Cuidando da Mente

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Resiliência:

A pedra fundamental para enfrentar os problemas da vida

Emprestado da Física, o termo resiliência indica – em seu significado original – o nível de resistência de um material às pressões sofridas. No campo da Psicologia, o termo diz respeito ao modo como as pessoas respondem às frustrações diárias, em todos os níveis. Cada pessoa constrói, naturalmente, uma resiliência para lidar com esses problemas. As estratégias são aprendidas de diversas formas e não há um modelo ideal.

Mas é possível exercitar e aprender novas estratégias de resiliência, um sentimento que, de certa forma, é responsável pela sobrevivência da nossa pécie: cada indivíduo é naturalmente capaz de transpor os obstáculos que nos separam do que nos faz ficar em paz – e que alguns chamam de felicidade, um termo que beira à utopia muitas vezes.

“A resiliência nos ajuda a encontrar a liberdade, longe dos grilhões que outras pessoas, ou a sociedade, nos impõem. Mas é bom lembrar que ‘se libertar’ não quer dizer ‘fugir’, mas ‘fluir’. E esse fluir, de forma ideal, não é um sentimento de agressividade, mas que deve ajudar a construir algo positivo, sem impor às outras pessoas nossas vontades”, explica Elko Perissinotti, coordenador geral do Grupo Aberto de Resiliência do Hospital Dia do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Universidade de São Paulo (USP).

O especialista também afirma que a resiliência não deve ser vista como sinônimo de egoísmo, um sentimento que é necessário em certa quantidade, mas que em excesso sufoca a liberdade de outros indivíduos. “Viver do jeito que se quer é algo que necessita de muita elaboração: é saber desviar a energia destrutiva, comum ao nosso lado animal, para elaborar modelos construtivos que nos ajudem a transpor os obstáculos da vida”, diz.

Resiliência, explica Perissinotti, é reflexo do nível de empatia, altruísmo e capacidade ampla de amar do indivíduo. “É preciso se pôr no lugar dos outros para entendê-los. Sem essa capacidade de fantasiar não há desenvolvimento pessoal”, diz o pesquisador. Mas a fantasia não é delírio, ele alerta.

“O delírio é destrutivo. Veja, por exemplo, quantas pessoas deliram com o mito da ‘felicidade plena’ – que inunda as sessões de autoajuda em qualquer livraria – e destroem os pequenos momentos de felicidade e paz de espírito. E pior: destroem as pessoas ao redor, num sentimento egoísta intenso e na ilusão de que é possível viver uma felicidade solitária, sem os outros para complementá-los”, explica.

A resiliência, diz Perissinotti, nos ajuda a compreender isso: que a vida é um misto de coisas boas e coisas ruins. E nas horas ruins é preciso aprender a contornar os problemas – vencendo ou sendo vencido, mas não negando a existência – e continuando a viver, respondendo como adultos (mais resilientes) e não como crianças (naturalmente menos resilientes e mais egoístas, centradas em si).

A seguir, Elko Perissinotti, em entrevista exclusiva ao site “O que eu tenho?”, faz uma ampla explanação sobre a resiliência, termo que vem se tornando lugar-comum e perdendo a profundidade em discussões cada vez mais focadas no imediatismo e na ânsia que algumas pessoas têm em encontrar certo tipo de felicidade.

 

1. Em qual fase da vida a resiliência se desenvolve?

A resiliência nunca é um processo estático, está sempre em desenvolvimento dinâmico, um constructo que necessita ser analisado pelo seu viés filogenético (nossos ancestrais da escalada evolucionista) e ontogenético (desde a formação do feto, na gravidez). Portanto, é na infância que se instalam nossos potenciais resilientes latentes e que começam a se desenvolver ou não.

A composição da genética com os vínculos microssociais (família) constitui o primeiro passo na estruturação e desenvolvimento de nossa personalidade. Participam também dessa composição a escolinha que a criança frequenta, os amigos e vizinhos, a ordem social e econômica vigente em sua cidade, Estado, país e planeta. Esses potenciais resilientes podem ir se desenvolvendo num gradual crescente de habilidades contra o excessivo sofrimento e vulnerabilidade da condição humana ou podem se “atrofiar” e mesmo se extinguir.

