Os homens querem sexo e as
mulheres, relacionamento?
Muitas
mulheres têm a impressão de que os homens não
querem nada sério na área do relacionamento
amoroso, que só querem sexo. Por outro lado,
sabemos que namoros continuam sendo iniciados,
que muita gente está indo morar junto e os
casamentos continuam acontecendo. Como
entender este paradoxo? Este é o tema que
vamos examinar neste artigo.
Você aceitaria um
convite para sexo casual?
Suponha que uma pessoa
desconhecida do sexo oposto se aproxime de você
e peça um minuto da sua atenção. Esta pessoa é
medianamente atraente, tem aproximadamente a sua
idade e, pela sua aparência, pelo seu jeito de
falar e pelo local onde vocês se encontram, dá a
impressão de ser do mesmo nível socioeconômico
que o seu. Imagine que, após uma breve
introdução, esta pessoa convide você para dormir
com ela. Você aceitaria? Este e outros tipos de
convites foram objetos de uma pesquisa realizada
nos Estados Unidos por R. D. Clark e E. Hatfield.
Estes autores pediram para alguns dos seus
alunos, de ambos os sexos, que apresentassem
convites para colegas desconhecidos do sexo
oposto que estavam passando por locais públicos
da universidade que freqüentavam. Havia três
convites possíveis. Um destes convites era para
saírem juntos naquela noite; o segundo convite
era para ir ao apartamento do convidador naquela
noite e o terceiro convite era para dormirem
juntos naquela noite. Cada convidador abordava
colegas desconhecidos e, após uma breve
introdução (“Eu já notei
você outras vezes aqui no campus. Eu acho você
muito atraente.”), apresentava um dos
três convites acima. O convite a ser feito em
cada abordagem era sorteado de antemão. O
convite para saírem juntos foi aceito por
aproximadamente 50% dos convidados,
independentemente dos seus sexos. O convite para
ir ao apartamento do convidador foi aceito por
aproximadamente 6% das mulheres e por 69% dos
homens. O convite para dormirem juntos não foi
aceito por nenhuma das mulheres e foi aceito por
75% dos homens. As percentagens de aceitação dos
dois últimos tipos de convite mostram a tremenda
diferença nas atitudes de homens e mulheres
quanto ao sexo casual: a maioria dos homens os
aceitou e quase nenhuma mulher fez o mesmo.
Um problema desta pesquisa é que os convidados
poderiam temer possíveis conseqüências negativas
por aceitar tais convites (por exemplo, quem
apresentou o convite poderia ser um assaltante
ou poderia divulgar o acontecimento para pessoas
conhecidas). Uma outra pesquisa realizada por
Donald Symons e Bruce J. Ellis, dois famosos
estudiosos da sexualidade humana, tentou
contornar este tipo de problema pedindo aos
participantes que imaginassem uma situação
hipotética onde não haveria nenhum tipo de
conseqüência negativa para a aceitação do sexo
casual. Tendo como pano de fundo este tipo de
situação ideal, homens e mulheres responderam um
questionário anônimo que perguntava, entre
outras coisas, se aceitariam sexo casual com
diferentes tipos de parceiros em diversos tipos
de situações. Nesta pesquisa, como na anterior,
muito mais homens do que mulheres disseram que
aceitariam o sexo casual: por exemplo, as
percentagens de pessoas que responderam que
aceitariam “com certeza”
o sexo casual sem conseqüências foram de 41,1%
para os homens e 8,2 % para as mulheres.
Eu também já constatei diversas vezes este tipo
de diferença entre homens e mulheres. Por
exemplo, durante algumas das minhas aulas sobre
sexualidade, passei uma folha de papel dividida
em quatro partes. Em cada uma destas partes
estava escrita uma das seguintes faixas de
percentagens: 0 a 25%, 26% a 50%, 51% a 75% e
76% a 100%. Pedi então para os alunos presentes
que colocassem um X em uma destas quatro áreas –
naquela que corresponderia à percentagem de
pessoas presentes na sala com as quais eles
transariam sem compromisso. Embora houvesse
certa variação entre as turmas que participaram
deste levantamento, as diferenças nas respostas
de homens e mulheres sempre foram gritantes: a
maioria dos homens declarava que transaria com
mais da metade das mulheres presentes e quase
todas as mulheres declaravam que não transariam
com nenhum dos presentes nestas condições.
