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Mãe é mãe mas não precisa
ser santa
Se
você ainda acredita em sacrifícios
incondicionais, é bom descer logo desse altar.
Quem faz apenas o possível respira mais aliviada
- e cria filhos mais felizes
Não,
doutor Freud não tinha razão quando dizia que
somos "por
natureza"
masoquistas. Não somos capazes de encontrar
prazer na dedicação absoluta aos filhos,
consagrando todas as horas do dia a limpar,
aquecer, distrair, alimentar e fazer dormir.
Hoje sabemos disso, mas, algumas gerações atrás,
as mulheres descontentes com esse esquema eram
tachadas de "anormais".
Como
foi ficando cada vez mais difícil corresponder
aos modelos de perfeição ou de "normalidade",
a raiva tomou conta de muitas de nós. Mas
senti-la provocava mais culpa. Não é à toa que
às vezes sucumbimos, odiando os filhos e a nós
mesmas por não sermos um exemplo de benevolência
- ao contrário, não raro perdemos a paciência
por problemas prosaicos, que nos testam todo
dia.
O
maior desafio da mulher ainda é conseguir
aceitar os próprios limites. "O
que sempre dificultou nossa vida foi o fato de
termos assumido muitos papéis", frisa a
psicoterapeuta junguiana Lucia Rosenberg. "Como
esses papéis são muito recentes, a culpa nos
acompanha no horário comercial e nas happy hours.
Pelos padrões seculares, deveríamos estar vendo
a lição ou assando bolo..."
Mas
nós mudamos e, graças às feministas, que
chamaram o instinto materno de "enorme
pilhéria", pudemos
respirar mais aliviadas, reconhecendo que o amor
de mãe é apenas um sentimento humano e, como
todo sentimento, incerto, frágil e imperfeito.
Ah, que alívio poder existir fora da fôrma,
desenvolvendo relações mais transparentes com
nossos filhos, sujeitas a altos e baixos, como
todo vínculo humano honesto e verdadeiro.
Foi
assim que conseguimos virar a página e deixar de
viver a maternidade como obrigação, sabendo que
não há comportamento materno suficientemente
unificado que permita falar de instinto ou
atitude universal. "As
mulheres que se recusam a sacrificar ambições e
desejos ao maior bem-estar do filho são
demasiado numerosas para ser classificadas como
exceções patológicas que confirmariam a regra",
diz a escritora francesa Elisabeth Badinter em
seu livro Um Amor Conquistado: o Mito do Amor
Materno (Nova Fronteira), em que joga a pá de
cal definitiva sobre a idéia da mulher "anormal",
ou seja, aquela que escapa ao molde da santa
senhora.
Desdobráveis, sim, heroínas, não Claro que
algumas de nós conseguem desempenhar com certo
talento e sem muito stress a dupla jornada de
trabalho. Afinal, a maternidade é um dom, e não
um instinto, e como tal há quem o possua - ou
não. No rol das bem-dotadas está a mineira Ana
Cecília Carvalho, 52 anos. Psicanalista,
escritora, professora universitária e mãe de
dois filhos, ela credita o sucesso da sua
empreitada à mãe, seu grande exemplo. "Só
me dei conta de que minha mãe não era igual às
outras quando passei a freqüentar a escola, em
meados dos anos 50. Descobri, então, que ela era
a única, entre as mães da turma, que trabalhava
fora e tinha uma carreira. Isso passou a ser
motivo de orgulho para mim. Dela herdei a idéia
de que ser mãe é nutrir com amor. Mais do que
uma memória, essa é a base da minha identidade e
é também o que me inspira no dia-a-dia na sala
de aula, no trabalho no consultório, em cada
texto que escrevo."
Ana
Cecília reconhece que nem sempre a situação é
amena e sem sacrifícios. "Todas
as mães vivem algum sentimento de culpa, porque,
embora tenham capacidade de se desdobrar, não
conseguem evitar os conflitos com os filhos."
Desdobráveis, sim, mas não heroínas a ponto de
dar conta de tudo ao mesmo tempo e sempre. Há
momentos em que a gente entra em parafuso mesmo.
Foi o que aconteceu com Juçara Costta, 52 anos,
artista plástica, dois filhos, que em meio a uma
grande crise depressiva resolveu entregar Décio,
3 anos, e Gustavo, 1 ano e meio, ao pai, de quem
já havia se separado. "Não
quis mais que as pessoas interferissem no meu
encontro com a arte, que todos consideravam uma
bobagem. Diziam que eu deveria me contentar com
o marido maravilhoso e os dois filhos lindos. A
repressão à minha carreira e a culpa por eu não
estar agradecida a tudo o que a vida tinha me
dado me levaram ao desespero."
Juçara tomou essa medida com a certeza de que
tanto a família de seu ex-marido quanto a sua
teriam estrutura para acolher as crianças. "Não
abandonei meus filhos. Ao contrário: achei que
eles não mereciam viver a dor daquele momento.
Preferi ficar sozinha, mas sabia que, um dia,
eles voltariam e me encontrariam pronta para dar
a eles o que mereciam. Foi o que aconteceu."
Com a
ajuda da psicanálise, Juçara conseguiu se
aprumar. "Décio já estava
com 13 anos quando começou a ir aos meus
vernissages e às peças de teatro em que eu
atuava como atriz. Um dia, pediu para voltar a
morar comigo. Mudei toda a minha vida para
recebê-lo. Logo depois veio o Gustavo. Aos
poucos, fui reconstruindo a relação com os dois
- hoje ela é amorosa e sem traumas. Considero-me
amiga dos meus filhos. Tenho um profundo
respeito por eles. Estou certa de que valeu
muito mais ser uma mulher verdadeira do que uma
mãe perfeita."
