Dra. Cristina Moraes

Psicose e Neurose - Segunda Parte

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 A Perda da Realidade na Neurose e na Psicose.

 

As características que diferenciam uma neurose de uma psicose, é o fato de  numa neurose o ego, em sua dependência da realidade, suprimir um fragmento do Id (da vida pulsional), ao passo que, em uma psicose, esse mesmo ego, a serviço do Id, afasta um fragmento da realidade. Assim, numa neurose o fator decisivo seria a predominância da influência da realidade, enquanto numa psicose  esse fator seria a predominância do Id. Na psicose a perda de realidade estaria necessariamente presente, ao passo que na neurose, segundo parece, essa perda seria evitada.

 De qualquer maneira, temos que admitir que a neurose também perturba a relação do paciente com a realidade, na medida que ela, a neurose, o afasta de alguma maneira do contato com a realidade. E nos casos mais graves, significa  concretamente uma fuga da vida real.

 A contradição, pois, existe apenas enquanto mantemos os olhos fixados na situação no começo da neurose, quando o ego, a serviço da realidade, se dispõe ao recalque de um impulso pulsional. Porém isso não é ainda a própria neurose.  Ela consiste antes nos processos que fornecem uma compensação à parte do Id danificada – isto é, na reação contra  o recalque e no fracasso do recalque. O afrouxamento da relação com a realidade é uma conseqüência desse segundo passo na formação de uma neurose, e não deveria surpreender-nos que um exame pormenorizado demonstre que a perda da realidade afeta exatamente aquele fragmento de realidade, cujas exigências resultaram na repressão pulsional ocorrida.

 No caso da psicose, ocorre algo análogo ao processo da neurose, embora, é claro, em distintas instâncias da mente. Assim, poderíamos esperar que também na psicose duas etapas pudessem ser discernidas, das quais a primeira arrastaria o ego para longe, dessa vez para longe da realidade, enquanto a segunda tentaria reparar o dano causado e restabelecer as relações do indivíduo com a realidade, às expensas do Id.  E isso se faz pela criação de uma nova realidade que não levanta mais as mesmas objeções que a antiga, que foi abandonada. O segundo passo, portanto, na neurose como na psicose, é apoiado pelas mesmas tendências. Em ambos os casos serve ao desejo de poder do Id, que não se deixará ditar pela realidade. Tanto a neurose como a psicose são, pois, expressão de uma rebelião por parte do Id contra o mundo externo, de sua indisposição – ou, caso preferirem, de sua incapacidade – a adaptar-se às exigências da realidade. A neurose e a psicose diferem uma da outra muito mais em sua primeira reação introdutória do que na tentativa de reparação que a segue.

 Na neurose, um fragmento da realidade é evitado por uma espécie de fuga, ao passo que na psicose, a fuga inicial é sucedida por uma fase ativa de remodelamento; na neurose, a obediência inicial é sucedida por uma tentativa adiada de fuga. Ou ainda: A neurose não repudia a realidade, apenas a ignora; A psicose a repudia e tenta substituí-la.

 Existe portanto outra analogia entre uma neurose e uma psicose no fato de em ambas a tarefa empreendida na segunda  etapa ser parcialmente malsucedida, de vez que o instinto reprimido é incapaz de conseguir um substituto completo (na neurose) e a representação da realidade não pode ser remodelada em formas satisfatórias (não pelo menos em todo tipo de doença mental).

 Na psicose, ela incide inteiramente sobre a primeira etapa, que é patológica em si mesma e só pode conduzir à enfermidade. Na neurose, ela recai na segunda, sobre o fracasso do recalque.

 Em suma, depende se o ego rendeu-se à sua lealdade perante o mundo real ou à sua dependência do Id.

 Isso é possibilitado pela existência de um mundo de fantasia, de um domínio que ficou separado do mundo externo real na época da introdução do princípio da realidade.

 É deste mundo de fantasia que a neurose haure o material para suas novas construções de desejos e geralmente A PERDA DA REALIDADE NA NEUROSE E NA PSICOSE encontra esse material pelo caminho da regressão a um passado real satisfatório.

 Dificilmente se pode duvidar que o mundo de fantasia desempenhe o mesmo papel na psicose, e de que aí também ele seja o depósito do qual derivam os materiais ou o padrão para construir a nova realidade.

 Vemos assim, que tanto na neurose como na psicose interessa a questão não apenas relativa a uma perda da realidade, mas também a um substituto para a realidade.

 Como disse certa feita um professor da Faculdade de Psicologia: O psicótico sabe que 2 + 2 é igual a 5 e vive tranqüilo com essa verdade. O neurótico sabe que 2 + 2 é igual a 4, mas não concorda com isso de jeito nehum e vive sofrendo por isso.

