Em busca da causa
das doenças mentais
Em busca da causa das doenças mentais Em
entrevista para a Mente&Cérebro, a
pesquisadora Sabine Bahn, diretora do Centro
de Pesquisas Neuropsiquiátricas em Cambridge,
conta detalhes sobre sua linha de estudo que
investiga as causas de doenças graves como a
esquizofrenia ou o transtorno bipolar por
Steve Ayan.
Mesmo
depois de muitos anos de pesquisas para
descobrir a real causa de alguns distúrbios
mentais, os cientistas ainda não têm certeza da
origem de graves doenças como a esquizofrenia ou
o transtorno bipolar. Em entrevista para a
Mente&Cérebro, a pesquisadora Sabine Bahn,
diretora do Centro de Pesquisas
Neuropsiquiátricas em Cambridge, conta detalhes
sobre sua linha de estudo que investiga as
causas da patologia. Suas pesquisas se baseiam
em análises de proteínas, entre outros métodos
biomoleculares. Por meio deles ela espera
descobrir alterações no cérebro de pessoas com
doenças mentais graves.
À primeira vista, o ambiente de trabalho da
neuropsiquiatra parece ser exatamente como se
imagina um laboratório de biólogos moleculares:
uma confusão de cabos e tubos espalhados por
todos os lados; aparelhos com nomes
impronunciáveis ligados e computadores de última
geração zunindo constantemente. Somente em um
segundo momento é possível enxergar um ponto de
azul-celeste e outro cor-de-rosa brilhando entre
os armários. “Quando nos mudamos para cá há
cinco anos, mandamos colorir as paredes”, revela
Sabine Bahn, diretora do Centro de Pesquisas
Neuropsiquiátricas em Cambridge. Sabine nasceu
em Freiburg, na Alemanha, mas durante o
doutorado passou a trabalhar na “universidade da
elite britânica”, como ela mesma diz. Hoje, aos
42 anos a cientista está entre os pesquisadores
que trabalham para descobrir novas doenças
psiquiátricas. Por meio da análise de proteínas
e de outros métodos biomoleculares, Sabine
procura biomarcas no cérebro que forneçam
informações sobre o surgimento e o
desenvolvimento dos transtornos psíquicos.
A dificuldade:
Nenhuma outra parte do corpo é tão complicada
quanto o cérebro. A pesquisa de Sabine,
portanto, se assemelha à busca de uma agulha
no palheiro – sendo o palheiro, neste caso,
composto por milhares de proteínas e
metabólitos, mensageiros e cascatas de sinais
que se influenciam mutuamente. Veja na
entrevista exclusiva à Mente&Cérebro por que
ela acredita que suas descobertas podem ser o
futuro da neuropsiquiatria.
Mente&Cérebro – A senhora procura moléculas
cerebrais que indiquem distúrbios psiquiátricos.
Por que acha que há necessidade de recuperar
informações neste caso?
Sabine
Bahn – No fundo, nós não sabemos em que consiste
a origem de graves transtornos como a
esquizofrenia ou o transtorno bipolar. Nesse
terreno, a medicina ainda está tateando. A
maioria das descobertas sobre isso nos últimos
20, 30 anos remontam à efetividade de
determinados medicamentos que muitas vezes foi
descoberta por acaso. Várias substâncias
desenvolvidas originalmente para tratar outras
doenças modificam também a vivência dos
pacientes: elas eliminam a ansiedade, por
exemplo, reduzindo as alucinações. Até hoje, na
maioria dos casos ainda não se sabe por que isso
ocorre. Estou tentando esclarecer as bases
moleculares desses distúrbios para que eles
possam ser mais bem tratados.
M&C - Trata-se também de
melhores diagnósticos?
S.B. - Sim, esse é o outro lado da moeda: os
métodos atuais de diagnóstico são insuficientes
em muitos quesitos: não se faz, para tanto,
muito mais que observar as pessoas, conversar
com elas e entregar-lhes questionários. Assim,
não ficamos sabendo o que ocorre no cérebro de
cada uma delas.
M&C - Na verdade, vários
fatores contribuem para o surgimento de
transtornos psíquicos. Por que a senhora voltou
seus estudos para a biologia molecular?
S.B. - Existe um forte componente genético. No
caso de gêmeos univitelinos, geneticamente
idênticos, a probabilidade de um deles adoecer
quando o outro é esquizofrênico ou bipolar, é de
até 50%. O inverso também é verdadeiro, nem
todos os que têm a predisposição genética
adoecem de fato. A herança genética e o ambiente
trabalham juntos nesse caso, e a isso se acresce
o fato de que por trás da maioria dos
transtornos se escondem provavelmente defeitos
em diferentes genes.
