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Psicoterapia para
sobreviventes
Técnicas terapêuticas e capacitação de agentes
de saúde ajudam na recuperação de pessoas com
stress pós-traumático causado por violência,
conflitos e miséria por Manson Inman
Há quatro anos, o
menino chamado aqui pelo nome fictício de
Mohamed Abdul, de 13 anos, escapou da guerra
civil na Somália. Por muito tempo teve pesadelos
e flashbacks das cenas terríveis que vivenciou.
Aos 9 anos, foi pisoteado por uma multidão que
fugia pelas ruas e ficou internado por duas
semanas. Um mês após, presenciou as
conseqüências aparentes de um massacre: 20
corpos boiavam no oceano. Pouco tempo depois,
militares atiraram em sua perna, deixaram-no
inconsciente e estupraram Halimo, sua melhor
amiga, uma garota de sua idade. Durante sua
recuperação no hospital, Mohamed sofria não só
pela dor física, mas, principalmente, sentia-se
devastado pelo medo e pela culpa de não ter
conseguido ajudar a menina. Ele tinha acessos de
fúria sem ser provocado e confundia pessoas que
conhecia com os bandidos e ameaçava matá-las.
Meses depois, deixou sua terra natal e foi para
um assentamento de refugiados em Nakivale, em
Uganda. Nessa época, afirmou: “Eu sentia duas
personalidades dentro de mim. Uma era esperta,
boa e normal; a outra, louca e violenta”.
Ele sofria de transtorno de stress
pós-traumático, uma desordem caracterizada pelo
medo e pela repetição de uma recordação intensa
e vívida
do evento traumático. Felizmente, esse campo de
refugiados contava com um recurso: o psicólogo
Frank Neuner, da Universidade de Bielefeld, na
Alemanha, estava oferecendo aos 14.400 africanos
do acampamento, principalmente ruandeses, a
“terapia da exposição narrativa”. Essa abordagem
persuade os sobreviventes do trauma a assimilar
as memórias à própria história de vida para que
possam recuperar o equilíbrio emocional. Depois
de quatro sessões, com duração de 60 a 90
minutos cada, os sonhos repetitivos e as
recordações de Mohamed desapareceram; ainda se
assustava com facilidade, mas não perdia o
controle e os médicos o consideraram curado.
Historicamente, pesquisadores e trabalhadores de
serviços humanitários de países em
desenvolvimento negligenciaram a saúde mental,
focando problemas como subnutrição, doenças e
mortalidade infantil. Para o psiquiatra Atif
Rahman, da Universidade de Liverpool, na
Inglaterra, “o que mudou nos últimos dez anos é
o entendimento de que o bem-estar físico não
pode ser separado do mental”.
Experiências recentes com psicoterapia mostram
que é possível melhorar a vida de sobreviventes
de guerra, como o pequeno Mohamed, de mães
paupérrimas com depressão pós-parto e de outras
vítimas do stress causado pela pobreza. A chave
para a viabilidade desses programas inclui o
treinamento de cidadãos comuns para atuarem como
conselheiros. Em alguns casos, o procedimento
pode ser coadjuvante de outras terapias, mas há
situações em que ajudam tanto que é possível
dispensar o uso de psicotrópicos. Embora muitos
considerem distúrbios mentais uma espécie de
praga da vida moderna, algumas desordens são, de
acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS),
mais prevalentes nos países em desenvolvimento.
Das dúzias de guerras e conflitos armados ao
redor do mundo, em quase todas as nações, a
violência leva ao transtorno do stress
pós-traumático, dificultando a recuperação das
pessoas – e do país – após o fim dos conflitos.
De acordo com
Rahman e seus colegas, mães do sul da Ásia têm
mais depressão pós-parto do que as de países
ricos. Pessoas de regiões menos privilegiadas
também sofrem com stress econômico severo. “Em
muitos casos, essa pilha de adversidades está
associada à baixa saúde mental”, acredita o
sociólogo Ronald Kessler, da Escola de Medicina
de Harvard. Para indivíduos no limite da
sobrevivência, as ramificações econômicas de uma
psicopatologia podem ser devastadoras. Quando
alguém tem um distúrbio sério, “perde sua força
e capacidade”, diz o pesquisador Paul Bolton, da
Universidade Johns Hopkins.
