Pelo Olhar de uma Baiana

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 Trocadilho....

Precisava vir escrever. Tenho tanta coisa para escrever sobre mim mesma. Sobre as coisas que eu penso, sobre meus sentimentos, meus excessos, e porque não minha indignação?

Sabe, sou muito crítica, sou intolerante comigo mesma. A sensação de não ter mais tempo a perder na minha vida me tornou uma pessoa mais seletiva. E isso às vezes até me prejudica porque eu não consigo deixar passar um comportamento que não gosto. Mesmo porque todas as vezes que eu consegui me controlar, conseguindo fingir que não estava chateada, a mágoa foi acumulando e eu acabei soltando da maneira errada, e assim perdendo a razão, porque eu sou intensa, e essa minha intensidade é forte demais. Eu bato sem piedade, e literalmente eu não sei brincar de bater. Na verdade eu nunca soube brincar de bater. Brincar de bater para mim é a mesma coisa que brincar com a mãe dos outros. Lembro que desde que me conheço como gente eu abomino esse tipo de brincadeira. Luta é luta. É “a Vera”, como diz na minha terra, e mãe sempre foi uma coisa sagrada.

Cada dia que passa vejo que o que mais aprecio num ser humano é a generosidade. A magia de ser generoso requer espontaneidade, brota de dentro para fora.

Já me chamaram de sábia, e hoje começo a acreditar nisso. Revendo minha história vejo que meu primeiro sintoma de sabedoria foi quando senti que não precisava de pressa para fazer as coisas. Quando me senti calma. E o outro sintoma de sabedoria foi quando deixei de carregar culpa das coisas que não havia dado certo. Porque eu nunca tive medo de tentar, e eu sempre acreditei nos meus sonhos e busquei meus sonhos mesmo contrariando pessoas.

Eu sempre fui imprudente. Fui também irreverente, ousada, grossa, e às vezes ou sempre mal criada. Eu quando eu escorregava na minha própria vida, eu levantava e seguia em frente sem olhar para os lados. Nunca me importei com quem estava na platéia. E confesso que minha arquibancada sempre esteve cheia. Por ser imprudente eu sempre acreditei que eu podia tudo, e isso é tendência dos imprudentes. Acreditar que é capaz.

Outra característica minha foi servir de degrau. Fui uma ponte, e transportei muita gente ao crescimento. Gente capaz que estava na prateleira da vida. Gente que era excluído por ter opinião própria. Porque o mundo cisma em descriminar “os pensantes executantes”. Hoje algumas dessas pessoas que eu transportei passam por mim e fingem não me conhecer, o que já me deixou muito triste, até que essa tristeza deu lugar ao orgulho, afinal, passei a entender minha missão, e a ter a consciência que fiz minha parte. Saber que eu acreditei naquela pessoa e que eu fui capaz de ver o que ninguém enxergava por preconceito, passou a ser motivo de muito orgulho de mim mesma. Mas confesso que custei a descobri quem eram meus verdadeiros amigos e quem eram os amigos da Izabel articuladora, corajosa, da mulher que veste a camisa e defende causas. A Izabel madrinha e defensora.

 

Meu melhor momento sempre foi o aqui e agora. Meu tesão existencial é ter a certeza que realizo sonhos diariamente defendendo minha verdade. Enquanto convivo com pessoas que vivem tentando provar coisas aos outros, eu olho para trás e não lembro de mim sentindo necessidade de provar nada a ninguém.

Mesmo fazendo mil coisas ao mesmo tempo, sempre procurei ser responsável em tudo que me propunha a fazer. Minha palavra sempre bastava. Nunca achei necessário assinar termos de compromisso. Minha responsabilidade me levou a várias vitórias, muitas delas que eu nem cheguei a acenar minha bandeira. Enquanto minha torcida comemorava, eu ia tomar um banho e dormi. Quando saio de uma guerra minha roupa esta imunda, eu não sou do tipo que me escondo atrás de ninguém com medo de ser acertada.

 

Um dia ouvi que me preferiam na versão doida que na convencional. Porque meu lado careta é cheio de exigências, enquanto meu lado doido é completamente insano.  (rsrsrs)

Quando decidi aceitar a possibilidade de fazer psicanálise, a decisão não foi por mim Izabel, eu nem viver queria! Eu tinha perdido a noção da alegria, os dias eram sempre outros dias, e nem olhava mais o relógio. Decidi me tratar por meus filhos.

Com o tratamento fui aprendendo a me entender, olhar para dentro de mim... e nesse momento eu acordei e passei a me tratar por mim. Eu descobria coisas assustadoras que estavam guardadas dentro de mim.

Dentro de mim tinha uma lixeira, tinha um arquivo morto, e tinha um arquivo vivo, eu tinha contas que não paguei a mim mesma, e outras que não recebi de algumas pessoas, e que deixei estocado na gaveta de contas a receber. Eu era uma empresa que estava à beira da falência.

O fato de esta centrada, sentindo meus pés no chão era e continua sendo uma questão de justiça comigo mesma. É cruel uma pessoa ter passado por tudo que passei e não consegui me reerguer hoje.

Sabe, eu acho que falta a humanidade uma reflexão diária antes de dormir. Se cada pessoa antes de dormir se perguntasse o quanto produziu como ser humano durante o dia, ou na semana, o mundo estaria melhor. Fico impressionada como pode existi gente que não faz nada por ninguém, e o pior não faz nada nem por si próprio. Eles vivem no seu mundo como se não fizesse parte desse mundo.