Os seres humanos são
moderadamente poligâmicos
Muitos homens que estão em um
relacionamento e se interessam por uma nova
parceira, se pudessem não terminariam o
relacionamento atual, mas acresceriam a nova
parceira. É a nossa herança poligínica: cerca de
oitenta por cento das culturas catalogadas em
estudos antropológicos consideram a poligamia
moderada, do tipo poliginia (um homem e várias
mulheres), como o modelo ideal de relacionamento
conjugal. As mulheres também têm alguma
propensão para a poligamia do tipo poliandria
(uma mulher e vários homens). Por exemplo, os
levantamentos mais recentes indicam que as
percentagens de traições femininas se
equipararam às masculinas. Outra evidência:
exames genéticos de paternidade realizados com
amostras representativas da população de alguns
países indicam que quase 10% das crianças não
são filhos dos pais presumidos. Ou seja, são
filhos de alguém que não é o companheiro
habitual.
Por que muitos homens
somem após transar pela primeira vez com uma
mulher?
Um motivo para isso é que
muitos homens aceitam transar com mulheres que
só preenchem os seus requisitos como uma
parceira sexual, mas não como uma parceira com
quem ele se envolveria ou se comprometeria. O
inverso acontece mais raramente porque, para as
mulheres, os requisitos para parceria sexual e
para um envolvimento afetivo e comprometimento
são mais parecidos.
D. T. Keinrich, famoso pesquisador americano, e
seus colaboradores realizaram uma pesquisa que
mostrou que as exigências das mulheres para ter
sexo casual com um homem são parecidas com
aquelas que elas têm quando querem ter um
relacionamento mais compromissado com eles. Ou
seja, após o sexo casual, o relacionamento pode
evoluir para um relacionamento afetivo e
compromissado com o mesmo parceiro.
Certa vez ouvi uma afirmação, um tanto cruel e
machista, mas que ilustra bem este tipo de
critério. Um homem afirmou que diferenciava as
mulheres com as quais ele só queria para sexo
daquelas com quem teria um relacionamento
através do seguinte critério: “Com
esta mulher eu transaria, mas não andaria de
mãos dadas no shopping”.
Os homens disfarçam
suas intenções quando só querem sexo
O interesse exclusivo em sexo
casual geralmente não é revelado abertamente
pelo homem. Muitas vezes nem ele próprio está
consciente desta exclusividade de interesse.
Segundo alguns estudiosos da mentira, a melhor
maneira de enganar alguém é enganar a si
próprio, em primeiro lugar. Quando um homem
sente apenas atração sexual por uma mulher, ela
pode parecer mais fascinante, em outros
sentidos, para ele. Ele pode ficar extasiado com
ela, se “derreter”
com tudo que ela diz, “ter
olhos só para ela”, e assim por diante.
Neste caso, assim que ele termina de transar com
ela, toda a sua energia se esvai. Daí para
frente fica um sacrifício conversar ou ser
carinhoso com ela. Assim que se satisfaz,
aparece uma grande vontade de ir embora ou virar
para o lado e dormir. Neste momento ele começa a
pensar: “O que estou
fazendo aqui?”. Quando ele é delicado,
aparecem considerações do tipo: “Qual o mínimo
de tempo e de atenção que devo dar a ela antes
de terminar o encontro?” ou “Qual a maneira
menos rude de terminar este encontro e ir
embora?” Quando a mulher constata que o grande
interesse do homem sumiu após o sexo, ela se
sente enganada e “usada”.
O dia seguinte
Um estudo americano mostrou
que a maior diferença entre homens e mulheres
ficava mais visível no dia seguinte ao sexo
casual. Este estudo foi realizado com os
estudantes mais “sexualmente
liberados” de uma
universidade americana − aqueles que já haviam
transado com dezenas de parceiros diferentes e “separavam
sexo de afeto”. Este estudo constatou que
estes homens e mulheres eram muito semelhantes
em praticamente todas as características
psicológicas estudadas (por exemplo, grau de
ajustamento social e atratividade). A única
diferença entre eles foi observada nos dias que
se seguiam aos episódios de sexo casual. Nestes
dias os homens pensavam mais ou menos assim: “Será
que vai dar para continuar a transar com ela
esporadicamente sem que ela pressione por
compromisso?” As mulheres pensavam mais
ou menos assim: “Será que
ele vai me ligar? Será que o seu interesse era
mesmo só sexo?”. Elas eram mais propensas
a este tipo de pensamento mesmo quando estavam
muito seguras de que só queriam sexo casual com
aquele parceiro antes de o sexo acontecer. Ou
seja, para estas mulheres experientes e
liberadas, o sexo explicitamente casual criava
certa expectativa de relacionamento amoroso com
o parceiro. Para os homens, a expectativa era
poder continuar a ter sexo casual sem qualquer
tipo de pressão para compromisso.
