Pelo Olhar de uma Baiana

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A Mulher segundo o seu Olhar

Prometi a mim mesma que não escreveria mais até minha partida.

Cheguei a pedi para meu coração que não me desse inspiração para cuspir meus sentimentos...

tudo que queria era não formar frases....

Mais, quando olhei para mim... lá estou eu aqui escrevendo esses essas linhas mesmo sem querer, afinal, escrever para mim se tornou um gesto involuntário que acontece quando estou gritando, chorando, quando estou para sumir e até quando quero me castigar guardando dentro de mim tudo que sinto.

Afinal, para que falar o que sinto se nem quero pensar no que sinto?

 

Sabe meu amor, hoje eu sei o quanto errei comigo mesma... eu não passo de uma tola sonhadora...

Eu insisti em ver o mundo de acordo com as cartas do meu baralho, e, hoje elas estão embaralhadas, e eu procurando juntá-las, guardando meu fardo,  recolhendo sonho por sonho, desejo por desejo, anseio por anseio... e me perguntando: porque sou tão boa para os outros e ruim para mim?

Será que eu deveria ter colocado as cartas em posições diferentes ou simplesmente nem ter usado as cartas que usei?

Ahhh meu amor... sinto-me culpada por não ter usado as armas que guardo desde que me fiz mulher...

Tudo porque ingenuamente acreditava que a minha vida não poderia ser vivida como em um campo de batalha.

 

E hoje quando abri meu armário... lá estavam todos os meus escudos. Olhei para meu corpo e descobri que estou nua. Me pergunto: como pude eu me abrir assim? Agora me sinto culpada por acreditar no ser humano, e por pensar que comigo seria diferente...

Hoje olho para dentro mim e me despeço de mim, e agora de você...

 

Me sinto culpada por não ter jogado o baralho em meu favor, por ter aceitado as pessoas como elas eram...

Eu tive você como um barro molhado em minhas mãos, e nem assim eu aproveitei para tentar te moldar... eu deixei correr frouxo... eu acreditei que o amor era incondicional. Defendi que não tinha motivos para mentiras, e vomitei meus segredos como se eles fossem gorduras ingeridas outrora...

 

Sinto-me culpada por ter mantido minha palavra, e até mesmo por ter tido palavra...

 

Sinto-me uma tola quando preservei tanto você e não ultrapassei o sinal mesmo quando a rua estava deserta. Hoje vejo meu espírito inquieto. A vontade de sumir ronda meu cérebro porque sinto-me sobrando nesse mundo cruel.

 

Olho para minha barriga com duvida se eu tenho umbigo, e me pergunto:

porque não olhei somente para ele?

 

Lembro das tempestades que enfrentei sozinha, na ilusão de me sentir forte, e só hoje vejo que a força das águas levavam com ela pouco a pouco os grãos de areia do meu castelo.

Hoje sou apenas um casebre a espera da primeira tempestade para cair ribanceira abaixo...

 

Amei você sem medo, sem pudor, sem fronteiras, sem barreiras. Apenas te amei.

Não sonhei com seu salário, nem com sua casa, não almejei seus cachorros, não quis presentes. Eu não cobrei uma ligação no dia das mães, nem dos namorados, nem natal, nem ano novo, muito menos quando fiz aniversário... e mesmo assim lembro que nós dois sorríamos antes de dormir, e eu mesmo tola sendo, perdi a conta das vezes que acordei pelada e cansada da minha entrega na noite anterior...

Eu me preparava para você. Eu sempre te esperava calada...

 

E assim eu deixei de olhar o tempo... mesmo porque para mim meu amor não tinha tempo ruim. No calor, na chuva, no frio, eu estava lá. Dias de sandália havaiana, outros de bota.... mas eu sempre estava lá.

 

Eu já voltei para casa me tremendo de frio na estrada... e já dormi no ônibus de acordar com meu próprio ronco...

 

Mais hoje eu olhei para dentro de mim.... e estou aqui escrevendo minhas sandices. Não por você, mas por mim mesma.... por me sentir incapaz de conquistar sendo eu mesma... sem armações nem manipulações. Por me vê mais uma vez na sua prateleira e nem assim eu ter vontade de te destruir...

