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Traumas da Perda
No
Brasil, em média, duas em cada dez crianças
morrem ainda na barriga da mãe, em decorrência
de aborto espontâneo. Mães e pais que passam
por essa situação sofrem durante longo tempo,
pois embora não tenham tomado seus bebês nos
braços, desenvolvem com eles uma relação
íntima de afeto
“Estou na cozinha e de repente começo a
sangrar. No entanto, hoje ao meio-dia ainda
estava tudo bem no ultrassom. Tudo acontece
muito rápido: meu marido chama a ambulância e
vejo a poça de sangue embaixo de mim; tenho um
pressentimento terrível. Acho que meu filho
não vive mais. Fico desesperada. Quando os
enfermeiros me deitam na maca, fico calma –
tudo parece irreal. No hospital, todos que me
atendem parecem agitados. Um médico me examina
com um instrumento de metal gelado. A
ultrassonografia confirma o que eu já sabia,
mas insistia em não acreditar: meu bebê está
morto. É preciso fazer logo uma curetagem. O
médico diz que eu ainda poderei ter muitos
filhos. Mas meu bebê está morto. Ele não pode
ser substituído por nada nem por ninguém.
Nunca.” (Depoimento de paciente do Hospital da
Universidade de Münster que sofreu um aborto.)
A morte do filho antes
do nascimento joga a maioria das mães e pais em
uma profunda crise. Se os médicos supunham há 30
anos que o melhor para os casais seria esquecer
o evento o mais rápido possível, hoje – graças à
psicologia e à psicanálise – se sabe que as
reações à perda de um filho antes do nascimento
só se diferenciam fracamente das que ocorrem em
outros casos de luto. No entanto, sua magnitude
raras vezes é percebida por aqueles que rodeiam
as pessoas que passam por essa situação e, não
raro, os homens encontram ainda menos espaço
para viver sua tristeza. Dependendo do estudo,
entre 10% e 30% das crianças morrem ainda antes
de nascer. No fundo, isso pode ocorrer em
qualquer período de uma gravidez. Até a 16a
semana, os médicos falam em aborto precoce,
depois; em aborto tardio. Mais da metade de
todos os abortos espontâneos ocorre, no entanto,
antes do terceiro mês de gravidez. E somente os
bebês com peso corporal de 500 gramas que morrem
antes ou durante o parto são considerados
“crianças nascidas mortas”. Embriões menores não
têm registro civil nem direito a enterro.
O estresse psicológico
sofrido pelos pais pelo abortamento ou pelo
nascimento de um bebê morto já foi muitas vezes
estudado cientificamente. Nesses trabalhos, as
mulheres geralmente eram focadas de maneira mais
intensa que os homens. Em 2005, nosso grupo de
trabalho do Hospital da Universidade de Münster
estudou os dados de pacientes mulheres que
haviam perdido um filho antes do nascimento
entre 1995 e 1999. Descobrimos que dois terços
delas ainda experimentavam um grande trauma,
mesmo quando já haviam se passado dois a sete
anos da perda. A intensidade de sua dor pouco se
diferenciava dos sentimentos de perda em
mulheres cujo abortamento ocorrera havia apenas
14 dias.
Esses resultados não sugerem processos de luto
excepcionais ou mesmo patológicos, mas mostram,
isso sim, que antes do nascimento já existe uma
relação intensa entre mãe e filho. Em comparação
com mães de bebês saudáveis, as mulheres que
perdem o filho no último trimestre de gravidez
enfrentam alto risco de sofrer de depressão.
Isso foi comprovado em 2003 por Jesse Cougle e
seus colegas da Universidade do Texas, em
Austin. Em 2007, nossa equipe finalizou um
estudo próprio sobre as seqüelas psicológicas de
pacientes cuja gravidez teve de ser interrompida
por motivos médicos já na fase tardia: quase 17%
das mulheres ainda sofriam 14 meses depois de
depressão ou ansiedade.
