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Reinvenção na luta contra o câncer
Médicos querem testar
combinações de diferentes drogas contra o
melanoma
Era uma tarde
ensolarada do último mês de junho. Em uma enorme
sala, repleta de oncologistas de todas as partes
do mundo, Dr Keith Flaherty descrevia a
extraordinária recuperação de pacientes com
melanoma – o tipo mais agressivo e letal de
câncer de pele –, submetidos ao teste
experimental de medicamentos que ele conduzia.
Além de um
importante avanço no campo do melanoma, os
resultados eram também sinais promissores de uma
técnica de tratamento para todos os tipos de
câncer considerada, por ele e por outros
profissionais da área, como mais eficaz e menos
tóxica do que a quimioterapia padrão.
Porém, mesmo ao
mostrar o slide de seu gráfico favorito – onde
eram vistos tumores se encolhendo em
praticamente todos os pacientes – seu pensamento
se fixava no que havia acontecido com aquelas
pessoas desde então.
Nas semanas que
antecederam aquela conferência anual de
oncologistas, vários pacientes que se submetiam
ao teste da nova droga – conhecida como PLX4032
– tiveram uma recaída. Um deles havia morrido.
Outro, Christopher Nelson, que passara por uma
recuperação aparentemente milagrosa em março,
mais uma vez tinha perdido o apetite.
Flaherty estava
preocupado com o que poderia encontrar na
tomografia de Nelson quando voltasse para seu
consultório na Universidade de Pensilvânia
(EUA). O médico pesquisador dizia à platéia que,
em média, a capacidade da droga de deter o
melanoma “parecia ser de aproximadamente seis
meses”.
“Minha esperança
era de um tempo maior”, disse o Dr Grant
McArthur, um dos seis oncologistas integrantes
da equipe de testes, que verbalizava o
pensamento de todos quando o grupo se reuniu na
conferência. Flaherty – cujo otimismo perpétuo
sobre esse tipo de tratamento, conhecido como
terapia-alvo, tenha deixado alguns colegas de
sobrancelhas arqueadas – preferiu não se
estender sobre as limitações da droga. Mesmo
que, por pouco tempo, a PLX4032 tivesse impedido
o desenvolvimento do câncer ao bloquear certa
proteína presente nas células, que estimulava
sua multiplicação.
Caso tais
medicamentos direcionados viessem um dia a
oferecer um benefício duradouro, muitos
oncologistas acreditavam que seria necessário
combiná-los a outras drogas – de forma parecida
como os coquetéis inibidores de protease vêm
funcionando contra o HIV. “Tudo o que precisamos
é de encontrar a combinação certa”, disse
Flaherty.
Se a ação dos
medicamentos fosse rápida o bastante, eles
poderiam ajudar até mesmo os pacientes
participantes do teste. Muitos deles ainda se
encontravam em fase de remissão. Os que tiveram
uma recaída estavam em busca de outro
tratamento, cientes de que o tempo estava se
esgotando para eles – a maioria dos pacientes de
melanoma morre num período de um ano depois que
o câncer começa a se alastrar.
Caminho mais
curto
O problema, que
havia minado o uso de terapias-alvo em outros
tipos de câncer, era: enquanto a PLX4032
bloqueava a proteína produzida por um gene
mutado, uma segunda mutação parecia estar
conduzindo o desenvolvimento do câncer. Eles
acreditavam que se tal mutação pudesse ser
identificada, sua proteína também poderia ser
bloqueada – como em um jogo com poucas
possibilidades de vencer. A técnica mais
apropriada seria testar o PLX4032 em combinação
com outras drogas experimentais direcionadas a
outras mutações, incluindo aquelas presentes nos
pacientes de Flaherty que passaram por uma
recaída.
Exame de imagem
mostra a redução dos tumores em pacientes que
testaram droga experimental
Entretanto, mesmo
oferecendo ao paciente apenas mais alguns meses
de vida, o medicamento poderia gerar bilhões de
dólares. E a prática padrão das indústrias
farmacêuticas, que alegam investir cerca de um
bilhão de dólares no desenvolvimento e teste de
uma única droga, é conseguir a aprovação
individual de cada droga antes de testá-las em
combinação outras – principalmente com aquelas
dos concorrentes que ainda se encontram em fase
experimental. Mesmo pequenos testes podem custar
mais de um milhão de dólares. E a grande
preocupação é que uma droga considerada segura e
eficaz pudesse ser maculada quando associada à
outra com efeitos colaterais comprovados.