Eu estou indo embora porque eu não sou mais capaz de me amar ... e tudo que eu precisava era me amar mais.... e ser igual as outras ao menos de vez em quando.

 

Eu te guardei, te preservei, cuidei de ti mesmo quando não tinha nem tempo para mim. E hoje olho para mim e constato que não passo de uma mulher que nada fiz por mim mesma.

 

Hoje estou recolhida no meu casulo. Sem barco de papel, sem castelo de areia... tentando buscar respostas que não encontrarei porque na verdade não quero ouvi.

Hoje, eu chorei e calei, chorei e calei, até que a voz da minha alma me disse:

Chora poeta! não segure essa lágrima. Mostre ao seu amor, fonte de inspiração, que também sofre como qualquer outro ser...

 

Eu corri contra o tempo e esqueci muitas vezes de pedir licença a Senhora Vida.

Saí invadindo corações, entregando minhas emoções, defendendo minhas verdades, levantando o dedo, marchando, criando movimentos, levantando bandeiras, exigindo respeito do mundo... e esqueci de exigir o seu respeito.

E tudo porque eu fui tola e pensei que amor e respeito eram sinônimos.... mas não são.... eles não são...

 

É. Chora poeta... mas deixe seus versos lacrimejados aqui. Esse labirinto de letras registrados por você que muitas vezes foi chamada de "bela", "belinha", e até de "narizinho".

 

Chora poeta... mas não se esqueça que você já escreveu no escuro, em mesa de bar, em heliponto de plataforma, e até dentro de um ônibus em movimento.

 

Choooooooora poeta... mas não deixe de escrever! deixe suas lágrimas rolarem teclado abaixo...

E que esse labirinto de letras tenha a força para fazer alguma outra mulher a repensar na vida. Já que você poeta... viveu tanto que parou de pensar.

 

Chora poeta e tenha certeza que alguém ainda chorará por ti.

 

Ahhh meu bem querer, eu não vou dizer adeus, mas também não quero sair "à francesa".

Eu só quero sumir, mas não posso sair deixando minha tribo sem telhado.

 

Eu tenho todas as armas na minha mão. Sei exatamente qual ferro tirar para desmoronar a lona desse circo, mas, ainda assim penso nas crianças. Eu sei como fazer um palhaço chorar... mas eu ainda assim penso nas crianças...

 

Desculpe ter invadido sua praia... eu tentei te esperar... mas minha tristeza é maior que tudo. eu já nem consigo me olhar no espelho, sabe como é? Eu estou com vergonha de mim!

 

Olho para dentro de mim e vejo o filme da minha vida passando...

 

Me fizeram mulher quando eu ainda era apenas uma criança. Abandonei as cirandas, brincadeiras de rodas e minha casinha de boneca. Minha boneca passou a ser de verdade... e eu só tinha 14 anos. Ela acordava chorando de madrugada e só calava quando mamava no meu peito...

 

Logo cedo eu caí na estrada e venho nessa longa caminhada há anos, buscando eu não sei mais nem o que... Tudo para mim hoje é desconhecido. A batida do meu coração, meu corpo, meu prazer, tudo é novo para mim, e tudo depois de você.

 

Eu amadureci antes do tempo, mesmo sem ter tempo de ver o tempo passar.

Eu me fiz forte diante da minha própria fraqueza, me fiz corajosa diante do meu próprio medo...

Segui trilhas sem rumo, andei por labirintos tentando fugir do destino, e por muitas vezes me escondi de minha própria vida...

 

Mas hoje eu olhei para dentro de mim, e me vi com medo da própria sombra.

O cofre da minha alma esta aberto e eu entreguei o tesouro da minha vida.

Ainda assim estou aqui, levantando mais uma vez minha bandeira. Pois, só ela tem o poder de renovar minhas forças.

Eu, Izabel Cristina da Fonseca.

 

Mande esse link para uma pessoa especial: www.jacuecangaindependente.com/ji-pob-amsso.htm

 

Postado por Izabel Cristina da Fonseca, 22 de março de 2009. (5811)

 

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