 

A Primeira e Segunda Tópicas

 

TÓPICA – Teoria ou ponto de vista que supõe uma diferenciação do aparelho psíquico em certo número de sistemas dotados de características ou funções diferentes e dispostos numa certa ordem uns com relação a outros, o que permite considerá-los metaforicamente como lugares psíquicos de que podemos fornecer uma representação figurada espacialmente.

 

Fala-se correntemente de duas tópicas freudianas, sendo a primeira aquela em a disposição principal é feita entre Inconsciente, Pré-consciente e Consciente, e a segunda a que distingue três instâncias: o Id, o Ego e o Superego.

Inconsciente – (das Unbewusst, unbewusst) - O adjetivo inconsciente é por vezes usado para exprimir o conjunto dos conteúdos não presentes no campo efetivo da consciência, isto num sentido descritivo e não tópico, quer dizer sem se fazer discriminação entre os conteúdos dos sistemas pré-consciente e inconsciente.

No sentido tópico, inconsciente designa um dos sistemas  definidos por Freud no quadro da sua primeira teoria do aparelho psíquico. É constituído por conteúdos recalcados aos quais foi recusado o acesso ao sistema pré-consciente-consciente pela ação do recalque.

 

Podemos resumir do seguinte modo as características essenciais do inconsciente como sistema (ou Ics):

 a)         Os seus conteúdos são representantes das pulsões.

 b)         Estes conteúdos são regidos pelos mecanismos específicos do processo primário, principalmente condensação e deslocamento.

 c)          Fortemente investidos pela energia pulsional, procuram retornar à consciência e à ação (retorno do recalcado); mas só podem ter acesso ao sistema Pcs-Cs nas formações de compromisso, depois de terem sido submetidos às deformações da censura.

 d)         São, mais especialmente, desejos da infância que conhecem uma fixação no inconsciente.

 

No quadro da 2ª Tópica freudiana, o termo inconsciente é usado sobretudo na sua forma adjetiva; efetivamente, inconsciente deixa de ser o que é próprio de uma instância especial, visto que qualifica o id, e, em parte, o ego e o superego. Mas convém notar:

 a)           As características atribuídas ao sistema Ics na          primeira tópica são de um modo geral atribuídas        ao  Id na Segunda.

 b)          A diferença entre pré-consciente e o inconsciente, embora já não esteja baseada numa distinção intersistêmica, persiste como distinção intra-sistêmica (o ego e o superego são em parte pré-conscientes e em parte inconscientes).

 

Pré-consciente – (das Vorbewuste, vorbewusst) – Como substantivo, designa um sistema do aparelho psíquico nitidamente distinto do sistema inconsciente (Ics); como adjetivo, qualifica as operações e conteúdos desse sistema pré-consciente (Pcs). Estes não estão presentes no campo atual da consciência e, portanto, são inconscientes no sentido descritivo, mas distinguem-se dos conteúdos do sistema inconsciente na medida em que permanecem de direito acessíveis à consciência (conhecimento e recordações não atualizados, por exemplo).

 

 Do ponto de vista metapsicológico, o sistema pré-consciente rege-se pelo processo secundário. Está separado do sistema inconsciente pela censura, que não permite que os conteúdos e os processos inconscientes passem para o Pcs sem sofrerem transformações.

 No quadro da 2ª Tópica freudiana, o termo pré-consciente é sobretudo utilizado como adjetivo, para qualificar o que escapa à consciência atual sem ser inconsciente no sentido estrito. Do ponto de vista sistemático, qualifica conteúdos e processos ligados ao ego quanto ao essencial, e também ao superego.

 Consciente – (Bewusst) – No sentido descritivo: qualidade momentânea que caracteriza as percepções externas e internas no conjunto dos fenômenos psíquicos.

 Segundo a teoria metapissicológica de Freud, o consciente seria função de um sistema, o sistema percepção-consciente (Pc-Cs).

 

 Do ponto de vista tópico, o sistema percepção-consciente está situado na periferia do aparelho psíquico, recebendo ao mesmo tempo as informações do mundo exterior e as provenientes do interior, isto é, as sensações que se inscrevem na série desprazer-prazer e as revivescências mnimésicas. Muitas vezes Freud ligo a função percepção-c0nsciente ao sistema pré-consciente, então designado como sistema pré-c90nsciente-consciente (Pcs-Cs).