Como a Roche,
gigante farmacêutica que havia licenciado a
PLX4032, tinha planos de testar a droga em
ensaios maiores visando conseguir uma rápida
aprovação do FDA (Food and Drug Administration –
órgão governamental regulador de alimentos e
medicamentos dos EUA), os colegas de laboratório
de Flaherty tentariam encontrar a nova mutação
em amostras de tumores de pacientes que tiveram
recaída – na tentativa de entender porque a
droga tinha parado de funcionar.
De sua parte, o
médico tentaria manter vivos seus pacientes. E
ele se esforçaria também para convencer a
indústria farmacêutica de que para tomar o
caminho mais curto para encontrar a combinação
realmente eficaz seria necessária uma mudança no
procedimento padrão.
Mesmo se uma
combinação de medicamentos-alvo pudesse por o
melanoma em um longo período de hibernação – e
ele sabia que isto ainda não estava bem claro –
seria necessário um coquetel de cinco ou mais
drogas para tratar qualquer caso. E um novo
medicamento pode demorar até 10 anos para chegar
ao mercado.
“Se eles fizerem
da mesma forma de sempre, isso irá acarretar um
atraso de muitos anos em nosso trabalho”,
Flaherty se lamentou para seus colegas através
de emails e telefonemas.
Ele sabia que tal
frustração ia bem além dos especialistas em
melanoma, principalmente ao se tornar claro que
eram tantos os medicamentos-alvo a serem
testados que provavelmente nenhum deles
conseguisse interromper o avanço de qualquer
tipo de câncer por mais do que um período
limitado de tempo.
Aliança médica
Impossibilitados
de conseguir as drogas dos próprios laboratórios
farmacêuticos, alguns pesquisadores estavam
pagando para ter a cópia falsificada equivalente
para que pudessem testar as combinações mais
lógicas em animais de laboratório. Um
experimento do gênero havia detido o
desenvolvimento de câncer de pulmão em
camundongos e, segundo um colega, pesquisadores
clínicos estavam enfurecidos pois os
laboratórios farmacêuticos proprietários das
drogas ainda não tinham planos de combiná-las em
testes humanos.
Durante o verão,
Flaherty encorajou os principais pesquisadores
do melanoma a formar uma aliança que tornasse a
realização simultânea de diversos testes um
processo mais rápido e mais barato para as
indústrias farmacêuticas, aconselhando-as sobre
quais seriam os mais promissores.
Alguns anos antes
disso, ele já havia conseguido o apoio de um
grupo de defesa do paciente, o Melanona Research
Foundation. Conseguir a cooperação gradual entre
os pesquisadores acadêmicos havia sido uma
tarefa mais difícil, dado o fato de que eles
competem por vagas de emprego e subvenções
financeiras. Além disso, muitos deles ainda
acreditavam que uma técnica diferente, que
estimulasse o sistema imunológico do paciente,
teria maior probabilidade de chegar a uma cura.
Porém, até o
momento, os resultados dos testes do PLX4032
foram os que ofereceram o maior apoio à
terapia-alvo em tipos de câncer agressivos e
comuns. Para muitos oncologistas, isto parecia
somar uma necessidade moral à demanda de
acelerar os testes de drogas combinadas. Foi em
uma abafada manhã de agosto que os principais
pesquisadores do melanoma de diferentes partes
do país se reuniram em Boston para discutir o
tema.
“Esta é a
principal reunião para os pacientes de melanoma
que já ocorreu em muitos anos”, disse o Dr Lynn
Schuchter, chefe de oncologia da Universidade de
Pensilvânia.
Estórias de
pacientes que haviam se recuperado ou recaído
com o medicamento da Roche funcionaram como um
impulso extra à reunião. Um ávido golfista de
Nova Jersey fez planos de realizar três partidas
debaixo de chuva quando o tumor em sua axila
havia retrocedido tanto que ele conseguia até
mesmo manusear o taco de golfe. Uma mulher de 30
anos, que antes de fazer parte do grupo de
testes tinha ouvido que deveria “focar mais na
qualidade do que na quantidade” de seus dias,
foi informada de que seus testes laboratoriais
não mais acusavam a presença de câncer.
O tempo médio para
a droga deter o crescimento do tumor tinha
aumentado para quase nove meses. Entretanto,
Mark Bunting, piloto de uma companhia aérea que
já tinha declarado ser o líder dentre os
participantes do teste, teve de ser levado às
pressas para uma cirurgia de emergência quando
um novo tumor perfurou seu intestino. E a
admissão de Christopher Nelson nos testes da
Glaxo tinha sofrido um atraso enquanto ele
recebia radiações para tratar tumores que
apareceram em seu cérebro.
