Cuidando da Saúde

Menu de Cuidando da Saúde <---> Página Principal <---> Deixar sua Mensagem

 

Como se proteger do ataque dos supervírus e das super bactérias

Na virada da estação, vírus latentes acordam e doenças bacterianas ficam mais comuns. A atenção precisa ser redobrada para não aumentar a crise instalada no primeiro semestre com a chegada da gripe suína e o fechamento de hospitais infestados por bactérias multirresistentes. Veja ainda como andam os estudos sobre tornar tarja preta todos os antibióticos.

A primavera já está anunciada. Época de virada de estação é também de alerta nos serviços de saúde: nesse período, vírus que estavam latentes acordam e partem para o ataque. Há pouco tempo, na entrada da estação das flores, aconteciam os surtos de rubéola, caxumba e catapora. Já na chegada do frio, o mais comum eram as gripes e os resfriados – além de infecções por bactérias, que se aproveitam da fragilidade da defesa orgânica após o ataque viral. No entanto, com a globalização, que gera intenso fluxo de pessoas ao redor do mundo, esses padrões estão perdendo a rigidez. Agentes infecciosos migram de um extremo a outro do planeta em questão de horas. Lembre-se de que o país mais atingido pela gripe suína – a 32a pandemia de gripe enfrentada pela humanidade – eram os Estados Unidos, em julho, em pleno verão.

Por isso, o início da primavera aqui, que coincide com o começo do outono no Hemisfério Norte, pode ser tão ou mais conturbado do que foi a chegada do frio entre nós. Como se não bastasse o avanço do vírus da gripe suína, o influenza A (H1N1) – que em fevereiro começou a circular no México –, infecções bacterianas e surtos de outras viroses puseram adultos e crianças de molho e até interromperam o atendimento em hospitais em abril e maio. Um balanço do que aconteceu: bactérias multirresistentes causaram interdição na Emergência do Hospital Universitário Antonio Pedro, da Universidade Federal Fluminense, no Rio, no Hospital Universitário de Londrina (PR) e na UTI da Santa Casa de Londrina. Já a infecção pelo vírus sincicial respiratório (VSR) interditou a UTI neonatal no Hospital da Mulher, da Universidade Estadual de Campinas (SP). O VSR costuma passar despercebido porque ocasiona sintomas leves, equivalentes aos do resfriado, em adultos e crianças. Contudo, nas menores de 2 anos, em prematuros e portadores de problemas cardíacos e pulmonares, pode levar a pneumonias graves, como as decorrentes da gripe comum, que no inverno ataca pelo menos 10% da população mundial, provocando no mínimo 500 mil mortes anuais.

 

Driblando o remédio

Não deixa de ser surpreendente que no século 21 infecções comuns ainda causem complicações e óbitos. Afinal, quando os antibióticos apareceram, por volta de 1940, para combater as bactérias, e a vacinação contra esses germes e também contra vírus se tornou rotina, imaginou-se que a medicina havia derrotado as doenças infecciosas. Um estudo recente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), porém, constatou perda na eficácia de antibióticos. Feito em 64 UTIs de 21 estados, o estudo mostrou que a gentamicina não deu resultado em 59% dos pacientes com males gastrintestinais; a ceftriaxona não agiu em 70% dos casos de infecções urinárias; e de cada 100 doentes que receberam oxacilina contra pneumonia só 38 responderam bem. Mais: nos últimos dois anos, o maior causador de meningites bacterianas, a Neisseria meningitidis, tornou- se 12,6% mais resistente à penicilina e à ampicilina, de acordo com dados do Instituto Adolfo Lutz. Não apenas as bactérias estão descobrindo formas de driblar os medicamentos. Há relatos de resistência ao oseltamivir (Tamiflu, fármaco capaz de deter o vírus da gripe suína se usado nas primeiras 48 horas) na Dinamarca, no Japão e em Hong Kong. Aliás, esses agentes microscópicos têm revelado facetas surpreendentes. Certos tipos de câncer, como o cervical e o de fígado, decorrem da ação de vírus. Eles também estão relacionados a outros problemas. É o caso do herpesvírus 6, que, segundo um estudo da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp, tem ligações com a doença de Graves, distúrbio da tireoide no qual anticorpos obrigam a glândula a trabalhar dobrado.

 

Uso excessivo

O maior responsável por essa reviravolta dos micro-organismos é o emprego abusivo de antimicrobianos (o termo engloba antibióticos, antivirais, antifúngicos e antiparasitários). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 50% das prescrições feitas por médicos se mostram inapropriadas. Em pesquisa divulgada no ano passado, a equipe da farmacêutica Patrícia de Magalhães Abrantes avaliou a prescrição de antibióticos em ambulatórios da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte. Ali, o porcentual de inadequação ultrapassou 25%.