Por que os homens são
diferentes das mulheres em relação ao sexo
casual?
Existem dois motivos
principais. O primeiro deles é mais conhecido e
por isso não será aprofundado aqui: vivemos em
uma sociedade machista que permite e incentiva o
sexo casual por parte dos homens e o condena por
parte das mulheres. O segundo motivo, menos
conhecido e mais polêmico, é a existência de uma
certa propensão genética para homens e mulheres
encararem de forma diferente a prática sexual.
Este tipo de motivo é apresentado pela teoria
psicobiológica, que afirma que as mulheres são
mais cuidadosas (exigentes) do que os homens
para aceitar sexo porque para elas o sexo podia
trazer conseqüências maiores do que para eles,
durante boa parte da história evolutiva da nossa
espécie – elas podiam engravidar. Os
anticoncepcionais eficientes só foram inventados
recentemente e provavelmente ainda não tiveram
nenhuma influência em desfazer ou amenizar este
tipo de propensão. Aquelas mulheres que exigiam
alguma evidência de que os homens estavam
afetivamente ligados a elas e que manifestavam
alguma intenção de se comprometerem com elas
foram premiadas – tinham mais chances de que
seus filhos sobrevivessem devido à presença do
homem para compartilhar os inúmeros encargos que
surgem durante a gravidez, parto e criação de um
filho (por exemplo, defesa, alimentação,
cuidados contra as intempéries). Para eles, o
sexo sempre teve menores conseqüências. Era “mais
barato” e podia ser
muito lucrativo. Um famoso pesquisador desta
área afirmou neste sentido: “
Tudo que eles tinham a
perder com o sexo casual eram míseros
espermatozóides. Podiam ganhar algo
valiosíssimo: descendência!”
Os homens só querem
sexo?
Estes estudos mostram que os
homens só querem sexo? Claro que não! Os homens
também se apaixonam, necessitam de um
relacionamento afetivo e se comprometem
profundamente com suas parceiras. Estas
pesquisas mostram apenas que eles estão mais à
procura de sexo casual do que elas.
Embora os homens sejam ávidos por sexo sem
compromisso, eles também sentem falta de um
relacionamento afetivo e comprometido. Por tudo
que já vi nesta área, estou convencido que nós
homens precisamos tanto quanto as mulheres, ou
talvez até mais que elas, de um relacionamento
profundo e comprometido. Vários estudos apontam
nesta direção. Por exemplo, uma pesquisa
verificou que a expectativa de vida de homens
que se separaram e ficaram sós daí para frente
era menor do que a dos homens que continuaram
casados. Outra evidência desta necessidade: dois
terços das separações são pedidas pelas
mulheres. Isto indica que as mulheres fazem mais
questão de iniciar relacionamentos e se
comprometerem, mas os homens hesitam mais em
sair deles.
A tarefa das mulheres, portanto, não é
distinguir os homens que procuram sexo casual
daqueles que não o procuram – quase todos
procuram ou, pelo menos, o aceitam. A tarefa
mais importante é identificar aqueles homens
que, apesar de aceitarem sexo casual, também
estão abertos para um envolvimento afetivo e
para um compromisso e que têm condições de serem
fiéis quando isto acontecer.
Não tenho nada contra aqueles
que optam pelo sexo casual em uma certa época de
suas vidas ou até mesmo de uma forma permanente.
Cada um pode fazer aquilo que prefere, que tenha
condições e que não cause danos a terceiros. Por
outro lado, a opção pela monogamia também é uma
ótima opção. Creio também que, embora tenhamos
uma propensão moderada para a poligamia, ela
pode ser controlada e que ser fiel tem os seus
frutos positivos. Neste caso, a qualidade
compensa mais do que a quantidade!
Ailton
Amélio da Silva é doutor em Psicologia,
psicólogo, psicoterapeuta e professor da USP,
em São Paulo (SP). É autor de vários estudos
científicos sobre relacionamentos amorosos e
dos livros "O Mapa do Amor", "Para Viver um
Grande Amor" e o mais recente "Relacionamento
Amoroso: Como Encontrar Sua Metade Ideal e
Cuidar Dela".
Fonte:
Provedor UOL, por Dr. Ailton Amélio da Silva
Postado por Izabel Cristina
Fonseca, em 19 abril 2010 (12.451)
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