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Cura pela melodia
Em todas as culturas,
sociedades e épocas, considera-se que a música detém um poder específico sobre a
alma, a consciência e os sentimentos dos indivíduos e da coletividade, qualquer
que seja a forma que a atividade musical assume na realidade histórica e social
concreta. Todos já experimentamos esse poder caprichoso: a audição casual de um
trecho de canção, as notas de uma sonata clássica ou um solo jazzístico de piano
atingem, com precisão misteriosa, zonas de nossa memória e de nossa
sensibilidade até então na sombra. Somos assim inesperadamente – e de boa
vontade – dominados por uma emoção pura inominável – e familiar.
Somos tentados a pensar a música como uma potência que escapa às hierarquias e
generalizações, um domínio indiferenciado e caótico: afinal, essa experiência
parece ser pessoal, embora compartilhada por milhões de pessoas, e, além disso,
qualquer que seja o tipo de música, o resultado não é alterado (nesse campo,
Bach vale tanto quanto Laura Pausini). Não devemos, porém, subestimar esse poder
universal, tantas vezes identificado como uma das marcas fundamentais da
natureza humana, sobretudo quando ele tem a possibilidade de alterar os estados
de consciência das pessoas. É o que ocorre, por exemplo, na terapia de dança e
música do tarantulismo, que realiza rituais antiguíssimos, e em experiências de
possessão do êxtase ativadas por sons, presentes em todo o mundo, da Terra do
Fogo à Sibéria, do Brasil ao Vietnã.
O som governa a mente do homem e os deuses não são estranhos a esse atributo, se
é verdade que, nos diversos mitos de criação, sempre que a gênese do mundo é
descrita com suficiente precisão, um elemento acústico intervém no momento
decisivo da ação: no instante em que a entidade divina manifesta sua vontade de
criar o céu, a terra, os homens e todas as coisas, ela emite um som, muitas
vezes cantando ou tocando um instrumento.
Os poderes dignos de uma
divindade parecem se transferir a essa forma de expressão difusa em todas as
culturas, capaz de suscitar emoções profundas, comover, entristecer, excitar e
até promover a cura: o xamã africano reanima o jovem debilitado tocando ao seu
lado um pequeno tambor, com um ritmo progressivamente idêntico ao do coração do
rapaz, depois o alterando até atingir o correto batimento cardíaco. Sugestão?
Talvez, mas, sobretudo, uma questão de ritmo, como no caso do baterista que
arrebata o público.
O som musical, integrado no sistema de representações que lhe confere seu poder
específico, surpreende não só porque intervém de modo direto no estado de
consciência do indivíduo, mas, ainda mais, por sua capacidade de influenciar
coletivamente o comportamento das pessoas. Os mais de 700 mil jovens europeus
que tomaram as ruas da Berlim unificada dos anos de 1990, não para “mudar o
mundo”, mas para experimentar, por horas, o impressionante rito pós-moderno da
rave mais gigantesca da história, foram protagonistas, testemunhas e herdeiros
inconscientes de uma vivência de estimulação psico-motora coletiva não muito
distante da produzida pelos ritos ligados aos transes dionisíacos, dessa vez
induzidos pelo som implacável da música techno. O som e o ritmo eram
encantatórios, como o dos xamãs, talvez potencializado pelo álcool e outras
substâncias: mas esta também é uma história antiga...
É evidente que a música “excita as almas”. Daí a desconfiança geral, a má
reputação de certas práticas musicais para as instituições, em todas as épocas e
regimes: atraente, universal e perigosa, a complexa questão da música é por
vezes rebaixada a simples problema de ordem pública.
A universalidade da resposta individual e coletiva aos poderes da música
significa que esta corresponde a uma disposição psicofísica inata da natureza
humana, mais ou menos desenvolvida dependendo da pessoa. Haveria algo como uma
“mente musical”? E, caso exista, quais são os processos psíquicos e fisiológicos
ativados na produção e audição de um trecho musical?
Os progressos da pesquisa científica sobre o cérebro geraram conhecimentos a
respeito do “onde” e do “como”: sabemos que o hemisfério direito é o “lócus
musicalis” da tonalidade, do timbre e da harmonia, enquanto outros aspectos da
música, como o ritmo, pertencem ao hemisfério esquerdo. Essa descoberta e muitas
outras não bastam, todavia, para afirmarmos que a ciência explicou a
criatividade musical e seus poderes, destinados, em alguma medida, a permanecer
ocultos. Em particular, o “porquê” da música permanece fora do horizonte da
demonstração científica.
O artista tem o conhecimento da arte e a mão tremente, escreveu Dante no Canto
XIII do Paraíso: isto é, o artista possui a técnica, o habitus, o domínio de sua
arte, mas só é artista em razão daquele “tremor”, que não pode ser calculado ou
dominado, aquela hesitação sem a qual nada ocorre e sem a qual a arte não é
possível. É em virtude desse tremor que a arte, e, portanto, a música, escapa a
qualquer forma excessiva de controle racional. O poder da música jamais foi
plenamente demonstrado pela ciência, mas sempre foi descrito: comunidades das
mais diversas tradições e culturas não só descreveram e aceitaram esse poder,
mas empenharam-se em celebrá-lo coletivamente, com seus rituais, danças, cantos,
corpos e instrumentos. Para todas elas e um pouco para todos nós parece valer a
célebre observação de Friedrich Nietzsche: sem música, a vida seria um erro.
Ricardo Giagni é musicólogo,
compositor e ensina história da música para cinema na Universidade de Lecce, na
Itália.
Fontes:
Revista Mente e Cérebro,
por Ricardo Giagni
Postado por
Izabel Cristina da Fonseca, 3 abril 2010.
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