Espaço de equilíbrio
Psicólogos da
Universidade Yale fazem testes para
descobrir como características ambientais
provocam diferentes reações; eles já
constaram que em cômodos abafados e lotados
tendemos a considerar qualquer experiência
mais desagradável do que se estivéssemos em
um local amplo e confortável por Way Herbert
Não
desprezo assuntos como canais energéticos,
cristais e acupuntura, mas também não endosso
essas práticas – simplesmente aguardo provas.
Devo admitir, porém, que há uma prática não
comprovada cientificamente que, para mim,
sempre teve certo apelo intuitivo. Trata-se do
feng shui, a antiga arte chinesa da
ambientação, baseada na crença de que o
espaço, a distância e a disposição dos objetos
podem afetar as emoções e a sensação de
bem-estar. Pessoalmente, a idéia faz sentido
para mim: sinto-me mais equilibrado
psicologicamente em alguns espaços que em
outros, embora não saiba por quê. Alguns
psicólogos já admitem a conexão entre o espaço
físico, o pensamento e a emoção, considerando
que nossos vínculos, muitas vezes, se misturam
à percepção da geografia espacial.
Dois psicólogos da Universidade Yale, nos
Estados Unidos, decidiram explorar o poder
dessa habilidade humana no laboratório, para
verificar se a influência emocional de um
espaço ordenado e aberto é diferente do efeito
causado por um ambiente fechado e apertado.
Lawrence E. Williams e John A. Bargh
exploraram a questão em uma série de
experimentos. As pesquisas começaram com o
chamado estímulo subliminar, usado para criar
uma atitude ou sensação inconsciente. Foi
empregada uma técnica simples e eficaz: as
pessoas deviam dispor dois pontos em um
gráfico, como em um pedaço de papel
diagramado. Em alguns casos, as marcações
estavam bem próximas, enquanto em outros os
pontos apareciam em lugares distantes. Sabe-se
que o exercício estimula a percepção
inconsciente de espaço congestionado ou amplo.
Em seguida, os pesquisadores testaram os
indivíduos de outras formas. Em um
procedimento, por exemplo, os participantes
deviam ler um trecho embaraçoso de um livro e,
logo após, eram indagados se a passagem era
agradável ou divertida e se gostariam de ler
mais sobre o gênero. Williams e Bargh queriam
determinar se o senso de distância ou
liberdade psicológica podia anular o
desconforto emocional. Foi exatamente isso que
ocorreu. Os voluntários estimulados pelo
ambiente espaçoso se mostraram menos
perturbados pela experiência embaraçosa,
considerando-a mais agradável do que aqueles
que tiveram percepção mais opressiva do mundo.
Os
psicólogos realizaram outra versão do mesmo
experimento, na qual o trecho do livro era
extremamente violento e não embaraçoso. Os
resultados foram similares. Os participantes
estimulados pelo espaço fechado consideraram
os eventos violentos muito mais repugnantes,
assim como achamos um acidente aéreo em nossa
vizinhança mais perturbador que outro que
ocorre a milhares de quilômetros de nós.
Williams e Bargh acreditam que essa tendência
está ligada às conexões do cérebro entre
distância e segurança, um hábito mental que
provavelmente evoluiu para ajudar nossos
ancestrais a sobreviver em condições
precárias.
Os psicólogos tentaram explorar mais
diretamente a relação entre distância
psicológica e perigo real. Os participantes
deviam avaliar a quantidade de calorias
contidas em alimentos saudáveis e em junk food.
Os estudiosos conjeturaram que as calorias da
batata frita e do chocolate seriam avaliadas
como uma ameaça à saúde, diferentemente das
calorias contidas no arroz integral e no
iogurte; raciocinaram ainda que as pessoas
estimuladas pelo espaço fechado seriam mais
sensíveis à ameaça. A pesquisa confirmou essas
expectativas: participantes levados a se
sentir confinados e em espaços abarrotados
avaliaram que havia mais calorias na junk food
do que as estimuladas a se sentir livres e em
espaços abertos. Quanto à comida saudável, a
percepção dos dois grupos foi idêntica.
Publicada na Psychological Science, a pesquisa
pareceu convincente. Mas Williams e Bargh
decidiram realizar mais um experimento que
abordasse diretamente a questão da segurança
pessoal. Os pesquisadores perguntaram aos
voluntários sobre a força de seus vínculos
emocionais com os pais, irmãos e a cidade
natal, verificando que os expostos a maior
distância psicológica relataram elos frouxos
com esses importantes esteios emocionais. Ou
seja: a proximidade física revelou também
maior ligação emocional. O notável é que tudo
se dá de forma inconsciente: a distância
espacial entre dois objetos arbitrários tem,
aparentemente, força suficiente para ativar um
símbolo abstrato de proximidade e segurança no
cérebro, que, por sua vez, tem energia
suficiente para moldar nossas respostas ao
mundo. É quase suficiente para me fazer
afastar um pouco aquele vaso do sofá e
aproximá-lo do abajur...(Tradução de Marcel
Crovelli)
Way Herbert
é diretor da Association for Psychological
Science, nos Estados Unidos.
Fonte:
Provedor UOL, por Way Herbert
Postado por
Izabel Cristina da Fonseca 16 abril 2010. (12.415)