Vínculo afetivo entre pais
e filhos se consolida quando não é uma
obrigação
Projeto de lei propõe que pais que
faltarem com as obrigações emocionais
podem ser presos
Há que diga que o amor
entre pais e filhos é incondicional,
porém, muitas crianças e adolescentes
sofrem, desde cedo, com a ausência ou
maltratos característicos da violência
doméstica. De acordo com o Ministério da
Saúde e dados do Unicef, só em 2008, foram
mais de 18.000 crianças e jovens agredidos
no Brasil.
A cada uma hora, uma entre quatro
crianças, sofre agressões físicas e
psicológicas causadas pelos pais. Visando
a redução destes números alarmantes, dois
projetos de lei, que tramitam na Câmara
dos Deputados, se propõem a interferir na
relação entre
pais e filhos, prevendo punição legal,
incluindo indenização por danos morais e
detenção, para os pais que não cumprirem
suas obrigações materiais, morais e,
agora, afetivas com os filhos.
Segundo os dois
projetos de lei, os pais devem aos filhos,
amor, educação e atenção, cuidados
indispensáveis para que eles se
desenvolvam livres de carências e feridas
que causem cicatrizes e traumas (físicos
ou emocionais). Por outro lado, os
filhos devem aos pais idosos os mesmos
cuidados. Mas até que ponto é possível
medir o afeto? Ou ainda, como a falta dele
pode ser prejudicial em algum momento da
vida?
"É importante uma
lei que regulamente e assegure aos
desamparados afeto e atenção, porém,
deve-se pesar na balança até que ponto
estes cuidados, colocados como obrigação,
são bem-vindos e sadios para crianças e
jovens. Pode ser que a solução traga mais
inquietações do que benefícios",
explica a psicóloga Patrícia Spada.
Incondicional ou
construído?
Para Patrícia, o amor entre pais e filhos
depende muito do ambiente e das
circunstâncias em que se desenvolve.
"O amor e os laços
de
afeto são inatos
entre mães e filhos e construídos entre
pais e filhos, porém, nada disso faz muita
diferença se o ambiente em que a família
vive for repleto de dores e culpas",
explica a psicóloga.
"O ideal é manter o respeito e o amor,
pois assim os laços se estreitam e a
relação fica mais gostosa e cheia de
cumplicidade", continua ela.
"Processar ou
prender os pais resolve o problema
material, mas não alivia a dor".
Falta de afeto x
mimo
Mesmo recebendo todo o carinho e atenção
necessários, crianças e jovens, em algum
momento da vida, vão se sentir
desprezados. Mais do que simples manha,
este sintoma caracteriza uma fase natural
da infância e juventude, portanto merece
atenção.
Entretanto, Patrícia alerta para os
perigos da aprovação do projeto de lei em
relação a esta característica dos filhos:
"Não tem como medir
até que ponto é birra ou se é maltrato. As
crianças não têm autonomia para lidar com
esta responsabilidade e não sabem a
dimensão de uma punição legal, mas
ouvi-las é uma iniciativa importante na
hora de tomar decisões relativas ao seu
desenvolvimento", explica.
Ruim sem amor, pior
com punição
"Não dá para obrigar
alguém a amar. O amor se constrói em cima
de bases sólidas, não de obrigações, senão
deixa de ser amor", diz Patrícia.
A psicóloga explica ainda, que existem
alguns fatores de risco para um bom
vínculo afetivo entre pais e filhos e que
a punição e a interferência judicial podem
não ser as melhores maneiras de
superá-las. "Se já
está difícil formar laços com a
convivência, é quase impossível resolver o
problema com a polícia intermediando a
relação. É traumático para quem denúncia e
para quem é acusado", afirma a
psicóloga.
Fatores de risco para o bom vínculo
afetivo entre pais e filhos. Para
Patrícia, os principais aspectos que
influenciam na relação entre pais e filhos
são:
1) Gravidez
indesejada
2) Conflitos no matrimônio
3) Problemas no trabalho
4) Falta de referências positivas de
família e amor em decorrência da
ausência dos pais
5) Infância traumática
Traumas para os pais
-Se os pais não agem intencionalmente e
são movidos por algum dos fatores de
risco, tendem a enfrentar problemas ainda
mais sérios de depressão e angústia.
"Nestes casos, os pais não fazem por mal,
e daí vão se sentir cada vez mais
culpados. É preciso procurar ajuda
psicológica", explica Patrícia.
Os filhos são os que
mais sofrem
"Além de já se
sentirem rejeitados, os filhos ficam
expostos a todos os traumas decorrentes
não só do abandono, mas também da
culpa pela punição que os pais
recebem", explica Patrícia. Outros
fatores bastante importantes nesta questão
são os efeitos contrários desta punição.
Diante do "poder"
de deter as principais autoridades
da sua vida, os filhos podem desenvolver
comportamento agressivo e egoísta, quando
adultos, por crescerem acreditando que são
capazes de vencer qualquer obstáculo, já
que venceram até seus próprios pais.
"Processar ou
prender os pais resolve o problema
material, mas não alivia a dor, ao
contrário, a intensifica, pois, se antes
os pais eram ausentes, agora, toda uma
série de referências familiares se desfaz,
e a criança se perde em meio a violência
psicológica a qual é submetida",
continua.