmente
a Europa Ocidental, roubando, estuprando e
matando, praticando toda sorte de crimes
possíveis. Se já não viam com bons olhos os
ciganos, ligá-los a essas fantasias foi algo
muito fácil para os religiosos da época.
As lendas que contam e em
que acreditam não foram necessariamente
vividas por eles, mas naturalmente assimiladas
quando de sua movimentação pelos países onde
elas se originaram.
Fonte:
Povo de Aruanda
Retirado do
Livro: Ciganos, os filhos do vento –
Lourivaldo Perez Baçan
Postado por
Izabel Cristina da Fonseca, 21 abril de 2010
(12.500)
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