Paz em vez do
Stress: A decisão é sua
Na batalha para equilibrar trabalho, casamento e
filhos, estamos nos tornando vítimas da nossa mania de perfeição, sempre
cansadas e em dívida com alguém. A escritora e psicoterapeuta Lidia Aratangy
propõe um desafio que pode iluminar o caminho, e nossas entrevistadas
comprovam: a decisão de viver melhor está dentro de cada uma de nós
Se você é capaz de falar ao telefone com a amiga
enquanto escreve a lista de compras do supermercado, acompanha o barulho dos
pequenos que brincam no quarto, controla o horário do mais velho (não vá ele
perder a hora da perua!) e sente o cheiro do leite queimado derramando no
fogão, deve isso à anatomia do seu cérebro. Pesquisas recentes revelam que as
mulheres têm mais conexões entre os dois hemisférios cerebrais do que os
homens, o que lhes permite prestar atenção em vários eventos ao mesmo tempo.
Correr é um
aprendizado
"Durante anos trabalhei num grande banco com
fundos de investimento. Sou de uma geração que achava muito bacana ser
workaholic e viver estressada. Minha formação como matemática e economista me
permitiu ter muito sucesso e participar de operações importantes no mercado
financeiro nos anos 90. Foi nessa época que eu comecei a correr e descobri que
a corrida, mais do que um exercício físico, era um aprendizado de equilíbrio
pessoal. No banco, vive-se sob um grande stress que não leva a nada. Ganha-se
dinheiro, e daí? O stress do corredor é construtivo, ensina o valor de superar
os próprios limites. É para o bem. Então, aos 39 anos, deixei o mercado e
prestei vestibular para educação física. Troquei o stress ruim por outro,
positivo, que representa uma opção pela vida ao ar livre e pelo crescimento
pessoal. Hoje treino corredores. Minha renda caiu, mas valeu a pena. Trabalho
duro, porém sou muito mais feliz: convivo com gente mais bem-humorada e sou
capaz de chorar de emoção quando um aluno completa uma corrida de 10
quilômetros pela primeira vez." Martha Maria Dallari, 44 anos, é treinadora de
corrida
E se, enquanto conversa ao telefone, você
escolhe a roupa com que vai para o trabalho, percebe que está com uma unha
lascada (precisa de manicura urgente!) e, num cantinho escondido do cérebro,
repassa o relatório que vai apresentar à sua equipe, isso se deve à
emancipação feminina. Você é uma mulher do seu tempo, que já conquistou seu
lugar no universo do trabalho. Algumas gerações atrás, uma mulher casada só
"trabalhava fora" quando o marido não tinha condições de sustentar a família.
Era uma ajuda temporária ao orçamento doméstico, até que o chefe da família
conseguisse "se estabelecer". A idéia de que o trabalho feminino servisse para
algo mais do que garantir o pão e, se possível, o circo não fazia parte do
imaginário das famílias: as mulheres almejavam o trono de "rainhas do lar" e
os homens sentiam-se realizados quando asseguravam à família um cotidiano
confortável e um futuro tranqüilo. Nada indica que essas mulheres fossem mais
felizes do que as de hoje, mas provavelmente eram menos estressadas e menos
culpadas. A responsabilidade pelas decisões é proporcional ao poder de
escolha, e um número menor de opções diminui a angostia de escolher errado.
Quando os métodos anticoncepcionais não eram tão
seguros, o casal não podia decidir a hora em que teria filhos nem quantos
seriam: a procriação era um evento puramente biológico, controlado por forças
alheias. Com o advento de métodos anticoncepcionais eficientes, a maternidade
deixou de ser uma contingência natural para entrar no universo do desejo.
Desde então, as mulheres que escolhem ser mães devem arcar com as
conseqüências de sua opção e têm menos espaço para lamentações. A pílula
trouxe, além da liberdade, a responsabilidade pela escolha, e a pressão por
sentir prazer na maternidade se junta à culpa e ao sentimento de insuficiência
- desde sempre ardilosos companheiros das mães - para ampliar a angostia e o
desamparo das inexperientes.
Sou dona da minha
história
"No dia do meu casamento, quando eu estava me
arrumando no salão, o celular tocou: era uma funcionária da empresa onde eu
trabalhava ligando do Canadá - a sede da companhia era lá - para eu resolver
um problema no Brasil. Contei a ela que me casaria em poucas horas e depois
tiraria duas semanas de férias, que não dava para eu correr atrás... Ela se
desculpou e desligou. Essa história é bem típica da vida que eu levava: sem
horários, o tempo todo viajando, sob pressão de um chefe difícil. Chegaram a
propor que eu me mudasse para o Chile. No final de 1998, passei pela primeira
crise. Os dedos dos pés formigavam e sentia um mal-estar terrível. O
diagnóstico nunca foi claro, mas para mim não restavam dovidas: era stress.
