Pelo Olhar de uma Baiana

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Usar ou ser usada?

 Eu não sou coitada e você? Você usa ou deixa ser usada?

Estava eu aguardando na sala de espera da minha dermatologista, quando ouvi: "Coitada de fulana, foi usada por aquele homem safado".

Aquilo me chamou a atenção, mesmo porque coitada, se referia a uma mulher e sinceramente não admito quando alguém vê uma mulher como coitada.

 

Atenta, resolvi escutar a conversa alheia, afinal eu não tinha nada a fazer mesmo, porque os consultórios médicos insistem em colocar na TV Globo e ninguém merece ver o “vale a pena ver de novo”, que só vale a pela mesmo pra Rede Globo.

Descobri que “a coitada em questão” havia financiado um homem daqueles espertinhos. Só deu pra perceber pelo tom do comentário que ela havia sido usada no pior sentido.

 

Voltei pra casa pensando nisso, cheguei em casa e pensei: não posso deixar passar despercebido tal acontecimento. E resolvi escrever sobre o tema.

Seja essa mulher quem for, eu não consigo vê-la como coitada, nem ter piedade dela.

Eu, Izabel, no que se refere a gente grande, acho que todo mundo sabe mais ou menos onde está se metendo, ninguém é totalmente inocente.

Quando uma mulher é “usada”, algum consentimento ela deu. E, se estava assim tão disponível para o uso alheio, é porque estava se usando pouco ou até mesmo de jeito nenhum.

 

Eu por exemplo, trabalho, como, bebo, durmo, e faço sexo com freqüência, diga-se de passagem que pra mim são minhas necessidades básicas. Mas todo dia lembro a mim mesma que estou aqui no mundo para viver de verdade. Sei que é dentro de mim que mora a fonte do prazer.

Quando quero dançar, saio pra dançar até suar, falo o que penso mesmo que isso contrarie alguém.

Eu dou muita risada mesmo, não ligo se vai aparecer minha garganta, mesmo porque não negligencio, cuido dos meus dentes.

Uso a minha vida pra progredir, não me canso de tentar, e sempre tenho à sensação que muito tenho a fazer ainda.

O meu maior estímulo é honrar minha história de vida, que é meu maior currículo, as minhas experiências. E aprendi com a vida que devo respeitar e ouvir sempre minha intuição.

E o outro detalhe que é minha mola mestre é meu coração que eu não o deixo acomodado no meu peito.

Eu uso meu coração sem ficar presa a frustrações, porque uma ou outra coisa não deu certo, ou porque uma pessoa me mostrou que não era quem eu pensava, ou porque meu casamento poderá não durar até que a morte nos separe.

Não permitirei enviuvar de mim mesma, porque ninguém pode morrer de amor, nem por ninguém, cada um tem sua vida e eu tenho a minha, que olho como minha maior empresa - meu pomar. Meus dias são meus investimentos futuros, que me oferecerá muitos frutos ou farão com que eu perca toda minha colheita.

Uso meus olhos para fixar as cenas em que vivi intensamente, dando risada, no auge da minha felicidade. Minha emoção vem da minha memória, e minha memória reviva meus olhos.  Eu vivo para evoluir.

Uso meus ouvidos para escutar boas idéias, conselhos, música, ou simplesmente não escutar nada.

Uso minhas pernas para direcionar o caminho que tenho a seguir e minhas mãos para fazer minhas artes, trabalhos manuais que crio, que invento do nada.

Uso meu cérebro pra formar estratégias diárias que servem como adubos para a plantação do meu futuro, e uso toda a minha alma para escrever minhas poesias.

 

Então, resumindo, eu me uso intensamente, mesmo porque se eu não fizer isso, alguém vai querer fazer por mim. Não nasci para ser comentário de sala de espera de consultório.

Mesmo porque eu, Izabel não sou uma mulher de se jogar fora, sou simples, humana, inteligente, versátil. Então todo homem de verdade merece ter uma Izabel na vida, nem que seja uma vez.

Beijão.

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Escrito e postado por Izabel Cristina da Fonseca, 4 de outubro de 2009. (9562)

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