Para compensar a falta de profissionais que
trabalhem com esses distúrbios nesses países,
Neuner e sua equipe recrutaram candidatos que
soubessem ler, escrever e que tivessem empatia e
desejo de colaborar. Um terço dos ruandeses e
metade dos somalis apresentavam transtorno de
stress pós-traumático, e muitos dos que poderiam
se tornar conselheiros precisavam ser tratados
antes. Para alguém com distúrbios, as
experiências desesperadoras são “desligadas” do
tempo e do espaço, como se ficassem fora de
sincronia com sua própria história, mas nem por
isso se tornam menos incômodas: o que não é
incorporado se torna uma espécie de “fantasma”
que passa a assombrar a pessoa. “Quando essas
memórias são ativadas, o cérebro ‘entende’ que
há ali perigo imediato, porque não está
consciente de que é apenas uma lembrança. O que
queremos é agarrar essa representação emocional,
devolvê-la para o seu lugar e conectá-la com a
história dessa pessoa”, diz Neuner.
Os terapeutas de refugiados passaram seis
semanas aprendendo a ajudar pacientes a moldar
sua vida em uma história coerente, incorporando
os traumas na narrativa. A estratégia
funcionou.Em um acompanhamento de nove meses,
70% daqueles que passaram por terapia não
apresentaram mais sintomas significativos do
transtorno de stress pós-traumático; já os que
não receberam tratamento tiveram taxa de
recuperação de 37%. Em Rawalpindi, um distrito
rural no Paquistão, cerca de um terço das novas
mães apresenta depressão – o dobro da taxa
encontrada em países desenvolvidos. Além do
custo social e do sofrimento da mulher, a
depressão pós-parto pode prejudicar o
desenvolvimento mental e físico dos bebês. A
maior parte dessas mães considera que os
sintomas são o destino dos pobres, causado pelo
tawiz, um tipo de magia negra. Muitas ficam
ansiosas diante da possibilidade de ser
rotuladas como doentes antes mesmo de
apresentarem os sintomas. Ainda mais grave:
nesse local, com uma população de 3,5 milhões de
habitantes, existem apenas três psiquiatras.
Para vencer barreiras, Rahman e outros
pesquisadores recrutaram agentes da saúde
feminina para trabalhar com terapia de distúrbio
mental em suas 16 visitas anuais a cada uma
dessas mães. Até há pouco tempo faziam
aconselhamento sobre nutrição e educação
infantil, mas o curso de dois dias habilitou-as
a incluir técnicas básicas de saúde mental em
seus currículos. A abordagem de Rahman toma por
base a terapia cognitivo-comportamental, na qual
conselheiros tentam corrigir pensamentos
negativos ou distorcidos por meio da discussão e
da sugestão de novos comportamentos. Se uma mãe
afirmar que não tem como custear a alimentação
para o bebê, por exemplo, a profissional
questiona a suposição e sugere opções para a
dieta da criança. Um ano após o parto, mães que
receberam essa orientação apresentaram metade da
taxa de depressão grave, quando comparadas
àquelas que não receberam visitas tradicionais.
Rahman acredita que a estratégia funciona por
dar a elas autonomia para resolver seus
problemas. Felizmente, mais esforços para
melhorar a qualidade de vida psíquica de
populações carentes estão a caminho. No
Paquistão, por exemplo, profissionais da saúde
ajudam a garantir que esquizofrênicos tomem seus
remédios. Mas o grande obstáculo ainda é fazer
com que essas práticas se tornem rotina
Manson Inman é jornalista científico e
ambiental em Karachi, no Paquistão
Fonte:
Revista Mente e Cérebro, por Manson Inman
Postado
por Izabel Cristina da Fonseca, 13 abril 2010
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