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Transtorno bipolar: Entre altos e baixos

Às vezes, sobra euforia. Às vezes, falta disposição. Quem sofre de transtorno bipolar vive um inferno emocional que prejudica o namoro, a carreira... NOVA ajuda a reconhecer esse mal comum entre os 20 e os 30 anos.

A garota trabalha até as 10 da noite se for preciso. Mal entra em casa, telefona para as amigas e agenda compromissos para a semana inteira. Dorme à meia-noite e, às 5 da manhã, já vai para a academia, onde malha por três horas e segue para o escritório. Passa o dia às voltas com reuniões. Emenda com a balada. Dança muito. Na semana seguinte, parece outra pessoa: acorda desanimada, de péssimo humor. Sem vontade de sair da cama nem de comer. Sentindo-se cansada, triste, angustiada, no fundo do poço. Com a impressão de que as forças estão sendo sugadas por um buraco negro. Passa dias e dias assim. E, de repente, sem explicação, retoma o entusiasmo e volta a ser a mulher mil e uma utilidades. Já percebeu esse comportamento em alguém próximo de você? Quem vive nessa gangorra emocional pode sofrer de transtorno de humor bipolar, distúrbio que alterna episódios de euforia e de depressão e tem se tornado mais comum, apesar de não ser novidade.

Até os anos 80, era conhecido como psicose maníaco-depressiva. E há registros de casos desde a Antiguidade. Alguns célebres, como o do pintor holandês Van Gogh (1853-1890), que em uma das crises cortou um pedaço da própria orelha, depois acabou se suicidando. Ele acomete de 0,9 a 1,5% da população (homens e mulheres na mesma proporção) e — atenção! — seus sintomas aparecem geralmente entre os 20 e os 30 anos.

Numa pesquisa com 500 leitoras, NOVA descobriu que várias conviveram com o problema. “Quando conheci a Laura, achei que era meio doidinha, mas ativa e divertida”, conta Cristina sobre a amiga. “Soube que estava procurando lugar para morar e a convidei para dividir o apartamento. Um grande erro. Uma amiga em comum avisou que deveria ajudar a controlar os remédios que ela tomava. Fiquei apreensiva. Não sabia o que a Laura tinha. Enquanto tomou o remédio, tudo correu bem. As coisas começaram a se complicar quando a garota passou a usar álcool e a dormir pouco. A convivência virou um inferno! Em segundos mudava de opinião, brigava, gritava. Depois agia como se nada tivesse acontecido.”

Já Andréa Luíza viveu o drama com a mãe. “Ela passava madrugadas arrumando a casa e o jardim. De repente, caía na cama e quase não levantava. Nem conseguia ir ao banheiro. Tínhamos de levar comida no quarto. Uma noite, ela fechou os olhos e não acordava mais. Precisamos chamar a ambulância. A partir daí, procuramos ajuda”, conta. O problema também circula na esfera dos famosos. Alguns médicos chegaram a cogitar que os surtos da cantora Britney Spears também poderiam ser sinal de bipolaridade.

 

Diagnóstico Demorado

Nem tudo o que parece é transtorno bipolar. Uma pessoa pode muito bem começar o dia superanimada, mas chegar em casa com a cara fechada. Ter altos e baixos é normal no mundo estressante de hoje. Também há casos em que a doença é confundida com depressão. “O portador pode ter vários episódios depressivos até apresentar a primeira fase de euforia”, explica o psiquiatra Sergio Nicastri, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. E, se ele for tratado como depressivo, os medicamentos, em vez de equilibrar levam de volta à euforia, que nem sempre é vista com maus olhos. Afinal, que mal haveria em se sentir cheia de energia? A cilada: essa sensação é fantasiosa, alerta a psiquiatra Karla Mathias de Almeida, que faz doutorado no programa de transtorno bipolar do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São paulo. “O pensamento do paciente está tão acelerado que ele se envolve em várias atividades, muito além da capacidade de execução. Por isso, não finaliza nada”, explica. Por causa desse difícil diagnóstico, a doença leva em média dez anos para ser descoberta e tratada adequadamente. Mas a ciência não pára de investigar. E já dá para saber de onde ela vem e como se apresenta.

 

Vida Louca Vida

Uma boa pista de que alguém sofre de transtorno bipolar é que o dia-a-dia dele fica de cabeça para baixo por causa de suas atitudes exacerbadas. A mudança de máxima excitação para profunda depressão não tem hora certa para acontecer. Cada fase dura meses, semanas, dias ou horas. E, entre os extremos, há um período de estabilidade, de duração também imprevisível. “É uma doença sem par pelo fato de proporcionar vantagens que, como consequência, levam a um sofrimento quase insuportável”, descreve a psiquiatra Kay Jamison, professora da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, e portadora de transtorno bipolar, no livro Uma Mente Inquieta (Martins Fontes).

