O manual do chato
Uma conversa agradável
é aquela que corre fácil, os assuntos surgem
naturalmente, a passagem de um assunto para o
outro acontece de uma forma imperceptível,
perde-se a noção de tempo. Tudo isso faz com
que ela seja percebida como prazerosa e
envolvente. Todos estes efeitos são resumidos
pela sensação de que há afinidade entre os
parceiros, que há motivação para conversar e
que o relacionamento entre eles vai de vento em
popa.
A conversa tem um papel
central em todos os caminhos para iniciar
relacionamentos amorosos, tais como na paquera
entre desconhecidos ou na transformação de
relacionamentos que já existem em
relacionamentos amorosos. O início de um
relacionamento amoroso entre desconhecidos não
consiste apenas em uma paquera à distância,
seguida da abordagem por uma das partes. Para
que este início seja efetivado, geralmente
existe o teste da conversa: os parceiros
conversam por um certo tempo para se certifiquem
de que são mutuamente compatíveis. Este papel
da conversa é bem ilustrado pela anedota
abaixo:
Duas amigas estão em
uma balada. Uma delas fica entusiasmadíssima
com alguém da mesa ao lado. Depois de um tempo,
ela e o rapaz começam a flertar. O rapaz a
aborda e começam um encontro alucinante. Tudo o
mais se torna secundário. A amiga vai embora,
porque sentiu que estava sobrando. No dia
seguinte, as duas amigas se encontram. A amiga
que tinha ido embora antes pergunta: “E
ai, está com aquele rapaz? Ontem, você estava
tão entusiasmada.”. A outra responde:
“Não. Ele me
decepcionou”. A amiga, muito espantada,
pergunta: “Porque?”
A outra responde: “Quando
saímos da balada consegui ouvir direito o que
ele dizia!”
Vamos
examinar agora algumas formas específicas de
ser chato através da conversa. O objetivo
deste artigo, obviamente, é contribuir para
que você tome consciência e evite estes
tipos de comportamentos.
Os
chatos na conversa seguem duas regras gerais e
diversas regras específicas. As regras gerais são:
(1) “Não
considere o seu interlocutor.” e
(2) “Não
faça qualquer esforço para que o seu
relacionamento com ele seja agradável,
edificante, respeitoso, divertido e motivador”.
As maneiras específicas serão apresentadas
abaixo.
Maneiras específicas de ser chato em uma conversa
Infelizmente existem várias
maneiras de ser chato em uma conversa. Vamos
examinar aqui apenas algumas das principais.
Forçar conversas e temas
Nem sempre é possível
conversar com uma pessoa ou tratar de um
determinado tema com ela. Existem vários tipos
de motivos para esta impossibilidade: quando
pelo menos uma das partes considera que a outra
não é um interlocutor adequado (por exemplo, o
interlocutor é alguém desconhecido que faz uma
abordagem na rua), quando o momento não é
adequado (por exemplo, uma das partes está sem
tempo) quando existem dificuldades para
localizar assuntos adequados e envolventes
naquele momento (“Não ter nada para conversar
naquele momento”), etc.
Quem faz uma ligação telefônica deve se certificar se está
interrompendo
O telefonema em momentos
inconvenientes é um caso freqüente de
conversas forçadas. Quando ligamos para uma
pessoa nunca sabemos o que ela está fazendo. É
bom sempre começar uma ligação perguntando:
“Estou interrompendo
alguma coisa?” ou algo equivalente.
Caso o outro dê algum sinal que sim, quem ligou
deve se prontificar em dizer: “Te
ligo outra hora”, ou algo do gênero.
Também ajuda muito quando quem recebe uma ligação
inconveniente diz, assim que atender ao
telefone: “Olá, fulano.
Tudo bem? É urgente? Posso te ligar daqui a
pouco?” ou algo do gênero.
Monopolizar os papéis de falante ou de ouvinte.
Para que haja uma
conversa é necessário que haja alternância
nos papéis de ouvinte e falante. Caso isto
deixe de ocorrer, o acontecimento não é um diálogo.
Pode ser um monólogo, uma palestra, uma declaração
ou algo do gênero. Esta falha na alternância
de papéis tanto pode ocorrer porque um dos
interlocutores não quer abrir mão do seu papel
de falante ou de ouvinte. O primeiro caso (“pessoas
que falam demais”) é mais comentado
por aí do que o segundo (pessoas que “ouvem
demais” ou “pessoas que falam de menos”).
Falar demais. O falante
compulsivo se dá ao direito de fazer todas as
associações e desenvolver todos os assuntos
que vão lhe passando pela cabeça. Ele só está
interessado em se exibir, desabafar ou produzir
determinadas reações no ouvinte. Não está
interessado no que se passa com este. Falar
demais anula o ouvinte e impõe-lhe um problema:
ou suporta aquele falante desagradável ou age
de uma forma rude para interrompê-lo. Duas
medidas são sugeridas para evitar falar demais:
(1) falar no máximo por cinco minutos e passar
a palavra e (2) mencionar os temas e só
desenvolvê-los à medida em que o interlocutor
manifeste interesse.
