Estamos todos cansados. Viver, principalmente nas grandes cidades, que nos
impõem engarrafamentos, violência,
grandes distâncias, está sim muito
difícil. O tempo se tornou artigo de
luxo. A vida está corrida, o mundo
globalizado oferece inúmeras
possibilidades e o tempo limita a
possibilidade de realização destas.
Embora nem as crianças estejam
escapando das agendas lotadas, hoje
vamos falar sobre a situação da
mulher que trabalha e tem família.
Na última década subiu assustadoramente o número de mulheres vivendo
situações e conflitos provenientes do
estresse. Esse quadro, antigamente era
muito comum em homens, naqueles
responsáveis pelos provimentos da
família, sem tempo para se dedicar à
vida pessoal e cheios de desafios
profissionais a vencer. Essa situação
é hoje vivida indistintamente por
homens e mulheres. A diferença está no
papel de mãe e as implicações dessa
tarefa, na grande maioria exercida
pelas mulheres.
Crianças requerem atenção e dedicação. Para isso precisamos de tempo e nem
sempre esse tempo está à nossa
disposição. Muitas são as razões que
levam mulheres a trabalharem:
necessidade financeira, desejo de
realização profissional, pouca
identificação com atividades
domésticas etc. As mulheres
pós-feminismo cresceram acreditando
que para terem valor precisariam
necessariamente do desenvolvimento
intelectual aplicado ao trabalho e de
independência econômica. São mulheres
que sonharam a vida inteira com a
carreira
profissional e dividiram as brincadeiras de boneca com as de executiva, de
salto alto e tailleur. Ao se casarem e
terem filhos, tentaram encaixá-los
nessa fórmula e foram grandes
divulgadoras da tese de que crianças
precisam de atenção com qualidade, de
que o que importa não é o quanto se
fica com elas mas o como. Essa
afirmação não deixa de ser verdadeira,
mas parcialmente. Há mães com pouco
tempo disponível e grande
aproveitamento e otimização do tempo
restante, e há aquelas com todo o
tempo do mundo e nenhuma dedicação aos
filhos. É inegável que a qualidade da
relação é fundamental, mas todas as
mães sabem que a falta de tempo é um
grande dificultador e que os “grandes
eventos”, “grandes sacadas” e “grandes
papos” acontecem naqueles momentos
mais corriqueiros, como a hora do
banho, trajetos para a escola,
preguicinha da tarde, hora de deitar.
O que foi inquestionável durante décadas – a
importância de a mulher trabalhar fora
de casa – começa a ser rediscutido aos
pouquinhos pelos que hoje são os
filhos dessa geração. Muitos jovens
desejam se dedicar à família, aos
filhos pequenos e começam a esboçar
acordos para tornar isto possível. O
homem e a mulher começam a pensar a
família com maior divisão de tarefas.
A mulher já não se sente tão
desvalorizada em passar um período
dedicada aos filhos, sem trabalhar. De
certa forma, voltam a ser livres em
seu desejo de serem mães. Há até certa
valorização das atividades domésticas
e, sobretudo, das maternas e paternas.
Os movimentos sociais obedecem a
transformações periódicas, onde uma
fase sucede a outra, buscando sempre o
oposto da anterior. Grande valorização
do trabalho fora de casa antecedendo
ao reinício da valorização das
atividades “do lar”.
Para todos os que estão nessa engrenagem de
muito trabalho e pouco tempo para os
filhos, não adiantam culpas e
compensações. A melhor solução é
tentar fazer o melhor, prestando
sempre bastante atenção às
necessidades de cada um. Quando digo
“cada um” me refiro inclusive às
próprias. Não adianta cumprir a dupla
jornada e cair morta. Você também
precisa de tempo para descansar,
namorar, conviver com os amigos, ler,
viajar etc.
Como fazer? Parece mágica, mas somente
mulheres poderiam assumir tal função.
É sabido que a multiplicidade de ações
simultâneas é característica feminina.
Com jeitinho podemos contemplar
minimamente, pelo menos, todos os
segmentos de uma vida plena e
saudável.
Vamos aprender com a garotada. Será que toda
mulher precisa abrir mão da dedicação
exclusiva à família, durante um tempo,
para ser valorizada? Será que não
discriminamos demais as mulheres que
não trabalham, como se isso fosse
sinônimo de alienação e burrice? Será
que somos
livres em nossos desejos ou estamos
reproduzindo valores geracionais sem questioná-los?
Questionando sempre, garantimos nossa
contemporaneidade.
Até a próxima!