Nada impede, porém, que o sujeito adulto, cujo potencial resiliente permaneceu latente – traumas, ausência de attachment (apego, bem-querer) –, queira desenvolvê-lo. Mas aí, necessitaria de supervisão ou treinamento ou um tipo de psicoterapia centrada na resiliência. Normalmente isso tem ficado sob os cuidados de psicólogos, psicoterapeutas e psicanalistas, mas não somente.

E isso implica, obrigatoriamente, mudanças de hábitos de vida, das relações humanas, do modo de pensar a vida e a existência, de uma revisão de direitos e deveres, de ataque e de defesa, enfim, uma madura e, sobretudo, corajosa forma de ser e de estar no mundo.

 

2. É o apoio ou a presença de pessoas próximas que contribui para a construção da resiliência? Qual a importância da família no processo?

Na primeira questão, falamos um pouco disso, mas, convém ressaltar, é o círculo familiar (pai e mãe) e o círculo de amizades (crianças e adultos) que serão o farol norteador para o desenvolvimento de habilidades de avaliação, enfrentamento, superação e adaptação inteligente diante das constantes adversidades endógenas e exógenas de nosso cotidiano, como talvez dissesse o eminente psiquiatra francês Boris Cyrulnik.

Amor, carinho, afeto, bem-querer e convivência direcionados para a liberdade, a independência e o crescimento pessoal (em oposição a um estilo de vida gradualmente dependente, autodestrutivo e infeliz para si e para os que consigo convivem) são circunstâncias decisivas no desenvolvimento do sujeito resiliente.

Muito se fala em pais e mães divorciados como se isso fosse um entrave. O que realmente importa é que esses pais não sejam inimigos; não deveriam ser, mas são, e isso é, de fato, um agravante de dimensões devastadoras. Certamente, esses casais nada sabem de resiliência, de liberdade, de felicidade (cuja plenitude simplesmente não existe para ninguém), de amor e desenvolvimento sadio dos filhos. Há uma questão de Educação e Cultura fundamental nisso tudo.

A virulência não está no divórcio, mas sim no rancor, na raiva, no ciúme, na inveja e nas projeções neuróticas descarregadas nos filhos. O psicanalista Jacques Lecomte diria que falta Elo (nas pessoas), Sentido (na vida) e Lei Simbólica (regras e limites, também para os adultos).

 

3. É possível desenvolvê-la na vida adulta?

Sim, como já foi dito, por meio de supervisão ou treinamento ou psicoterapia centrada em resiliência, a não ser que um alto grau de “atrofia” implicou extinção de potencial, e a vida do sujeito passa a ser muito semelhante à dos psicopatas (frieza afetiva e ausência de sentimentos de culpa), envolvendo muito sofrimento (às vezes, inconsciente) a si próprio e às pessoas de sua convivência.

 

4. Como as pessoas resilientes veem os problemas da vida? Elas se deixam vitimizar?

Ser resiliente é, sobretudo, tornar-se Sujeito de (e à) sua própria vida. É tornar-se pessoa. Nunca é sinônimo de invulnerabilidade, de pessoa superior, de politicamente correto, de “carneirinhos” vitimizados frente à malandragem e aos furiosos da vida, de resignados e covardes.

O resiliente é uma pessoa como qualquer outra, mas que procurou desenvolver sua habilidade e capacidade de amar, de trabalhar, de sublimar, de suportar as inúmeras diferenças entre as pessoas, de tolerância às frustrações, de compaixão, de empatia, de altruísmo, de busca da felicidade (mesmo sabendo que ela quase não existe), da independência e da liberdade pessoal e, acima de tudo, a sabedoria de não recuar em seus desejos, como sujeito desejante, durante toda a sua exisência (e assim, ciente dos constantes riscos de enfrentamento de frustrações). Enfim, o resiliente também sofre com o peso da vida, a dor da alma e o mal-estar na civilização (Freud concordaria).