Outro risco
freqüentemente subestimado diz respeito ao
próximo filho gerado após um aborto. Em geral a
perda não influencia a probabilidade de a mulher
dar à luz um bebê saudável. Mas a gravidez
fracassada pode influenciar a ligação da mãe com
a criança gestada em seguida, conforme
descobriram em 2001 pesquisadores do
Departamento de Psiquiatria do Hospital Escola
St.George, em Londres. Assim, por medo de uma
nova perda, quando engravidam outra vez muitas
mulheres assumem um relacionamento menos intenso
com os filhos que estão gestando. Em comparação
com crianças de um grupo de controle, esses
bebês apresentam por volta dos 12 meses, em
alguns casos, apatia e, em outros, irritação e
ansiedade, o que reflete a fragilidade da
ligação afetiva com a mãe, podendo surgir mais
tarde problemas de autoestima e distúrbios
comportamentais.
À primeira vista, poderíamos pensar que os pais
desenvolvem uma relação menos estreita com seus
filhos que não chegaram a nascer, em comparação
às mães. Estudos recentes, porém, contrariam
essa suposição. Os psicólogos britânicos Martin
Johnson e John Puddifoot observaram, por
exemplo, que homens que viram uma imagem de
ultrassom de seus filhos e ouviram seu
coraçãozinho bater sofriam mais intensamente com
a perda do que aqueles que não tinham essas
experiências – e lembranças. Aparentemente, a
existência de exames médicos mais sofisticados
estimula a ligação entre pai e filho.
Já em 1995 psicólogos da Universidade de
Rochester, no estado americano de Nova York,
tentaram descobrir se mães e pais apresentam
diferentes sintomas quando não conseguem lidar
com a morte de seu bebê. Eles acompanharam 194
mulheres e 143 homens nessa situação e
constataram que elas sofriam mais frequentemente
de depressão e medos, enquanto mais da metade
deles recorria ao álcool.
Sofrimento dividido
Um estudo de 2003
coordenado por Kirsten Swanson, da Universidade
de Washington, em Seattle, corrobora a conclusão
de que, dependendo do sexo, as pessoas lidam de
forma diferente com sua dor. Segundo os autores,
as mulheres frequentemente têm necessidade de
falar sobre a perda; já os homens tendem a se
voltar para o trabalho ou a buscar distração em
outras atividades.
Swanson investigou também se essas estratégias
de superação específicas de cada gênero
sobrecarregavam o relacionamento do casal. De
fato, muitas vezes ocorrem mal-entendidos, como
se surgisse (ou se tornasse mais acentuada) a
dificuldade de comunicação. Por exemplo, as
mulheres tendem a interpretar o mutismo e o
retraimento do parceiro como egoísmo e falta de
empatia. Homens, por sua vez, sentem-se muitas
vezes indefesos diante da tristeza intensa e
explícita de suas parceiras. Para não
sobrecarregá-las ainda mais, eles controlam as
próprias emoções e evitam falar abertamente
sobre elas.
Psicoterapia pela Internet
Com base em nossa
experiência clínica de acompanhamento e
tratamento de pais após a perda de um filho,
desenvolvemos em 2008 um programa preventivo que
inclui cinco sessões de terapia. Nos encontros
são abordados temas importantes como a
retrospecção à época da gravidez e do
nascimento, a despedida do filho, a relação do
casal e a importância do ambiente social. Para
ajudarmos também os pais que moram longe ou não
podem participar de uma terapia presencial,
buscamos uma alternativa para o atendimento
costumeiro, cara a cara. Foi assim que
desenvolvemos um conceito de tratamento pela
internet para pais que haviam perdido um filho
durante a gravidez ou pouco após o nascimento: o
projeto será patrocinado durante três anos pelo
Ministério da Família, Mulheres, Idosos e
Adolescentes da Alemanha. Portanto, não há
custos para os pacientes. Diferentemente dos
tratamentos tradicionais, a terapia on-line
permite a comunicação exclusivamente por
escrito. Obviamente, nessa situação a interação
não verbal entre paciente e terapeuta – por meio
da postura corporal, o contato visual ou a voz –
não ocorre no caso desse método. No entanto,
essas informações emocionais importantes podem e
devem ser destacadas pelo uso de diversas fontes
ou variações do pano de fundo na tela. Outra
característica dessa forma de terapia são as
pausas na comunicação, que devem ser olhadas com
atenção pelo profissional. Uma vantagem: o
paciente pode refletir com calma sobre as
perguntas do terapeuta antes de respondê-las.
