|
Você
é a pessoa de número
que visita essa página. Obrigado.
A ética do
cachorro
Quando eles se comportam mal ou acidentalmente
machucam um companheiro de brincadeiras, logo
procuram se desculpar, exatamente como faria
um ser humano bem-educado.
Todos que convivem
com cães sabem: eles aprendem as regras da casa
que os acolhe e quando quebram alguma norma
expressam fisicamente o arrependimento alguns se
escondem e cobrem os olhos, outros se abaixam ou
arrastam-se pelo chão, num gesto geralmente
gracioso o bastante para garantir o rápido
perdão dos donos. Porém, poucas pessoas param
para se perguntar por que esses animais têm um
senso tão aguçado de certo e errado. Estudos
recentes mostram que canídeos (animais da
família dos cachorros, como raposas e lobos)
seguem um código estrito de conduta ao brincar,
ensinando aos filhotes as regras de engajamento
social que permitem a manutenção de sociedades
bem-sucedidas.
Os chimpanzés e os outros primatas que não o ser
humano são notícia nos jornais quando os
pesquisadores, usando a lógica, procuram nesses
parentes mais próximos do homem traços
semelhantes aos nossos – e descobrem evidências
de seu senso de justiça. Nosso trabalho,
entretanto, sugere que as sociedades canídeas
selvagens podem ser as melhores análogas aos
grupos de hominídeos primitivos: ao estudarmos
cachorros, lobos e coiotes descobrimos
comportamentos que nos remetem às raízes dos
valores éticos humanos.
Podemos definir a moralidade como um conjunto de
comportamentos inter-relacionados em deferência
aos outros, que tem por finalidade desenvolver e
regular as interações entre os indivíduos.
Atitudes como altruísmo, tolerância,
disponibilidade para o perdão e a empatia, bem
como a noção de justiça, ficam evidenciadas
rapidamente na forma igualitária com que os
animais da família dos cachorros brincam entre
si. Nessas situações, os lobos e os coiotes
adultos, por exemplo, seguem um código estrito
de conduta.
A brincadeira
também tem a função de ajudar a construir a
relação de confiança entre os membros da
matilha, permitindo divisões de trabalho,
hierarquias de domínio e cooperação na caça, na
criação dos mais novos e na defesa de comida e
de território. Essa estrutura lembra muito a dos
homens primitivos, e a observação de suas
brincadeiras pode oferecer um vislumbre do
código moral que permitiu o desenvolvimento das
sociedades ancestrais.
Quando os canídeos e os outros animais se
divertem juntos adotam comportamentos como
morder com força, montar em cima do outro,
chocar os corpos – ações que podem ser
facilmente interpretadas de forma equivocada
pelos participantes. Porém, anos de análises
feitas por um de nós (Bekoff) mostraram que
esses indivíduos negociam cuidadosamente a
brincadeira, seguindo quatro regras gerais para
impedir que a atividade lúdica se transforme em
briga.
1. A comunicação deve ser
clara.
Os animais
anunciam que querem brincar e não lutar ou
acasalar. Os canídeos abaixam a cabeça para
indicar essa intenção, engatinham sobre as patas
dianteiras, apoiando-se nelas, enquanto as
pernas traseiras continuam eretas. Os acenos são
usados quase que exclusivamente durante a
brincadeira e são altamente estereotipados, ou
seja, sempre parecem os mesmos (para que o
recado “Venha
brincar
comigo” ou “Ainda
quero
brincar” fique bem
claro). Mesmo quando um animal sinaliza a
predisposição para brincar com uma inclinação da
cabeça e prossegue com ações aparentemente
agressivas, como mostrar os dentes, rosnar ou
morder, seus companheiros demonstram submissão
ou fuga apenas em 15% dos casos, sugerindo que
eles confiam no recado de que qualquer coisa que
se siga não será arriscada. A confiança na
comunicação honesta do outro é essencial para o
bom funcionamento do grupo.
2. Cuidado com os modos.
Os animais tendem
a considerar as aptidões lúdicas de seus
companheiros e se engajam na tarefa de dar
vantagens ao mais fraco e na troca de papéis
para criar e manter igualdade de condições
durante a interação. Por exemplo, um coiote
talvez não morda seu companheiro de brincadeira
tão forte quanto seria capaz, na tentativa de
equilibrar a situação para manter o jogo justo.
Um membro dominante da matilha pode desempenhar
uma troca de lugar, deitando-se de costas (sinal
de submissão que nunca seria oferecida durante
uma agressão efetiva) para deixar seu
companheiro de status inferior ter a sua vez de
“vencer”.
As crianças também
se comportam dessa forma ao brincar, por
exemplo, intercalando os papéis de vencedores
numa simulação de luta. Ao manterem as coisas
justas dessa forma, todos os membros do grupo se
aproximam uns dos outros, participam de
atividades descontraídas e, ao mesmo tempo,
constroem laços – o que faz com que o grupo
permaneça coeso e forte.
3. Admita quando estiver
errado.
Mesmo quando todos
querem manter as coisas certas, a brincadeira às
vezes desanda. Quando um animal se comporta mal,
exagera na animação e acidentalmente machuca seu
companheiro, ele se desculpa, exatamente da
mesma forma como a maioria dos seres humanos
faria em situação similar. Após uma mordida mais
forte, um aceno de cabeça envia o “recado”,
como se afirmasse: “Desculpe
pela minha atitude, mas ainda é uma brincadeira,
apesar do que fiz. Não vá embora; vou brincar de
forma mais respeitosa”. Para a
brincadeira continuar o indivíduo que sofre a
ofensa deve aceitar
as desculpas – e isso de fato ocorre na maioria
das vezes. A compreensão e a tolerância surgem
durante o “jogo”,
assim como em outras situações da vida rotineira
da matilha, como no momento da caça ou da
divisão de alimentos.