Troquei de emprego, mas a situação não melhorou - tive outra crise. Cheguei a
ser internada porque deixei de sentir parcialmente os pés e as mãos. Não
queria mais viver daquele jeito, passando uma semana sem ver minha filha,
Alícia, de 2 anos. Juntei minhas economias e, há um ano, abri uma consultoria
de idiomas com uma sócia. O negócio vai bem e ganhei qualidade de vida. Ainda
trabalho muito, mas monto meus horários e encontrei tempo para tudo. Não
voltei a ter crises. Sou dona da minha história e tenho paz interior." Filly
Korolkovas Belchior, 31 anos, empresária
O casamento foi inventado para consolidar
alianças, garantir o direito de herança, proteger as mulheres. A escolha dos
parceiros cabia aos pais ou a alguma autoridade reconhecida pelas famílias.
Logo o pessoal se deu conta de que o vínculo permanente de um casal, com
moradia conjunta e fixa, era um nicho adequado para a criação dos filhotes - e
este passou a ser o escopo secundário do casamento. Só muito mais tarde entrou
em cena o ideal romântico que associou o casamento à idéia de um vínculo
amoroso duradouro, cujo objetivo era tornar os parceiros felizes. Com essa
nova concepção, a escolha passou a ser feita pelos parceiros - e sobre eles
recai a responsabilidade por escolhas malfeitas. A felicidade conjugal e a
harmonia da família tornaram-se atestados de que o parceiro foi bem escolhido
e de que o casal é suficientemente sábio e amadurecido para conservar o
vínculo. Surge daí uma fonte de stress: marido e mulher procuram demonstrar ao
mundo o sucesso da relação por meio de provas materiais e simbólicas, como a
casa bonita e sempre em ordem, os filhos bem-vestidos e com boas notas. Esse
território já pertencia à mulher quando éramos vestais em tempo integral e
cuidávamos para manter o calor do fogo e dos afetos na família - e até hoje
continuamos a nos responsabilizar por ele, a despeito de conquistas mais
amplas.
Eu vivia
perigosamente
"Sempre trabalhei muito, 12 horas por dia, em
média. Me especializei em indostria de cosméticos e passei por grandes
empresas, mantendo um ritmo acelerado e sob grande stress. Há pouco mais de um
ano, porém, resolvi rever meus valores. Houve um gatilho: minha mãe e minha
sogra adoeceram gravemente e eu, além de todas as tarefas profissionais,
assumi os cuidados com minhas "duas mães". Foi um tempo difícil. Mergulhei em
mim mesma para perguntar o que eu tinha feito da vida até então. Percebi que o
stress é implacável: estava muito cansada, o emprego ocupava tempo demais e me
afastava das pessoas queridas. Precisava reavaliar as prioridades. Logo tomei
algumas decisões. Embora não estivesse doente, passei a cuidar mais da saode.
Resgatei a esteira que estava encostada na garagem, comecei a comer melhor e
descobri até um suplemento alimentar que fez com que me sentisse mais
disposta. Pedi demissão e procurei um trabalho pelo qual eu fosse mais
apaixonada. Hoje cumpro cerca de oito horas diárias e, apesar de ter
atividades extras, como convenções e palestras, me sinto mais feliz. Estava
vivendo perigosamente, mas agora encontrei a minha essência." Adna Fischmann,
44 anos, diretora de marketing
Agora estamos presas nessa armadilha. Temos de
ter sucesso profissional sem deixar de ser excelentes donas-de-casa e mães
exemplares, além de exibir um corpo impecável e um rosto sem rugas. Não basta
ser uma intelectual respeitada - é preciso ter belas pernas; e uma
bem-sucedida mulher de negócios deve ser também a orgulhosa mãe de
filhos-modelo e a fogosa amante de seu marido. Não é por acaso que o stress
nos consome ferozmente e às vezes caímos doentes - sujeitas a internação e
tudo. Sob essa exigência de perfeição, todas as mães acham que cometeram
graves erros na educação dos filhos; as esposas carregam o fardo de não ser
suficientemente dedicadas, ou bonitas, ou inteligentes, ou sabe Deus o quê.
Estamos o tempo todo descontentes com o que somos e correndo para fazer tudo o
que ficamos devendo: ginástica, terapia, estudar inglês, retomar o tratamento
dos dentes, arrumar o jardim, dedicar mais tempo aos filhos, ter mais empenho
na carreira profissional... Foi para isso que lutamos? É esse o prêmio pela
conquista da liberdade? Saímos do jugo de pais e maridos para nos submeter à
tirania do relógio, do chefe, da balança? Para viver sob o domínio de um
sentimento de aflição, de urgência, de providências a tomar?