Testes combinados
Depois de várias
discussões, os médicos tinham chegado a um
acordo sobre os dispositivos que regem a
combinação de recursos entre instituições e
Flaherty concordou em representar a aliança na
abordagem das empresas.
A primeira escolha
seria testar a droga B-RAF da Roche juntamente
com outra do mesmo laboratório. A Glaxo tinha
outros dois medicamentos desenvolvidos para
bloquear a mesma proteína. Os laboratórios
Novartis, Pfizer e Bristol-Myers Squibb também
tinham drogas que provavelmente funcionariam
melhor quando combinadas à de um concorrente. E
se eles ainda precisavam de mais algum
incentivo, os médicos estavam cada vez mais
impulsionados pelas frustrações de seus
pacientes.
“Porque eles não
podem juntá-las e realizar tudo de uma só vez?
Será que isso não daria mais chances a ele?”,
perguntava-se Sharlene, a esposa de Christopher
Nelson, quando ela e seu marido chegaram a Penn
no início de outubro para dar início aos testes
da Glaxo.
Os resultados da
última tomografia de Christopher Nelson
mostravam que o câncer se alastrava por seu
corpo. Doze tumores, apesar de inativos,
persistiam em seu cérebro, enquanto outro era
visível em seu pescoço. Pelas pessoas que a
Roche havia enviado para sua primeira reunião,
Flaherty podia prever que seu avanço seria
pequeno. Ele sabia que qualquer decisão
estratégica seria tomada em um nível mais alto.
Médicos crêem que
testar drogas combinadas pode dar mais tempo de
vida aos pacientes
Enquanto comiam
sanduíches em um escritório no centro de
Manhattan, ele foi oficialmente informado por
uma funcionária da Roche que os interesses de
seus pacientes seriam atendidos com a aprovação
da droga B-RAF para venda o mais rápido
possível. “Este deve ser nosso foco no momento”,
insistia a funcionária.
A solicitação
feita pelo Dr Meenhard Herlyn, proeminente
cientista pesquisador do melanoma, para conduzir
testes preliminares dos medicamentos no
laboratório encontraram a mesma resposta. “Sabe,
outras empresas estarão prontas para fazer
isso”, disse Flaherty. Porém, seu habitual ritmo
acelerado perdia velocidade enquanto ele
caminhava em direção à estação de trem
nova-iorquina Pennsylvania Station com Herlyn,
que tinha vindo da Filadélfia.
“Foi um
desperdício”, disse Herlyn sem rodeios. Depois
de se despedirem, por um momento Flaherty se via
em um estado de incerteza em relação a uma
mudança mais positiva.
Alguma esperança
Semanas depois,
quando Flaherty mais uma vez tentou vender a
idéia do teste combinado, desta vez em uma
reunião da Glaxo, um executivo insinuou que a
empresa iria patrocinar tal teste em breve. A
empresa tinha uma razão pragmática para isso: a
Roche provavelmente conseguiria a aprovação da
B-RAF primeiro, mas possivelmente a Glaxo
ganharia a liderança se tivesse uma combinação
mais eficaz. Estava se tornando cada vez mais
claro que alguns medicamentos-alvo somente
encontrariam um mercado se fossem combinados. “A
cultura está mudando”, concordou o executivo da
Glaxo.
Mas, para
Christopher Nelson, talvez fosse tarde demais.
No dia 5 de janeiro, sua esposa o transportou em
uma maca para a consulta em Penn. Três dias
depois, ele foi levado de ambulância à ala de
pacientes terminais de um hospital local. Em seu
velório, Sharlene contou a parentes que se
sentia abençoada por ele ter vivido mais que o
esperado. Juntos eles tinham comemorado o
aniversário de 21 anos de casamento. E ele tinha
ido com os filhos a todas as atrações aquáticas
do parque Six Flags Great Adventure. “Eu não
trocaria esse ano por nada”, disse ela. Um ano,
pensou Flaherty ao ouvir a notícia. Certamente
não era nenhum triunfo. Mas já era alguma coisa.
Algo a ser construído.
As empresas
Novartis e Bristol-Myers concordaram em agendar
teleconferências para o final do mês para
discutir a combinação de testes. Ele checou as
datas em seu calendário eletrônico. Uma reunião
com a Pfizer também está pendente.
Fonte:
Amy Harmon, The New York Times, 01/03/2010 18:00
Postado por Izabel Cristina da Fonseca,
2
de março de 2010.
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