4. Seja honesto.
Tanto um pedido de
desculpa como um convite para brincar devem ser
sinceros; os indivíduos que continuam a brincar
de forma desleal ou a enviar sinais desonestos
rapidamente serão excluídos pelo grupo. E isso
traz consequências bem mais graves que a simples
redução do tempo de diversão. A extensa pesquisa
de campo de um dos autores (Bekoff) mostra, por
exemplo, que os coiotes jovens que não brincam
de forma adequada com frequência acabam deixando
sua matilha e têm probabilidade quatro vezes
maior de morrer que os indivíduos que permanecem
com os outros.
Do ponto de vista
evolutivo, a violação de regras sociais
estabelecidas durante as brincadeiras não faz
bem para a perpetuação dos genes. O jogo honesto
e divertido para todos pode ser entendido como
uma adaptação evoluída que permite aos
indivíduos formar e manter os vínculos sociais.
Assim como acontece com os humanos, os canídeos
formam intrincadas redes de relacionamentos,
desenvolvem normas básicas da justiça que guiam
o jogo social entre semelhantes e se apoiam em
regras de conduta capazes de manter a sociedade
estável. Em última instância, o objetivo é
garantir a sobrevivência de cada indivíduo. Essa
inteligência moral é evidente tanto em animais
selvagens quanto em cães domesticados. É bem
possível que tal noção de certo e errado tenha
permitido às sociedades humanas florescer e se
espalhar pelo mundo. Pena que o homem moderno às
vezes se esqueça de procedimentos simples e
eficazes, como ser claro, cuidadoso, humilde e
sincero. Talvez seja hora de voltarmos a
aprender algumas lições com nossos amigos de
estimação.
No lugar do terapeuta
Ao longo dos
séculos, os animais sempre estiveram próximos do
homem participando de atividades de caça,
tração, locomoção, pastoreio, guarda e
companhia. Esses vínculos com bichos de
estimação transformaram tanto o estilo de vida
das pessoas quanto os hábitos dos bichos (embora
na maior parte das vezes eles sejam vítimas do
ser humano). Nas últimas décadas, porém, surgiu
um dado novo: o crescente interesse científico
pelo estudo do potencial terapêutico dessa
interação. Várias possibilidades de intervenção
com a participação de animais têm aberto
perspectivas de uso de recursos terapêuticos
auxiliares para os profissionais da saúde e da
educação. Atualmente, muitos reconhecem que em
geral os cães reúnem características que
facilitam a aproximação com pacientes, como
disponibilidade para oferecer carinho, o que
desperta o afeto nos seres humanos e instiga o
desejo de cuidar do outro – ainda que esse outro
seja um cão.
O primeiro relato da participação de animais em
tratamento de saúde na sociedade ocidental
contemporânea é do final do século XVIII , na
Inglaterra. O Retiro de York, instituição
psiquiátrica que empregava métodos terapêuticos
considerados mais humanos para a época, mantinha
coelhos, gaivotas, falcões e aves domésticas nos
pátios e jardins frequentados pelos pacientes.
Essas criaturas eram, geralmente, muito
familiares, e acredita-se que, muito mais que um
prazer inocente, despertavam sentimentos de
sociabilidade e benevolência nos internos.
No século XIX houve um grande crescimento da
participação de animais nas instituições mentais
de vários países. Mais tarde, quando os
primeiros textos científicos começaram a ser
publicados, tal prática já não era tão rara. Em
1944, James Bossard escreveu um artigo sobre o
papel dos animais domésticos na família, em
especial para crianças pequenas. Mas foi na
década de 60 que o psicólogo americano Boris M.
Levinson iniciou uma série de estudos de
situações clínicas nas quais a presença do
animal era fundamental no processo terapêutico.
Um cachorro, por exemplo, poderia satisfazer a
necessidade humana de lealdade, confiança e
obediência. A relação da criança com o animal
permite nuances num nível intermediário, que
diferem das interações estabelecidas com pessoas
e objetos inanimados.
Afinal, ainda nos primeiros anos é possível
perceber que brinquedos não podem dividir
sentimentos, pois não são vivos, não crescem nem
respondem. Segundo Levinson, “diferentemente
da relação que estabelece com a boneca, a
criança pode conceber o animal como parte de si
mesma, de sua família, capaz de passar pelas
mesmas experiências que vive”. Esse
relacionamento oferece aos pequenos a
possibilidade de se expressar com mais
liberdade.
Posteriormente aos estudos de Levinson,
merecem destaque as pesquisas dos psiquiatras
Samuel e Elizabeth Corson. Na década de 80, eles
usaram cães na psicoterapia em instituições
psiquiátricas. A experiência foi realizada com
50 pacientes com alto grau de introversão que
não respondiam ao tratamento convencional e
relutavam em estabelecer contatos. Apenas três
deles não apresentaram melhoras em seu estado
clínico. Os demais desenvolveram, gradualmente,
desejo de independência, sentimentos de
autoestima e senso de responsabilidade. (Por
Sabine Althussen, mestre em psicologia clínica
pela USP).
Fonte:
Revista Mente e Cérebro, por
SHARON MONTROSE
Postado
por Izabel Cristina da Fonseca, 24 maio 2010
(12.942)
|