Aos equívocos na prescrição soma-se a prática da automedicação. Em vários países, dois terços dos antibióticos são usados sem recomendação médica. De acordo com o infectologista Artur Timerman, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, o consumo dessa medicação explode na ocorrência de sintomas como febre e tosse, característicos dos surtos de gripe. Só que antibióticos não têm nenhum efeito sobre infecções por vírus. Uma pesquisa feita no Canadá revelou que 53% dos entrevistados acreditavam no contrário, ou seja, que antibióticos combatem vírus.

No Brasil, embora a lei determine há 35 anos que a venda de antibióticos requer apresentação de receita médica, a exigência não é cumprida. Um levantamento do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo em 2769 estabelecimentos farmacêuticos apurou que 68% forneciam antibióticos e anti-inflamatórios sem receita. O uso inadequado inclui erro na escolha da droga, na dose (que deve ser calculada conforme o peso individual) e no tempo de administração (que em geral se estende a uma semana, no mínimo), informa a infectologista Delzi Vinha Nunes de Góngora, da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP). “É comum a pessoa interromper o tratamento ao começar a melhorar, com três dias de uso, o que favorece a resistência bacteriana”, diz. Esse fato ocorre quando as bactérias modificam um detalhe de sua estrutura para neutralizar a ação do antibiótico. Assim, ele perde a capacidade de impedir sua reprodução. A modificação é transmitida de “mãe para filha” e também a outras bactérias que convivem no mesmo ambiente, trazendo complicações sobretudo a pessoas já debilitadas por outros problemas. “Com isso, se mantêm ou se agravam as doenças infecciosas, aparecem mais reações adversas, usam-se alternativas antimicrobianas mais onerosas e, consequentemente, ocorrem mais hospitalizações”, registra a professora de farmacologia Lenita Wannmacher, da Universidade de Passo Fundo (RS).

A ciência, porém, tenta produzir novas armas. Pesquisadores testam estratégias para derrotar a bactéria Staphylococcus aureus, responsável pela maioria das infecções hospitalares. No University College, da Universidade de Londres, estuda-se um vírus contra a Pseudomonas aeruginosa, bactéria multirresistente que infecta o ouvido. Outros grupos tentam produzir antibióticos com fontes não convencionais, como a pele de sapos e insetos. “Os antibióticos são recursos esgotáveis”, adverte Timerman. “Os de largo espectro devem ser indicados só contra bactérias multirresistentes. Do contrário, podem perder poder.

 

Receita médica

Para evitar abusos, o diretor da Anvisa, Dirceu Raposo de Mello, anunciou em junho que o órgão pretende incluir os antibióticos entre os medicamentos de uso controlado, com recolhimento de dados da receita. A medida ainda precisa ser redigida e submetida a consulta popular, mas os trabalhos já começaram com uma reunião de representantes de sociedades médicas e conselhos de outros profissionais da saúde, que aprovam a iniciativa. Eles criaram uma liga para promover uma campanha pelo uso racional de antibióticos no país. “A população precisa saber que o antibiótico é um medicamento diferenciado e não pode ser adquirido sem receita”, diz Raquel Rizzi, presidente da seção paulista do Conselho de Farmácia. “Campanhas na Europa, nos Estados Unidos e no Canadá possibilitaram a redução de 30% no uso indiscriminado.” De fato, um estudo conduzido em 28 países europeus pela Esac, órgão que investiga o consumo de antimicrobianos, observou que, dos seis países que reduziram o uso (Bélgica, República Checa, Eslováquia, Eslovênia, Suécia e França), quatro haviam implementado programas com esse objetivo específico. Quanto aos antivirais, o principal cuidado adotado pelos órgãos de saúde para evitar a resistência em plena pandemia de gripe suína foi reservar o Tamiflu para os casos mais graves. Até o fechamento desta edição, a taxa de letalidade se equiparava à da gripe comum. O novo vírus se mostrava estável, e os temores dos cientistas (de se misturar geneticamente ao vírus da gripe aviária ou ao da gripe comum, dando origem a uma variação mais letal) não haviam se confirmado.

Mesmo assim, a diretora-geral da Organização Mundial da Saúde, Margaret Chan, recomenda cautela: Constantes mutações são o mecanismo de sobrevivência do mundo microbiológico e, como todos os vírus de gripe, o H1N1 tem o fator-surpresa ao seu lado”. Por essas e outras razões, convém não vacilar. Se tiver dúvidas, consulte os canais oferecidos pelo Ministério da Saúde: Disque Saúde (0800 61 1997) e o site www.saude.gov.br, onde há um link para o hotsite sobre o tema.

 

Cuide-se!

