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Mulheres gordinhas
enfrentam preconceitos e fantasmas no terreno
amoroso
Publicações de moda em todo o mundo têm colocado
mulheres reais em matérias e capas; a holandesa
Lara Stone faz sucesso usando um manequim maior
do que suas colegas e atualmente é a número 1 do
mundo; discussões sobre a magreza e saúde estão
presentes em semanas de moda nas principais
capitais mundiais. E, em São Paulo, foi
realizada em janeiro pela primeira vez a Fashion
Weekend Plus Size, evento promovido por lojas
especializadas no público GG e que contou com
mulheres com manequim entre 44 e 50 na
passarela.
Há um
movimento contra a ditadura da magreza que reina
dentro e fora das passarelas. Mesmo assim, a
vida real para quem está acima do peso não é
fácil. Principalmente para mulheres no
território amoroso. O terreno é tão complicado
que até as que se dizem bem-resolvidas mostram
ter lá suas neuras.
Na
TV, a cantora Preta Gil disse que apesar de ser
gorda, consegue ter muitos namorados. O
"apesar" na frase
já demonstra que mesmo ela acredita na
dificuldade de uma mulher fora das medidas
encontrar um namorado. "Eu
tenho os meus truques, eu tenho um bom papo, sou
simpática. Além disso, eu tomo iniciativa num
grau que beira a doença", afirmou."Preta
Gil pega todo mundo, come geral. Mas estou aqui
cheia de estrias. Na hora de transar comigo,
pode crer que eu vou apagar a luz", já disse a
cantora.
Medo
"Não tem como, elas têm
medo do olhar do outro", afirmou o
psiquiatra Arthur Kaufman, do Instituto de
Psiquiatria do Hospital das Clínicas em São
Paulo. "Muitas não vão à
praia, porque na fantasia delas todo mundo vai
parar para vê-las chegando. E o olhar do
parceiro também é perseguidor. E não consegue
suportar o olhar de outra mulher. Do outro lado,
a não ser em casos extremos, como uma celulite
escandalosa, não há homem que repare nesses
detalhes, mas para ela é a destruição",
disse Kaufmann, sobre as declaradas estrias de
Preta Gil.
Além
das declarações controversas de famosas, o
cinema também não ajuda.
"O casal protagonista é sempre magro e a jovem
gorda geralmente é a melhor amiga", diz
Kaufmann. "É um problema
de mulher para mulher. O olhar sobre a outra é
muito cruel. As obesas são vistas como
aberração, principalmente pelas magras, já que o
ser humano projeta para fora tudo o que não quer
para si", disse Patrícia Spada,
psicóloga, autora do livro Obesidade e
Sofrimento Psíquico e coordenadora do curso "A
Psicologia nos Distúrbios Alimentares",
ministrado pela Unifesp. Gordinhas não costumam
ouvir palavras de incentivo nem das amigas e, no
lugar, levam um "Acho que
não vai rolar com esse cara que você está a
fim."
Segundo a especialista, não vivemos uma ditadura
estética e, sim, da magreza.
"A estética hoje é vista
apenas de um ângulo. A pessoa pode estar
anêmica, mas como está magra, está tudo bem",
afirmou. Para Patrícia, resolver o problema para
essas mulheres, na maioria das vezes, passa
longe da balança. "É
questão de saúde e de realização pessoal,
tomando consciência dos seus muitos pontos
positivos, da sua personalidade, até porque
muitas não conseguem emagrecer mesmo",
disse.
Virada
O
segredo para a virada é começar a ter contato
com seu mundo interior, com o qual não se
relacionava porque estava encoberto por toda
atenção à gordura, e descobrir suas
potencialidades. "A mulher
muda por dentro, passa a ter autoconfiança, a
confiar no seu taco, seja adolescente ou adulta.
Elas entendem que sempre vai ter mulher mais
bonita do que você e esse não é ponto que faz
diferença", afirmou.
A
prova do que diz a psicóloga é a modelo
norte-americana Crystal Renn, que descreve sua
trajetória no livro Hungry (Faminta), lançado no
ano passado. "Eu sou o
exemplo de que você pode amar o tamanho que você
tem. Tive de perder 35 kg (junto com tufos de
cabelo, massa muscular, capacidade de
concentração e alegria de viver) antes de
encontrar minha sanidade. Eu engordei e nisso
obtive muito mais sucesso como modelo.
Aceitar-se como sou me devolveu a curiosidade
intelectual que tinha quando criança. Isso me
levou a ter sucesso na carreira, no amor. Sou a
prova de que a vida não tem de esperar até você
ficar magra", escreveu a modelo, uma das
mais famosas tops plus size atualmente, que usa
manequim 44 e que começou sua luta para perder
peso aos 14 anos, inspirada por uma imagem da
modelo Gisele Bündchen e pelos maus conselhos de
um funcionário de agência de modelos, que
recomendou que ela mudasse totalmente seu corpo.
Modelo
exclusiva
A
exemplo da modelo americana, Denise Presotto, 29
anos, é modelo exclusiva da grife Palank
Fashion, e está acima do peso há 10 anos.
Começou a engordar aos poucos após o casamento,
mas nunca teve problemas com peso.
"Sou feliz e não é porque
sou modelo. Trabalho na área há seis anos e hoje
tenho de comer para manter o peso",
disse. Apesar de bem-resolvida, Denise admite
que não é fácil ser gordinha.
"Quando vou fazer compras
não acho nada que me sirva nas marcas comuns,
não entro no GG ou nas peças 46 ou 48. E sinto
preconceito em alguns lugares, mas é preciso
tirar de letra", disse ela, que mede 1,75
m e pesa 88 kg.
Denise diz que suas amigas que estão acima do
peso são bem estressadas com a questão.
"Me falam que não sabem
como vivo feliz. E digo que quando você assume o
tamanho que tem, passa a viver bem. Passa a se
admirar, começa a se aceitar e percebe que
perdeu tempo buscando algo que nunca iria
atingir."
Fantasia
Segundo os especialistas, a grande maioria das
obesas que reclamam de sentimento de solidão e
de falta de sucesso na vida amorosa cultivam a
fantasia de que os homens só se interessam pelas
magrinhas e que elas não passam de acompanhantes
quando o programa é em grupo.
Rejeitam até os homens que dizem preferir
mulheres mais gostosonas, que têm onde pegar.
"Dizem que querem ficar
magras para si e não para os homens", diz
Kaufmann. Outro dado que interfere no sucesso da
vida amorosa é a rejeição por certos tipos de
homens, como os gordos.
"Acham que são homens de segunda categoria, que
estão sobrando assim como elas estão sobrando",
disse.
Fonte:
Especial para Terra, por Michelle Achkar
Postado por Izabel Cristina da Fonseca,
12
de março de 2010.
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