Apesar da necessidade de abrirmos espaços
para uma vida espiritual mais rica e
significativa, vivemos em um planeta e
temos um corpo físico material e concreto.
Todo nosso sentido de identidade está
relacionado com o contato que temos com
esse corpo, suas sensações e sentimentos,
sua expressão, postura e movimentos. Se
esse contato for frágil ou se não temos
contato suficientemente com nossas
expressões e sensações corporais, podemos
dizer que não sabemos quem somos.
Nesse
sentido, podemos chegar à conclusão que, se
não fazemos contato suficiente com nossas
emoções e nosso corpo, construímos um corpo
sem vida e conseqüentemente, uma alma sem
vida. Certamente um corpo vivo abriga uma
pessoa feliz. Sabemos que possuímos um corpo
que, por menor que seja nosso contato com
ele, nos orienta no tempo e no espaço. Mas
se não nos identificamos com esse corpo,
inevitavelmente nos sentimos seres
semimortos, mecânicos e alienados.
Nós
que estamos encarnados percebemos a
realidade somente através de nosso corpo.
Quanto mais conectados estamos a esse corpo,
mais vivos e felizes nos sentimos. Mas
quando digo contato com o corpo, não me
refiro ao contato com a imagem ou forma que
esse corpo tem. Vivemos em uma sociedade
narcisista, onde o culto à imagem está
presente em toda e qualquer situação. Muitas
pessoas tornam-se escravas dessa imagem,
perdendo assim, totalmente, o contato real
com seu corpo.
Refiro-me, sim, às sensações e sentimentos
desse corpo, que é exatamente o que nos faz
sentir que estamos vivos. Um corpo que
estremece de medo, que se arrepia de prazer,
que busca o contato e calor humano, e a
fusão no momento de amor. Um corpo vivo e
pulsante, repleto de ternura e realidade.
Digo
realidade porque experimentamos a realidade
do mundo somente através de nosso corpo, dos
nossos sentidos. A ausência de sentimentos
sinaliza um corpo morto, sem vida,
encouraçado e defendido, sem contato com o
mundo real.
Um
corpo sem vida é um corpo infeliz, que
abriga uma pessoa infeliz. Quando nos
apegamos demasiadamente à imagem, nos
afastamos da vida, do verdadeiro sentimento
corporal, de nossa verdadeira identidade.
Sem sabermos quem somos não podemos
construir muita coisa. Quando estamos em
contato com nosso corpo, percebemos mais as
cores, os sons, nossa necessidade de calor e
contato aumenta, e podemos começar a ter uma
noção mais exata dos nossos limites.
E
quando conhecemos esses limites, começamos a
construir um caminho mais concreto em
direção a nós mesmos e aos outros.
Certamente faremos escolhas mais acertadas,
sem corrermos tantos riscos de errar.
Paramos de perseguir objetivos irreais, já
que entramos em contato com a realidade de
nós mesmos, e caminhamos em direção a sonhos
atingíveis e conseqüentemente nos sentiremos
mais íntegros e felizes.
Desde
muito pequenos, somos persuadidos e
envolvidos pela educação convencional a
deixarmos de lado, por repressão, nossos
sentimentos corporais. Enquanto matamos
nossos corpos, matamos também a vida e a
felicidade que nele se abriga, juntamente
com nossa verdadeira identidade.
Simplesmente deixamos de ser. Perdendo
nossas sensações, perdemos a nós mesmos,
passamos a nos sentir estranhos moradores de
um corpo que negamos e acabamos por romper
nosso contato com a realidade. Primeiro
rompemos com a realidade do que
verdadeiramente somos e, em seguida, com a
realidade da vida.
Em
estados mais agravados de falta de contato
corporal, e conseqüentemente com a realidade
dos sentimentos, há um desligamento do mundo
e das pessoas e por muitas vezes
desenvolvem-se estados de medo e pânico.
Quando mais inteirados estamos de nossas
sensações corporais, mais vivos e reais nos
sentiremos.
Uma
boa dica para você que quer começar a
perceber as sensações de seu corpo, é a
percepção de sua capacidade respiratória.
Nós, ocidentais, não aprendemos a
importância da respiração. Quando respiramos
profundamente, quando permitimos que o ar
penetre totalmente em nosso corpo, recebemos
a vida plenamente.
Quando
seguramos nossa respiração, impedimos a vida
e todas as maravilhosas sensações que ela
nos traz. Normalmente pessoas que seguram a
respiração ou que possuem uma respiração
curta, são pessoas que possuem um grande
medo de sua própria intensidade, da
intensidade da própria vida.
Não
deixando o ar entrar, impedimos o contato
com o medo, é bem verdade, mas também o
contato com o amor. Negando sentimentos e
sensações que nos atemorizam, negamos também
as que nos realizam como seres humanos. E
como podemos ser felizes negando nossa
condição humana de estarmos encarnados em um
corpo repleto de sensações?
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