 Id – (Es ou Isso) – Uma das três instâncias diferenciadas por Freud na sua Segunda teoria do aparelho psíquico. O Id constitui o pólo pulsional da personalidade. Os seus conteúdos, expressão psíquica das pulsões, são inconscientes, por um lado hereditárias e inatos, e por outro, recalcados e adquiridos.

 

Do ponto de vista econômico, o Id é, para Freud, o reservatório inicial da energia psíquica; do ponto de vista dinâmico, entra em conflito como o ego e o superego que, do ponto de vista genético, são as suas diferenciações. (Das ich – o ego – e Das Es – o Id).

 Ego – ou Eu – (Ich) – Instância que Freud na sua Segunda teoria do aparelho psíquico, distingue do Id e do Superego.

 

Do ponto de vista tópico, o ego está numa relação de dependência tanto para com as reivindicações do Id, como para com os imperativos do superego e exigências da realidade. Embora se situe como mediador, encarregado dos interesses da totalidade da pessoa, a sua autonomia é apenas relativa.

 

Do ponto de vista dinâmico, o ego representa eminentemente, no conflito neurótico, o pólo defensivo da personalidade; põe em jogo uma série de mecanismos de defesa, estes motivados pela percepção de um afeto desagradável (sinal de angústia).

 

Do ponto de vista econômico, o ego surge como um fator de legação dos processos psíquicos; mas, nas operações defensivistas, as tentativas de legação da energia pulsional são contaminadas pelas características que especificam o processo primário: assumem um aspecto compulsivo, repetitivo, desreal.

 

A teoria Psicanalítica procura explicar a gênese do ego em dois registros relativamente heterogêneos, quer vendo nele um aparelho adaptativo, diferenciado a partir do Id em contato com a realidade exterior, quer definindo-o como o produto de identificações que levam à formação no seio da pessoa de um objeto de amor investido pelo id.

 Relativamente à primeira teoria do aparelho psíquico, o ego é mais vasto do que o sistema pré-consciente-consciente, na medida em que as suas operações defensivas são em grande parte inconscientes.

 

Do ponto de vista histórico, o conceito tópico dos ego é o resultado de uma noção constantemente presente em Freud desde as origens do seu pensamento.

 Superego – Supereu – (Über-Ich) – Uma das instâncias da personalidade tal como Freud a descreveu no quadro da sua Segunda teoria do aparelho psíquico: o seu papel é assimilável ao de um juiz ou de um censor relativamente ao ego. Freud vê na consciência moral, na auto-observação, na formação de ideais, funções do superego.

 Classicamente, o superego é definido como o herdeiro do complexo de Édipo; constitui-se por interiorização das exigências e das interdições parentais.

 Certos psicanalistas recuam para mais cedo a formação do superego, vendo esta instância em ação desde as fases pré-edipianas (Melanie Klein) ou pelo menos procurando comportamentos e mecanismos psicológicos muito precoces que seriam precursores do superego (Glover, Spitz, por exemplo).

 Como árbitro moral internalizado o Superego se desenvolve em função do sistema de recompensas e punições colocado pelos pais. Para obter recompensas e evitar punições a criança aprende a conduzir-0se de acordo com as normas ditadas pelos pais.

 O Superego tem como que dois subsistemas: a “consciência” – onde estão as punições e o “ideal do ego” onde estão as ações merecedoras de aprovação.

 

O Id – é o sistema original da personalidade psíquica; é a matriz a partir da qual o ego e o superego se diferenciam. O Id é formado pelos aspectos psicológicos herdados e presentes no nascimento, inclusive as pulsões. É o reservatório da energia que põe em funcionamento os outros sistemas. Está em relação estreita com os processos corporais, dos quais retira sua própria energia. Freud chamada o Id de “a verdadeira personalidade psíquica”, por que ele representa o modo inteiro da experiência subjetiva e não tem conhecimento da realidade objetiva.

 -       O Id não tolera aumentos de energia ...... Vide Princípio do Prazer .. Para isso ele dispõe de:

 -       Ação reflexa;

 -       Processo Primário (formação de  imagens, por exemplo de comida para uma pulsão de fome).

 -       Realização do desejo.

 

   As alucinações e visões dos psicóticos, são também exemplos do processo primário.

  Como uma pessoa não pode viver de imagens, inicia-se o desenvolvimento do “Processo Secundário”.

 

 Quando isso acontece inicia-se a formação do segundo sistema da personalidade psíquica: o Ego.

 O Ego – O Ego existe porque as necessidades do organismo requerem transações apropriadas com o mundo objetivo da realidade. Assim uma pessoa faminta precisa aprender a diferenciar uma imagem mental do alimento, do alimento mesmo. A diferença básica entre o Id e o Ego, é que o Id só conhece o realidade subjetiva da mente, enquanto que o Ego faz a distinção entre as coisas da mente e as do mundo exterior.