Não tem de ser assim
Não precisamos ser eternas estressadas.Vamos
desmascarar os engodos que criam essas armadilhas. Em primeiro lugar, há um
século Freud dizia que, para o humano, biologia não é destino; isto é, o fato
de ter tantas conexões entre os hemisférios cerebrais não condena a mulher a
controlar tudo o que cai na sua ampla rede de percepção. É preciso fazer
escolhas, e aí vem a segunda falácia: liberdade é uma questão de foro íntimo,
que se resolve nas instâncias profundas da vida mental; ninguém concede nem
tira nossa liberdade, a não ser nosso superego. Portanto, é daí que pode
emanar o grito que nos tornará independentes de balanças, platéias e
cronômetros. E isso nos leva ao terceiro engodo: o tempo é uma dimensão em que
a democracia é absoluta; todos têm um dia de 24 horas, as horas de reis e de
mendigos têm os mesmos 60 minutos, cada um com a duração precisa e igualitária
de 60 segundos. Quando alguém diz que não tem tempo para fazer isso ou aquilo,
está afirmando que não dá prioridade àquela atividade dentro da sua hierarquia
de compromissos. Ou, então, que coloca em sua lista mais atividades do que o
tempo comporta. Como não é possível espichar o tempo, é imperativo encolher a
lista e livrar-se dessa ansiedade de cumprir horários, honrar promessas,
agradar a todos (como se isso fosse possível...).
A cura estava dentro de mim
"Quando me casei, há quatro anos, mudei de Porto Alegre para São Paulo e minha
vida deu um nó. Não conhecia quase ninguém. Estava sempre ansiosa, tentando
equilibrar o casamento recente, o trabalho numa cidade desconhecida, a vida
pessoal de ponta-cabeça. Comecei a me sentir muito mal. Entrava numa reunião e
uma inquietação imensa tomava conta de mim. Foram sete meses difíceis, até que
eu decidi procurar ajuda. Conheci um médico que diagnosticou transtorno de
ansiedade generalizada e propôs que criássemos um grupo para dar apoio e
informação sobre essas questões. Assim, fundamos a Aporta, Associação dos
Portadores de Transtornos de Ansiedade, em São Paulo, ligada ao Hospital das
Clínicas. Hoje vejo que todo aquele stress foi importante para mudar minha
vida. A cura esteve dentro de mim o tempo inteiro. Eu só precisava aprender a
respeitar os meus limites, parar de centralizar e me deixar levar em alguns
aspectos. Não sou perfeita, não vou dar conta de tudo, mas o que eu conseguir
já estará de bom tamanho, porque terá sido o melhor que pude realizar.
Trabalho bastante, mas como "manutenção" procuro fazer o que dá prazer - como
brincar com o meu cachorro, o Ozzy, e cuidar das minhas plantas. Agora, o
stress não chega nem perto." Márcia Stival, 34 anos, publicitária
Já no meu livro O Amor Tem Mil Caras (Olho
D'Água), eu comentava que os sentimentos de culpa e de débito não são
inerentes à natureza humana (como a marcha bípede ou a capacidade de
simbolização). Sentir-se eternamente em falta só pode ser um desvio de rota,
alguma distorção que se colou à nossa coluna vertebral. Deriva de uma certa
onipotência, da fantasia de controlar os acontecimentos, como se nossas
atitudes dependessem apenas de um ato de vontade e pudéssemos determinar o que
cabe e o que não cabe em cada momento da vida. Pois eu proponho que, neste
ano, em vez de correr para não deixar nada pendente, tomemos uma atitude nova.
Vamos hastear a bandeira da trégua, do descanso. Vamos anunciar que é hora da
conquista maior: gostar do que a gente conseguiu, sem lamentar o que
supostamente deveria ter conquistado; hora de valorizar o que a gente é, sem
remoer o que poderia ter sido.
Proponho que você procure seus filhos para
dizer-lhes que fez por eles o que pôde. Certamente menos do que gostaria de
ter feito, muito menos do que eles acreditam merecer, mas o máximo possível
dentro dos seus humanos limites. E que você olhe nos olhos do companheiro e
reafirme o que ele provavelmente já descobriu: que você não é a princesa do
reino da fantasia, mas uma mulher de carne, ossos e boas intenções, que
gostaria de ser uma pessoa mais tranqüila para se tornar mais tolerante
consigo mesma e com os outros. A pessoa que sou não é bem a que eu gostaria de
ter sido. Não sou (nem nunca serei) perfeita, maravilhosa, fascinante. Sou
apenas uma mulher do meu tempo, bem-intencionada, mas bastante desajeitada;
suficientemente sensível para perceber as necessidades e os desejos do meu
próximo, porém, na maioria das vezes, incompetente para atender a eles. E já
aprendi que não serei nunca muito diferente dessa que sou hoje. Terei mais
cabelos brancos, mais rugas; posso enfeitar um pouco a minha imagem interna e
externa, dar uns arremates, prestar mais atenção para tentar errar menos. Mas
a essência não vai mudar. Perfeita, não serei nunca, nem com cirurgias
plásticas, nem com mais algumas décadas de análise. Pensando bem, talvez o
mundo não tenha perdido muito ao ficar definitivamente privado dessa que eu
acreditava que deveria ser. Para que o mundo fique melhor, o que falta não são
seres olímpicos e perfeitos; mas reles mortais, falíveis e humanos, mais
conformados com fraquezas e limitações, as próprias e as alheias. Com menos
culpas, menos frustrações. Sobretudo, menos onipotência. É por aí que passa o
caminho para a paz de espírito e a ternura.
Fonte:
Revista Cláudia
Postado por
Izabel Cristina da Fonseca, dia 7 de abril
de
2010 (12.221)