 

Nunca me senti melhor que ninguém. Apenas sou uma pessoa que mesmo quando não tenho intenção eu consigo transformar o ambiente com minha alegria. Que algumas pessoas denominam como minha luz.

Já não tenho certeza se ser forte é qualidade ou defeito. Perdi a medida da razão.

Nunca escondi minha depressão. Nunca tive vergonha de dizer que passei dias pensando em me matar. Eu penso que, se eu posso servir de exemplo, porque não ser? Se minha depressão é crônica, porque não procurar conviver com ela da melhor maneira possível? Sem sacrificar as pessoas ao meu redor.

Achava bonito ser polemica e Corajosa. Hoje acho que é cruel.

 

Minha trajetória é marcada por atitudes que tomei. Umas fáceis, outras muito difíceis. Mas eu sempre segui em frente. Sempre executei. Nunca fui de projetar nada. Eu sou uma construtora, quando não dava certo eu desmontava e montava tudo de novo. Por ser uma pessoa de fazer, eu tenho tendência a me aborrecer quando me certifico que tudo pára quando eu resolvo cruzar meus braços. A acomodação das pessoas me irrita profundamente. Fico muito irada quando eu vejo que se eu não faço ninguém faz. Porque se quando eu faço todo mundo usufrui, porque se deixo de fazer todo mundo continua vivendo?

Lembro que a primeira vez que tirei férias, eu não conseguia passar um dia sem fazer nada. Hoje depois da psicanálise consigo ficar deitada na minha cama quietinha se preciso a tarde toda, a manhã toda ou todo o dia.

 

Ser mãe sempre foi um sonho para mim. Nunca sonhei com festa de 15 anos, nem com casamento na igreja, nem com marido, nem com príncipe, mas lembro que sempre sonhei em ser mãe, em senti um bebê dentro da minha barriga, em amamentar, e em colocar meu bebê para dormir.

Hoje vejo que meus filhos cresceram.

 

E confesso que sou muito intensa com eles, e não lhes poupo dos meus erros, nem dos meus defeitos, nem tão pouco das coisas que eu faço de errado. Porque eu não tenho necessidade de ser vista como um exemplo, nem como uma mulher pura. Eu não tenho interesse que meus filhos me vejam como uma perfeição. Eu me preocupo muito mais em ser real para eles, quero ser de verdade, e que eles aprendam com meus erros, e que sofram comigo, assim como eu sofro com eles. Quando estou presente eu sou uma tempestade na vida deles, e quando eu digo não é NÃO mesmo, e eu grito com eles independente de idade, estado civil ou sexo. Para mim meus filhos me devem obediência eterna, cabe a eles aproveitarem a minha presença. Se eu tivesse noção que eles cresceriam tão rápido teria tido mais filhos. Reconheço que educar é uma luta, mas passa muito rápido.

 

Gostaria que as meninas fossem mais presentes, não por mim, e sim por elas. Eu sei o quanto é duro olhar para trás e sentir arrependimento.

 

Não sou de sentir saudade, nem de ficar chorando o leite derramado, procuro ser realista e objetiva, mesmo porque minha vida sempre foi composta de escolhas. E quando escolhemos um caminho alguém fica para trás. Toda conquista vem de uma perda. A vida não passa de uma troca. Reciclamos pessoas, situações, sentimentos, e por ai vai...

 

Relacionamento homem e mulher para mim é sintonia. Meu maior desafio é conciliar minha vida a um companheiro, é saber administrar o tempo com a disposição. Diferente das mulheres que conheço, eu não gosto de dormi acompanhada, gosto de acordar acompanhada. Gosto de levantar primeiro e ficar observando meu amor dormindo, gosto de permanecer acordada e deixá-lo dormir ate descansar o suficiente para acordar e me receber. Gosto de preparar um café especial e se possível acordar cedo para prestigiar o meu amor, e me despedir dele se ele for trabalhar e eu estiver de folga. Sinto-me atraída por coisas simples que fazem o diferencial.

Uma mulher bem resolvida não precisa de um homem para ser feliz.

Não sou mulher de fuçar a vida de meu companheiro. Deixo bem claro: se quiser me trair que me traia, mas não me deixe saber. Acho que trair tem que ter critério, e tem que se pensar antes. Se valer a pena mergulhe fundo, do contrário é melhor tomar um banho gelado, e pensar nas virtudes do seu amor. Acho que até quando se trai tem que haver respeito. Acho ridículo expor um companheiro, por mais escroto que ele seja. Defendo que o respeito é mais importante que o amor em si. Não me interessa um homem que me ame, e que seja apaixonado por mim e que não me respeite.

 

Procuro alguém que quebre qualquer clima de tensão quando eu estiver emburrada. Sou uma mulher básica, que se sente atraída por pequenos gestos e atitudes inesperadas.

 

Sei que poderia ter mais saúde se não fosse as batalhas que enfrentei e os excessos que cometi. Mais sem sombra de dúvida foram minhas tristezas que me adoeceram no decorrer dos últimos anos.

Hoje se torna fundamental alimentar minha fé, pois só ela me fará perseverar.

 

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Escrito e postado por Izabel Cristina da Fonseca, 1 junho de 2009. (7497)

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