 

5. Como elas enfrentam o lado negativo das situações e das pessoas?

Convém lembrar que toda situação e toda pessoa tem o seu lado/momento negativo e o lado/momento positivo. O resiliente também, mas sabe disso! E por saber, busca orientação, apoio, “ombro amigo”, entendimento, proteção, estabilidade emocional para melhor avaliar uma crise (momento negativo) e sustentação mútua com seu interlocutor (que também é uma pessoa “de carne e osso”). Creio que Froma Walsh, da Universidade de Chicago, que fala disso quanto à organização empresarial, mutatis mutandis, não iria discordar.

Pelo fato de saber desta condição humana de lado/momento negativo da outra pessoa, o resiliente, não tendo cartilhas de intervenção em situações angustiantes ou de crise, agirá naturalmente com as características que possui, ou seja, com empatia, altruísmo, solidariedade, utilizando sempre o sábio provérbio de não fornecer o peixe, e sim ensinar a pescar.

Não vai fazer adjetivações (você não se esforça; o erro está em você) e nem condená-lo ao cadafalso com conceituações bizarras e grotescas sobre o certo, o errado e as verdades da vida. O resiliente se permite, sem culpas, postar-se ao lado ou afastar-se de certas situações ou pessoas negativas. Sempre é bom citarmos o psiquiatra britânico Michael Rutter, pioneiro da resiliência no campo psicossocial, quando frisa que podemos ser resilientes em inúmeras situações, mas não em todas.

 

6. As pessoas resilientes são mais egoístas? Como elas lidam com o coletivo e ao mesmo tempo conseguem ser independentes?

Somos todos egoístas… Sem exceções! (risos) Mesmo parecendo irônico ou ingênuo, o fato é que o egoísmo resiliente trará menores danos a seu concorrente. Então convém aprendermos mais sobre a natureza humana. E podemos começar com Freud, Teilhard de Chardin, Bertrand Russell e Boris Cyrulnik.

Coletividade e independência não se opõem; ambas mutuamente se constroem (ou se destroem) e estabelecem limites e regras, e isso é bom, mesmo que à custa de certo mal-estar civilizatório. Independência e liberdade totais não existem, e se existissem seriam extremamente devastadoras, com riscos à continuidade da espécie humana, daí a existência castradora e necessária da coletividade. O instinto (pulsão) da sobrevivência, portanto, é energia prima, ditatorial e imperativa.

O resiliente sabe disso, portanto, sabe de suas virtudes e de seus pecados. Mas sabe, também, das armadilhas do inimigo oculto e que se disfarça: o proprietário indébito e promotor de verdades absolutas atemporais. Em síntese, no coletivo – e temos de saber lidar muito bem com isso – ora poderemos ser colocados no lugar de algoz, ora no lugar de vítima, e uma nociva ambiguidade dependerá um pouco do regime da microcivilização onde você está inserido. “Jogo de cintura” talvez seja uma boa palavra de ordem.

 

7. A noção de projeto – projetar seu futuro, seus anseios – contribui para essa solução de problemas de forma resiliente?

Sim. Já dissemos sobre o sujeito desejante e a imperiosidade de continuar desejante, como sinônimo de Vida, posto que o desejo realizado e em si encerrado nos faz pensar no gozo lacaniano, que poderíamos extrapolar para um sinalizador de “fim de linha”, “estado terminal” ou, mais ainda, Fim (The End), de fato.

Jacques Lecomte, falando sobre resiliência, se refere a essa questão de projetos e anseios, quando considera fundamental a busca (criação) de um sentido singular para as coisas, as situações e a vida, sendo imprescindível encontrá-lo (criá-lo), e assim, “keep walking” (risos). Não há saída: sem esse sentido das coisas, permanecemos inertes, inaptos, ineptos, inseguros, impulsivos, compulsivos, pueris, agressivos, possessivos, ciumentos, invejosos, nocivos e maldosos; e nada mais de bom ou de bem.

 

Fonte: Site O que eu tenho? por Enio Rodrigo

Postado por Izabel Cristina da Fonseca, 29 julho 2010 (14.071)

 

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