 

O Ego conhece o “Principio da Realidade”, e opera por meio do “Processo Secundário”.

 O principio da realidade suspende temporariamente o principio do prazer, porque este é satisfeito quando o objeto é encontrado e assim a tensão foi reduzida. O principio de realidade verifica se uma experiência é real ou falsa, isto é, se tem existência externa ou não, ao passo que o principio do prazer interessa-se apenas em saber se uma experiência é desagradável ou agradável.

 Pelo ‘Processo Secundário” o Ego formula um plano para a satisfação da necessidade e depois o testa geralmente por uma espécie de ação, para ver se funciona ou não.

 O Ego é o executivo da personalidade psíquica porque controla os portas de entrada para a ação, seleciona os aspectos do meio aos quais reagirá e decide quais são as pulsões a serem satisfeitas e de que modo. No desempenho dessas altas funções executivas o Ego tem que procurar integrar as exigências muitas vezes antagônicas do Id, do superego e do Meio Externo. Esta é uma tarefa difícil que pesa sobre o Ego.

 Devemos levar em consideração entretanto, que o ego é a parte organizada do Id, que existe para realizar os desejos do Id e não para frustrá-los e que toda a sua força se origina do Id. Ele não tem existência á parte do Id, nunca se torna completamente independente dele. Seu papel principal é o de intermediário entre as exigências pulsinonais do organismo e as condições do ambiente. Seus objetivos constituem em manter a vida do indivíduo e garantir a reprodução da espécie.

 

O Superego – O terceiro e último sistema da personalidade a desenvolver-se é o superego. Ele e o representante interno dos valores e idéias tradicionais da Sociedade, transmitidos pelos pais e reforçados pelo sistema de recompensas e castigos impostas à criança. O superego é a arma moral da personalidade psíquica; representa mais o ideal que o real e luta mais para a perfeição que para o prazer. Sua preocupação principal é decidir se alguma coisa é certa ou errada, de modo que o indivíduo possa agir em harmonia com os padrões autorizados pelos agentes da sociedade.

 Como árbitro moral internalizado o Superego se desenvolve em função do sistema de recompensas e punições colocado pelos pais. Para obter recompensas e evitar punições a criança aprende a conduzir-0se de acordo com as normas ditadas pelos pais.

 O Superego tem como que dois subsistemas: a “consciência” – onde estão as punições e o “ideal do ego” onde estão as ações merecedoras de aprovação.

 O mecanismo de internalização chama-se INTROJEÇÃO.

 PULSÃO – é uma representação psicológica inata de uma fonte somática de excitação. A representação psicológica chama-se desejo, e a excitação corpórea chama-se necessidade.

  

“O ego serve a três senhores”.

 O Ego é o executivo da personalidade psíquica porque controla os portas de entrada para a ação, seleciona os aspectos do meio aos quais reagirá e decide quais são as pulsões a serem satisfeitas e de que modo. No desempenho dessas altas funções executivas o Ego tem que procurar integrar as exigências muitas vezes antagônicas do Id, do superego e do Meio Externo. Esta é uma tarefa difícil que pesa sobre o Ego. 

 

 “O Superego é o herdeiro do complexo de Édipo”.

 É por que podemos assegurar que a instalação do Superego pode ser classificada como exemplo bem-sucedido de identificação com a instancia parental. O fato que fala decisivamente a favor desse ponto de vista é que essa nova criação de uma instância superior dentro do Ego está muito intimamente ligada ao destino do complexo de Édipo, de modo que o superego surge como o herdeiro desse vinculação afetiva tão importante para a infância. Abandonando o complexo de Édipo, uma criança deve renunciar às intensas catexias objetais que depositou em seus pais e é como compensação por essa perda de objetos que excite uma intensificação tão grande das identificações com seus pais, as quais provavelmente há muito estiveram presentes em seu Ego.

 Uma investigação atenta mostra que o superego é tolhido em sua força e crescimento se a superação do complexo de Édipo tem êxito apenas parcial. No decurso do desenvolvimento, o superego também assimila as influências que tomaram lugar dos pais – educadores e professores, pessoas escolhidas como modelos ideais. Normalmente o Superego se afasta mais e mais das figuras parentais originais; torna-se digamos assim mais impessoal. E não se deve esquecer que uma criança tem conceitos diferentes sobre seus pais, em diferentes períodos de sua vida.  À época que o complexo de Édipo da lugar ao superego, eles são algo de muito extraordinário; depois, porém,  perdem muito desse atributo.

 

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