Para prevenir o ataque de vírus e bactérias e diminuir a resistência ao tratamento, quinze ações são fundamentais

1. Lave bem as mãos. A maioria dos germes se transmite por contato com secreções do doente. Uma revisão de 51 estudos feita pela Cochrane, organização que procura evidências científicas para a prática da Medicina, concluiu que não há nada mais eficaz para evitar a disseminação de infecções respiratórias do que lavar as mãos (suas e das crianças) com água e sabão. 
2. Mantenha sua carteira de vacinação em dia. Não se esqueça de incluir nela a vacina anual contra gripe comum. Estudo com 53.382 indivíduos mostrou eficácia de 89% na proteção da infecção pelo vírus influenza.
3. Procure não tocar os olhos, o nariz e a boca quando estiver em aglomerações.
4. Sempre que possível, evite se aproximar de pessoas infectadas. Se for preciso cuidar de um paciente, proteja-se usando máscara e mantenha o local arejado. 
5. Caso seja você o doente, proteja os outros cobrindo suas mãos e o nariz.
6. Só use medicamentos com orientação médica. Não acate sugestões de amigos, familiares, muito menos de atendentes de farmácias.
7. Tome o remédio conforme recomendado: não pare o tratamento antes do previsto e respeite os horários para manter os níveis da substância constantes no sangue.
8. Alguns antibióticos favorecem o aparecimento de manchas na pele e outros diminuem a eficácia da pílula anticoncepcional. Converse com o médico a respeito.
9. Não jogue as sobras no vaso sanitário. Resíduos de fármacos podem contaminar a água quando descartados na rede de esgoto comum – e também o solo se forem parar no lixo. O problema é que não há locais próprios para recolhimento, nem legislação sobre o descarte. Fora isso, parte da medicação, não absorvida pelo organismo do usuário, é expelida pela urina e pelas fezes e vai parar na rede de esgoto. Os processos de tratamento convencional da água não eliminam o problema. Foram detectados resíduos de fármacos, entre os quais antibióticos, em águas superficiais e de subsolo de vários locais do mundo. Pesquisadores da Unicamp acharam resíduos de remédios (além de colesterol e hormônios sexuais) nas águas que abastecem a cidade de Campinas. As quantidades são pequenas. Mas por enquanto não se sabe qual seria a concentração perigosa já que a Organização Mundial da Saúde não se manifestou sobre o assunto. 
10. Prefira carne e frango certificados. No Brasil é praxe adicionar antibióticos à ração para aumentar a produtividade e afastar doenças, como a salmonella, no frango.  Já o consumo de vegetais orgânicos nem sempre afasta essa possibilidade. Em vez de fertilizantes sintéticos, a adubação é feita com dejetos animais que podem conter resíduos de medicamentos usados na criação. Milho, batata e alface absorvem antibióticos quando cultivados em solo adubado com estrume animal, de acordo com testes conduzidos na Universidade de Minnesota (EUA).
11. Preserve sua saúde. A diretora-geral da OMS, Margaret Chan, esclarece que bons hábitos ajudam a manter a imunidade alta. Não fume, durma bem, escolha alimentos saudáveis e pratique atividades físicas. 
12. Antes de viajar, informe-se sobre as doenças prevalentes no local de destino para tomar as vacinas necessárias e diminuir os riscos de infecção. O Ambulatório dos Viajantes do Hospital das Clínicas da USP agenda consultas pelo telefone (11) 3069-6392, de segunda à sexta, das 8 às 16h.
13. Em caso de lugares atingidos por epidemias, faça seguro de saúde. Evite aglomerações como estádios de futebol, shows e mercados públicos.
14. Tente adiar a viagem se fizer parte do grupo de risco: idosos acima de 60 anos, crianças menores de 2 anos, pessoas com deficiências imunológicas, anemias, diabetes, doença cardíaca, pulmonar ou renal crônica.
15. Se tiver gripe, vá ao endereço para coleta de secreções na sua cidade. A rede de vigilância da gripe abrange mais de 140 centros no mundo. Três laboratórios credenciados pela OMS, o Instituto Adolfo Lutz (SP), a Fundação Oswaldo Cruz (RJ) e o Instituto Evandro Chagas (PA), avaliam amostras recolhidas no país.  Para isso, é preciso que o doente se dirija ao centro de saúde em vez de tratar a gripe na própria casa. Essa medida ajuda a identificar os vírus em circulação e definir a composição da vacina contra influenza a ser usada na próxima estação. Espera-se que a rede de Vigilância também ajude a rastrear os casos da nova gripe.

 

Fontes: Revista Cláudia, por Cristina Nabuco

Postado por Izabel Cristina da Fonseca, 19 abril 2010. (12.451)

 

Menu de Cuidando da Saúde <---> Página Principal <---> Deixar sua Mensagem

  Desenvolvido por Izabel Cristina da Fonseca

    e-mails: izabelangra@gmail.com izabelangra@hotmail.com - Telefone de contato: (24) 9216-2033