O Presídio da Meditação
Maior cadeia da índia monta retiro
espiritual para os detentos - que ficam 10
dias em silêncio absoluto.
O Complexo
Penitenciário de Tihar, em Nova Délhi, é
tão feio, sujo e desumano quanto os piores
presídios brasileiros. Ele abriga 13 mil
detentos, o dobro de sua capacidade
oficial - e 60% mais gente do que o
Carandiru, em São Paulo, chegou a ter.
Mas
desse inferno surgiu um foco de paz:
Tihar criou um programa de meditação
voluntária, do qual os presos podem
participar em busca de tranqüilidade e
elevação espiritual. A cada duas
semanas, uma ala do pavilhão 4 é
reservada para os retiros, que duram 10
dias e não são nada fáceis. Os presos
devem ficar completamente em silêncio e
meditar por 8 horas diárias -
absolutamente parados, sem mexer nenhum
músculo do corpo. É a vipassana (termo
que significa "visão interior"), uma
prática milenar do budismo - e um dos
tipos de meditação mais difíceis que
existem. Cada detento pode fazer o
retiro a cada 3 meses - e a maioria dos
que começam não para mais. Nem todo
preso é aceito no retiro. É preciso que
ele se mostre realmente interessado, e
convença os professores de que é capaz
de seguir as regras do programa de
meditação.
"A vipassana nos
ajuda a ver as coisas como são. Por isso,
acaba ajudando os presos a enxergar a
detenção como uma etapa, uma jornada para
se tornarem pessoas melhores e
verdadeiramente livres", afirma
o professor de meditação Satya Narayan
Goenka, que teve a idéia de instituir a
prática na cadeia.
Segundo ele, os presos
se tornaram mais calmos, a penitenciária
passou a registrar menos incidentes
violentos, e a reincidência criminal dos
que são soltos também diminuiu. No Brasil,
um grupo de praticantes tenta convencer,
desde 2008, o governo a implantar a
vipassana nos presídios. Da vida loka para
a vida espiritual. © TEXTO JULIANA CUNHA