A fase depressiva é facilmente percebida. Ocorre perda de interesse por tudo. “Há até quem tente o suicídio, não com o objetivo de pôr fim à vida, mas para se livrar do sofrimento, da sensação de estar presa em um labirinto”, pondera a psicóloga e jornalista Mara Ziravello, de São Paulo, co-autora do recém-lançado Uma Viagem Entre o Céu e o Inferno (Planeta). Já na fase de euforia, nem sempre os sintomas são evidentes. Nos casos mais suaves, denominados hipomania, a energia e o otimismo incomuns, além da autoconfiança ilimitada, tendem a ser vistos como algo bom, o que impede muita gente de procurar ajuda. Quando a excitação é explosiva, no entanto, o problema fica aparente, porque a pessoa deixa de avaliar as conseqüências dos atos.

Um bipolar pode gastar os tubos no shopping sem se dar conta de que está comprando mais do que pode. Ou ficar tão desinibido que comete ousadias impensáveis antes. Algo parecido aconteceu com Laura, amiga de Cristina, que chegou descalça da rua. “Perguntei sobre a bota e ela disse que tinha cansado de tanto dançar, por isso deixou na balada. Outro dia, saiu e não retornou. Recebi a ligação de um hospital psiquiátrico informando que estava lá. Avisei a família dela. E pedi que fosse morar com os parentes. Para minha surpresa, Laura concordou.” Há quadros piores, que incluem alucinações e delírios — já imaginou ficar na porta de uma emissora de tevê e exigir ser contratada por achar que é uma atriz famosa?

 

Passaporte para o Surto

A pergunta que não quer calar é: “de onde vem essa descompensação?” Existe uma causa física. Tanto a euforia quanto a depressão são causadas por alterações na transmissão de informações entre os neurônios. Se o pai ou a mãe foram bipolares, a probabilidade de o filho manifestar o mesmo problema varia de 15 a 20%. Mas não basta a predisposição para que os sintomas apareçam. Deve haver, ainda, um fator desencadeante, como stress emocional, grandes mudanças no ritmo de sono, consumo exagerado de café, abuso de drogas e de anfetaminas. “Esses têm grande potencial de desestabilizar o humor”, avisa a dra. Karla de Almeida. E atenção, baladeiras! O álcool também colabora para o problema e interfere na ação da medicação.

 

Como Sair da Roda-viva

O tratamento é feito com estabilizadores do humor. O mais antigo e eficaz é o lítio. Mas há um senão: pode causar ganho de peso, tremores, retenção de líquido e queda da libido. Vilões que apavoram sobretudo a nós, mulheres. Além do lítio, há outras substâncias, como o ácido valpróico, a carbamazepina e a oxcarbazepina. A internação só é recomendada quando a vítima expõe a si mesma e os outros a situações perigosas. Os remédios trazem de volta o equilíbrio químico no cérebro, mas são incapazes de reorganizar a vida conturbada pelo transtorno. Esse papel cabe à psicoterapia. “Ela ajuda a compreender o que está acontecendo e a aceitar o tratamento”, esclarece Mara Ziravello. Ao favorecer o autoconhecimento, também permite que o paciente reconheça fatores desencadeantes ou sinais precoces do surto e tome medidas para abortá-lo antes que as coisas escapem do seu controle: pedir ao médico que ajuste a dose do remédio, investir em uma atividade relaxante. Como se trata de uma doença com episódios recorrentes, o tra amento é de longo prazo. “Quem teve o primeiro episódio aos 27 anos, no início da carreira, não pode se ‘dar ao luxo’ de sofrer outro aos 30 e colocar em risco seu emprego”, pondera o dr. Sergio Nicastri. A boa notícia é que os medicamentos não trazem dependência. Pelo contrário, conforme destaca a psiquiatra Karla de Almeida: “Para quem vivia escravo de imprevisíveis oscilações de humor, seu efeito é libertador”.

 

Quando se preocupar

Um diagnóstico positivo requer pelo menos três destes sintomas típicos do quadro de mania, pelo prazo mínimo de uma semana:

• aumento excessivo da autoestima;
• redução da necessidade de sono;
• fala exagerada;
• aceleração da velocidade do pensamento e fuga de idéias;
• dificuldade para focar a atenção;
• aumento da agitação psicomotora até um grau extremo;
• envolvimento excessivo em atividades prazerosas com alto potencial de conseqüências dolorosas: gastar demais, ter relações sexuais impulsivas. Onde encontrar auxílio? Hospitais ligados a universidades mantêm ambulatórios especializados. Para informações, consulte o site da Abrata).

Fontes: Revista Nova, por Cristina Nabuco

Postado por Izabel Cristina da Fonseca, 16 abril 2010. (12.415)

 

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