M&C - Tudo isso soa como
se a química cerebral, o ambiente e o
comportamento estivessem entrelaçados demais
para que pudéssemos separá-los. É isso mesmo?
S.B. - Bem, ninguém nunca afirmou que isso seria
fácil. Mas hoje dispomos de métodos melhores
para desvendar os caminhos dos sinais que podem
determinar uma doença: da mutação e da leitura
da informação genética, passando pelas proteínas
resultantes desses processos até a atividade
enzimática ou metabólica “patológica” que elas
podem causar. Por isso acompanhamos no
laboratório vários caminhos ao mesmo tempo.
Começamos analisando o tecido cerebral de várias
centenas de pacientes falecidos. Nesse caso, não
se tratava de um gene ou proteína determinados,
mas de perfis globais. Nos exames, registramos
as diferenças entre os cérebros de pessoas
doentes e saudáveis do grupo-controle. Assim,
descobrimos que as mitocôndrias, as usinas
produtoras de energia das células neurais,
estavam claramente alteradas nos primeiros. Além
disso, tanto nos esquizofrênicos quanto em
doentes bipolares, a mielinização dos neurônios
estava alterada. A mielina forma o isolamento
dos axônios que transmitem os sinais nervosos.
Essa foi a primeira prova de semelhanças entre
os dois transtornos em nível celular.
M&C - Isso se refere à
origem dos distúrbios ou apenas às suas
consequências comuns?
S.B. - É difícil saber. Por isso é tão urgente
esclarecer os mecanismos com exatidão. Se
conseguirmos isso, poderemos um dia prevenir
doenças possíveis em vez de simplesmente
reagirmos terapeuticamente. Essa ideia me
fascina.
M&C - E como a senhora age
na prática?
S.B. - Uma
parte de nosso trabalho consiste em procurar
relações estatísticas em quantidades gigantescas
de dados, correlações entre sintomas de doenças
e marcadores moleculares. Nós processamos
aproximadamente 20 terabytes de dados por ano.
As bases para tanto são amostras de pacientes de
diversas idades, principalmente de sangue e
líquido cerebrospinal, mas também tecido nervoso
de mortos. Junto com Markus Leweke, no Hospital
Universitário de Colônia, descobrimos que no
líquido cerebrospinal de pacientes
esquizofrênicos há baixa quantidade de glicose,
lactato e outras substâncias que fazem parte do
metabolismo.
M&C - Como isso
supostamente ocorre?
S.B. - O cérebro gasta de 20% a 30% da energia
do corpo, apesar de representar cerca de 2% do
nosso peso total. O metabolismo energético está
sujeito a várias influências genéticas, e
existem várias reservas escondidas que são
acionadas só se a provisão de energia é
interrompida. Nossa hipótese é de que o estresse
oxidativo, que desencadeia falta de energia no
cérebro, causa prejuízos que se transformam em
sintomas psiquiatricamente relevantes.
M&C - Os procedimentos por
imagem também podem ajudar a tornar visíveis os
processos cerebrais patológicos?
S.B. - A sobreposição entre a atividade cerebral
normal e patológica ainda é grande. Precisamos
nos contentar com um baixo número de pessoas
durante as séries de testes dentro dos
tomógrafos. Em vista da vastidão dos sintomas, é
difícil encontrar um denominador comum nos
padrões de atividades de diversos pacientes.
M&C - Como os transtornos
poderão ser mais bem classificados no futuro?
S.B. - Os sintomas psiquiátricos são pouco
específicos para um ou outro transtorno. Com a
ajuda de biomarcas talvez seja possível abrir o
sistema diagnóstico que atualmente consiste em
gavetas com etiquetas bastante difusas:
esquizofrenia afetiva, transtorno psicótico e
assim por diante.
M&C - Algumas pessoas
acreditam que pesquisas como as suas falam a
favor do determinismo biológico.
S.B. - Isso é bobagem. Como eu já disse: o
ambiente, os genes e o comportamento se
entrelaçam constantemente e de forma estreita. A
indicação da base neurológica de transtornos
psíquicos pode evitar preconceitos – pois não se
trata de “devaneios cerebrais”. No entanto, não
podemos compreendê-la como a única origem a que
se podem atribuir os transtornos.
Steve
Ayan é psicólogo e redator da Gehirn&Geist
Fonte:
Revista Mente e
Cérebro, por Steve Ayan
Postado
por Izabel Cristina da Fonseca, 1 setembro 2010
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