Recusar a palavra.
Algumas pessoas se recusam sistematicamente a
ocupar o papel de falantes. Quando são
pressionadas a fazê-lo, falam o mínimo possível
e da forma menos comprometedora possível. Isto
cria uma conversa assimétrica e, geralmente,
pouco interessante. A pessoa que fala pouco
contribui menos, deixa de expor a sua posição,
dá a impressão de pouco interesse e de falta
de confiança em si mesmo e no interlocutor.
Esta forma de participação é insatisfatória
principalmente para os interlocutores que não são
compulsivos para falar.
Empurrar para o outro
toda a tarefa de manter a conversa. Algumas
pessoas não se sentem obrigadas a contribuir
para o sucesso da conversa. Não se esforçam
para agradar e para fazer o interlocutor se
sentir bem. Aparentemente adotam a seguinte
regra: “O outro que se
vire para tornar as coisas interessantes. Vou
ficar na minha.”
Existem várias formas
de não contribuir para que a conversa fique
interessante: não ajudar a procurar assuntos, não
conduzir conversas amenas enquanto não aparece
um assunto mais interessante, não funcionar
como ouvinte ativo, não puxar assuntos, não
mostrar envolvimento, não se manifestar (nem
mesmo quando estiver achando a conversa
interessante), não ajudar a manter e a
desenvolver os assuntos propostos pelo
interlocutor, entre outras.
Mostrar desatenção
Esta forma é ainda mais
grave de ouvir passivamente. O ouvinte passivo
mostra sinais fracos de interesse e
envolvimento. O desatento deixa de apresentar os
sinais de atenção ou mostra sinais de atenção
para outras coisas como, por exemplo, ficar
olhando para o que está ocorrendo no ambiente
ou apresenta sinais de que quer continuar a se
concentrar em outra atividade (continua com um
livro aberto na mão, continua com o corpo
orientado para a televisão ligada etc.).
Interromper demais
Certa vez fiz a seguinte
experiência com meus alunos: fiz uma pergunta
para um deles. Assim que ele começou a
responder eu fiz outra pergunta. Assim que ele
começou a responder esta segunda pergunta eu
apresentei uma terceira, e assim por diante.
Geralmente três ou quatro perguntas e interrupções
de respostas deste tipo eram suficientes para
fazer o aluno ferver de raiva. Ele se mostrava
perturbado, frustrado e agressivo comigo. Só se
acalmava um pouco quando eu explicava que este
procedimento estranho e rude tinha o objetivo de
demonstrar os efeitos da interrupção.
A interrupção pode
acontecer em diversos contextos: no meio de uma
palavra, no meio de uma frase, no meio de uma idéia
ou de um tema. Uma quantidade moderada de certos
tipos de interrupção pode ser bem-vinda. Por
exemplo, as interrupções para fins
esclarecimento (de um termo ou idéia), para
mostrar o interesse e envolvimento do ouvinte no
que está sendo dito, as interjeições ou
comentários breves, que não exijam respostas
elaboradas, podem indicar envolvimento do
ouvinte, o que é motivador para o falante.
Dar conselhos não solicitados
Muita gente confunde
quando o interlocutor quer apenas relatar ou
desabafar sobre um acontecimento com um pedido
de conselhos. Os homens cometem muito este tipo
de erro. As mulheres odeiam, por exemplo, quando
começam a contar um fato aborrecido que ocorreu
no trabalho e o marido logo se apressa em
sugerir medidas que ela deveria tomar. Este tipo
de conselho na hora errada encerra a fase de
desabafo. Isto acontece principalmente quando o
conselheiro espera que o outro passe a
considerar aquilo que aconselhou e fica irritado
quando o outro mostra resistência e não dá
sinais de que vá implementar o sugerido.
Ladrão de holofotes
Neste caso, o chato
segue a seguinte regra: “O
que aconteceu comigo é mais importante do que o
que aconteceu com você”. “A minha notícia
é mais interessante do que a sua”.
Quando este tipo de
chato atua, a pessoa que introduziu o tema não
consegue obter o impacto que queria. O tema pode
continuar em pauta, mas agora quem o expressa é
o ladrão. Ele continua a tratar do tema que o
outro apresentou, mas da forma que o interessa:
como o fato o afetou, como ele o vê, como
tratou dele, enfim, como é mais importante a
sua relação com o tema e do que daquele que o
introduziu. Ele adquire o controle do tempo, da
palavra e da forma.
Evitar
ser chato já é meio caminho andado para uma
boa conversa.
Ailton
Amélio da Silva é doutor em Psicologia,
psicólogo, psicoterapeuta e professor da
USP, em São Paulo (SP). É autor de vários
estudos científicos sobre relacionamentos
amorosos e dos livros "O Mapa do
Amor", "Para Viver um Grande
Amor" e o mais recente
"Relacionamento Amoroso: Como Encontrar
Sua Metade Ideal e Cuidar Dela".
Fonte:
Provedor
UOL, por Ailton Amélio da Silva
Postado
por Izabel Cristina da Fonseca, dia 5 de maio de
2010 (12.687)
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