Costumamos argumentar que, nesse momento, as
inibições que talvez impeçam a pessoa de
comunicar os pensamentos dolorosos ou que ela
considere vergonhosos são eliminadas.
Reconhecemos, no entanto, que demora pode também
levar a mal-entendidos difíceis de ser
percebidos na comunicação escrita. Por isso, o
terapeuta se orienta pela forma de expressão e
estilo do paciente – o que, de fato, nem sempre
é fácil. Apesar das dificuldades (e críticas) a
respeito da psicoterapia pela internet, a
proposta é justamente avaliar se esse tipo de
intervenção é eficaz.
Mas há também
evidências de que mães e pais se ajudam
intuitivamente quando perdem um bebê.
Pesquisadores coordenados por Marijke Korenromp,
do Centro Médico Universitário, em Utrecht, na
Holanda, analisaram inúmeros estudos sobre o
comportamento de pais em luto após a interrupção
da gravidez por motivos médicos.
Surpreendentemente, os parceiros raramente
mostraram fases de tristeza intensa
concomitantes. Os psicólogos holandeses supõem
que os pais se alternavam de forma
inconscientemente na superação da dor, para que
aquele que estivesse especialmente
sobrecarregado em um momento fosse apoiado e
aliviado de suas tarefas rotineiras nesse
período.
Até agora, porém, desenvolveram- se apenas
poucos conceitos de tratamento específicos para
pais após perdas durante a gravidez, e sua
eficácia não foi investigada a fundo. Mas todas
as abordagens têm em comum o fato de estimular a
comunicação franca entre os membros da família.
O principal objetivo da terapia consiste,
inicialmente, em fazer com que os afetados
tenham consciência de sua perda e formulem seu
sofrimento espiritual em palavras para que, por
fim, possam se despedir do bebê morto, bem como
das expectativas, das esperanças e dos desejos
associados a ele. De qualquer forma, é
fundamental que, independentemente do fato de
serem homens ou mulheres, pessoas que passaram
pela experiência dolorosa de um aborto (muitas
vezes até mesmo de um aborto provocado, que pode
deixar sequelas emocionais e culpa) possam ter
um espaço de acolhimento. E encontrar um
ambiente propício e seguro para viver esse luto,
falar sobre sentimentos e frustrações. Ou apenas
para chorar.
Causas e sintomas
Em muitos casos, alterações genéticas são
responsáveis pela morte do feto. Nesses casos, o
bebê não estaria apto a sobreviver e por isso é
expelido pelo corpo da mãe. Às vezes, a falta do
hormônio progesterona pode provocar o aborto.
Nesse caso, o óvulo não se aninha na membrana
mucosa do útero. Infecções e doenças maternas
também facilitam a morte da criança durante a
gestação. Mulheres grávidas de múltiplos têm um
alto risco de perder o bebê. Os indícios de um
possível aborto vão desde sangramentos vaginais
até fortes dores no abdômen e costas. Se esses
sintomas surgirem, grávidas devem procurar um
médico imediatamente. Muitas vezes, o aborto
pode ser evitado com medicamentos ou intervenção
cirúrgica.
Anette Kersting Dirige a área de psicoterapia
no Hospital Universitário de Psiquiatria e
Psicoterapia de Munster
Fontes:
Site O que eu tenho? da Redação
Postado por Izabel Cristina da Fonseca,
24 de junho de 2010.
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