Por que sua
palavra deveria ser "não"
Jantar com aquela amiga que só fala em
desgraça mas está carente. Comprar uma blusa
que jamais vai usar só porque o vendedor foi
insistente. Sinta-se autorizada a dispensar a
carteirinha do clube das mulheres com
dificuldade de dizer não!
Já parou para
pensar em quantas vezes abriu mão do seu tempo,
conforto, dinheiro para ajudar alguém? Tudo por
não se sentir bem recusando empréstimo à sua
irmã gastadora nem negando palavras de conforto
à amiga que acabou de terminar o namoro vaivém
pela enésima vez. Claro, não estamos dizendo que
o melhor é olhar só para o próprio umbigo e
deixar que os outros se virem. Apenas sabemos
quanto é fundamental balancear esta equação: ser
cooperativa sem se prejudicar. E ensinamos como.
A raiz do problema
Ok, não é tão
simples dizer essa palavrinha que fecha portas a
pessoas queridas. Até mesmo por uma questão
cultural. Quantas de nós cresceram acreditando
que ser dócil e prestativa é o caminho mais
curto para conquistar o amor dos outros? “Mesmo
as mulheres adultas e independentes ainda temem
que um não seja interpretado como falta de
preocupação e cuidado — e nenhuma quer ser vista
dessa forma”, argumenta a psicóloga Yvonne
Thomas, especialista em qualidade de vida.
Então, um jeito de começar a lidar de forma mais
saudável com a questão é se perguntando de onde
vem essa necessidade de corresponder às
expectativas alheias 100% do tempo, de não
querer (nem poder!) arranhar sua imagem de
boazinha...
Um jeito bom de
ajudar os
outros
Outro ponto a
considerar é que, quando você hesita em dizer
não, todos saem perdendo, inclusive quem está ao
redor. Imagine, por exemplo, que concorde em
ajudar de novo sua colega de trabalho a montar a
apresentação de um projeto. Para isso, atrasa
uma tarefa sua. Além de precisar fazer hora
extra ou se queimar com o chefe, ainda vai
sustentar a dependência da moça: em vez de
aprender, ela tomará sempre o caminho mais
fácil, que é recorrer a quem já sabe. “E você dá
a entender que as suas prioridades não têm valor
nenhum”, acrescenta Beth Wareham, autora do
livro Seja a Dona da Sua Vida (Academia Cristã).
Aconteceu com a publicitária Ana Carolina
Kushnir, 27 anos. “Eu aceitava tudo com
facilidade”, lembra. “Mas os constantes pedidos
de carona, dinheiro, atenção foram me
incomodando a tal ponto que um dia explodi.
Acabei dizendo que não seria mais capacho.” Para
evitar uma reação radical, melhor ser objetiva.
“Tente dizer o necessário de um jeito educado:
‘Sinto muito, mas desta vez não poderei
ajudar’”, aconselha a psicóloga Lígia Gebrim,
autora do livro Falando de Amor (Pensamento). E,
quando explicar os motivos, siga três regras:
seja sincera, evite dar detalhes e não peça
desculpa várias vezes.
O peso aumenta a cada dia
Ceder sempre, além
de tudo, é como uma bola de neve. Em pouco
tempo, os mais acomodados parecem querer que
você os leve nas costas! “E a dificuldade de
recusar pequenos favores poderá evoluir para
aspectos mais importantes”, alerta Lígia. A
estudante Julia Pantaroto, 21 anos, que o diga.
“Tentei várias vezes terminar com um namorado
infantil, mas ele vivia fazendo jogo emocional.
Acabei esticando por mais seis meses e, claro,
fazendo-o sofrer também.” A Senhorita Sim passou
por outras dificuldades desse tipo. “Com minhas
amigas, agia igualzinho. Por medo de parecer
desanimada, ia a baladas mesmo sem estar com
vontade — e virava a noite emburrada, estragando
o meu programa (e o delas).” Meses de terapia
colocaram um ponto final nesse martírio.
“Amadureci e percebi que um não sincero é melhor
que um sim forçado.” Para tornar a prática mais
fácil, os especialistas sugerem a tática da
recusa preventiva: quando perceber que alguém
vai pedir um favor que não pode atender,
antecipe-se com algum comentário sinalizador.
Por exemplo, sua sogra lança que tem um milhão
de coisas para fazer antes de se mudar?
Responda: “Eu imagino; essas coisas dão sempre
uma enorme dor de cabeça. Se eu não estivesse
tão atarefada, ofereceria ajuda”.
Negociar é a saída
Claro, na hora H é
preciso ter o maior tato. Para cada situação,
existe uma estratégia específica. Ao rejeitar um
pedido do chefe, por exemplo, não é adequado
simplesmente recusar, e sim negociar. A
consultora de carreira Nicole Williams, autora
do recémlançado livro Girl on Top (Garota no
topo), sugere dizer algo do tipo “Estou
empolgada com o projeto, mas talvez não faça um
bom trabalho porque tenho várias tarefas para
cumprir no momento. Pode me ajudar a escolher
uma prioridade?” Verdade que, mesmo tomando
todos os cuidados possíveis, uma recusa pode,
sim, gerar uma resposta atravessada. “E é
preciso que você esteja preparada”, pondera a
psicóloga Lígia. Afinal, o preço que se paga por
querer ser a boa alma do pedaço muitas vezes é
alto. Portanto, pense que o resultado imediato
pode ser desagradável, mas a longo prazo será
libertador e justo.
A química do sim
Essa dificuldade
em negar tem explicação científica, sabia?
Estudo recente feito com universitários
americanos comprovou que, quando eles cooperavam
com os colegas na sala de aula, o centro de
recompensas do cérebro era ativado. Essa região
é a mesma que entra em funcionamento quando você
come chocolate, por exemplo, causando aquela
gostosa sensação de prazer.
Fonte:
Revista Nova, por Julia Moreira
Postado
por Izabel Cristina da Fonseca, 18 agosto 2010
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