Que
tal chamar o pai? Livres do script viciado,
podemos recusar a vida de sacrifício. Ainda bem,
porque quem entra nessa pelos filhos cobra no
fim, com juros e correções, toda a energia
gasta. Afinal, ninguém é santa. A salvo desse
engano, precisamos ainda corrigir outro pequeno
desvio comum em nosso caminho: a mania de achar
que, instintivamente, sabemos cuidar melhor das
crianças do que os homens. E já não é sem tempo
de mudar, pois, nesse item, muitas mulheres
desafinam. "Desde bebê, a
mãe desautoriza o pai com frases do tipo 'dá que
eu carrego; você não tem jeito pra dar comida;
olha como segura o nenê no banho'", diz
Lucia Rosenberg. "Se, em vez de estragar a
relação dos filhos com o pai, as mulheres
ajudassem a fortalecê-la, bingo! As crianças com
certeza ganhariam com isso - e a mãe também,
pois acabaria economizando tempo e dinheiro. A
intimidade e o amor entre eles não seriam
afetados desde que tivessem base sólida", afirma
a psicoterapeuta.
A
secretária Jogma Ribeiro Fernandes, 35 anos,
dois filhos, dá a prova de que a coisa funciona
- ela conta tanto com o apoio do marido como dos
filhos. Jogma não se cobra o papel de ser a "sábia"
da casa nem vê problema em não se dedicar
inteiramente à maternidade. "Independentemente
de ter filhos, eu sou mulher. Há momentos para
ser mãe, profissional, esposa e amante. Vivo
cada um deles, sem dramas, pois tenho dois
filhos saudáveis e responsáveis e um marido
presente, o que me libera para exercer todos os
outros papéis." Ela diz
que Olbe, seu segundo marido, pai de Victor,
"sempre trocou fralda, levantou de madrugada,
deu banho, comida. Nos finais de semana, por
exemplo, é ele quem vai para a cozinha fazer
pratos deliciosos. Vivemos um novo modelo de
família, com os meus, os seus e os nossos
filhos."
Assim, vemos que o amor não é mais privilégio
das mulheres e que os novos pais podem se dar
aos filhos com a mesma intensidade, ajudando
efetivamente na sua criação. "Acredito
que as atuais formatações familiares auxiliam ao
oferecer pluralidade de modelos às crianças",
comenta Lucia. "Hoje
existem pais que ficam em casa enquanto as mães
saem para o trabalho; namorados ou novos maridos
que ocupam o lugar de modelos masculinos
alternativos para os filhos; madrastas que
mudaram de cara e podem ser grandes aliadas.
Quanto menos rígido e cristalizado for o padrão
familiar, mais possibilidades de gingar teremos
todos." Então, como o balanço é brusco,
diário e exige jogo de cintura, como você anda
de suingue, mamãe?
Com amor e sem
receita
A
jornalista Déa Januzzi, 51 anos, conta neste
artigo exclusivo a sua experiência de
maternidade. Autora do livro Coração de Mãe
(Editora Leitura), ela assina todo domingo uma
coluna sobre o tema no jornal Estado de Minas
Não tenho receita nem fórmula mágica para educar
filho. Tem dias que quero fugir para bem longe.
Sou canceriana, signo da Lua e das águas
profundas, mas, às vezes, queria estar em Marte.
Em outros dias, o sol brilha - e a mesma mãe que
esbraveja também dança ao som de Bob Marley
quando o filho chega inteiro da rua e liga o
som. Aí, é dia de calmaria, pois a mesma mãe que
sofre porque o filho atravessa a madrugada sabe
também que é cheia de falhas e se lembra de
quantas vezes deixou de telefonar para a própria
mãe quando era adolescente. Essa mãe que se
descabela com a violência nas ruas, com as
drogas, com o perigo na esquina, que se culpa
por ter se separado do marido quando o filho
ainda era pequeno é a mesma que exorciza os seus
demônios, que tem imenso prazer de ver o garoto
buscar o próprio caminho. É a mãe que vê no
filho a esperança de um mundo melhor. Nessas
horas, vejo que não existe fórmula. Que o meu
filho tem muitas mães; que ele aprende o melhor
com a avó, com as tias, as primas, as minhas
amigas e as dele. Que tem respeito pelas
mulheres, porque eu o criei com toda a
delicadeza e poesia que existem dentro de mim. E
que ele também pode ter muitos pais para se
identificar. Pode ser o avô, que continua vivo
em seu coração apesar de ter partido há mais de
20 anos; seu professor de biodança; ou mesmo o
pai, que, apesar da falta da convivência diária,
está presente em algum canto secreto do seu
coração. Ser mãe do Gabriel é um aprendizado
diário. Aprendo coisas que não encontrei em
livro nenhum. Pratico a maternidade como um
exercício de liberdade. Somos amigos, acima de
qualquer definição. Não imponho regras, tenho a
liberdade de dizer o que penso. E ele faz o
mesmo. Às vezes, gritamos um com o outro,
trocamos palavras ásperas, afiadas, porque não
vivemos num paraíso. Mas como é mágica essa
relação! Ser mãe me redimiu, exorcizou os meus
fantasmas, descortinou a janela secreta da minha
alma feminina, por onde entram os ventos
curativos da maternidade. 
Fontes:
Revista Cláudia
Postado por Izabel Cristina da Fonseca,
6
de abril de 2010.
(12.188)

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