Pais Tóxicos, por Suzane G.
Frutuoso
Em
1966, a inglesa Constance Briscoe, então
com 9 anos, chegou da escola exultante
carregando um envelope marrom, que se
apressou a entregar para a mãe, Carmem.
Dentro dele, fotos que a menina havia
tirado na escola. Ao olhar as imagens,
Carmem repetia: "Jesus amado, eu que pus
isso no mundo? Deus, como ela pode ser tão
feia? Feia, feia... Você quer que eu
compre essas fotos?", perguntava à filha.
Foi apenas uma das milhares de humilhações
que a criança sofreu na infância. Ofensas
como "vagabunda
safada" foram constantes. Ela
também era espancada por fazer xixi na
cama, uma enurese que se manifestava
justamente por causa do medo da violência
materna. Socos na cabeça e no peito eram
desferidos contra Constance e seus
mamilos eram beliscados com força, sempre
por motivos banais (ou sem motivo). A
ponto de, aos 11 anos, ela tentar o
suicídio bebendo água sanitária. Esse
retrato de terror está no livro
"Feia - A História
Real de uma Infância sem Amor" (Ed.
Bertrand), escrito por Constance, hoje
uma renomada juíza. A obra, que já vendeu
meio milhão de cópias em dezenas de países
e tem tradução brasileira, é um exemplo de
como aqueles que deveriam amar acima de
tudo podem ser os algozes dos próprios
filhos.
Os pais
tóxicos, classificação cada vez mais usada
na psicologia, agridem física e
psicologicamente, causando seqüelas que se
arrastam por toda a Vida.
Quando as agressões vêm
de pessoas como um cônjuge, ou até um
chefe, é possível pedir divórcio ou
demissão. Mas se a crueldade está dentro
de casa, o que fazer?
Constance carregou o
trauma durante anos.
"Minha maior dor era nunca ter vivido num
lar decente",
disse a autora à ISTOÉ. Ao ingressar na
Universidade de Newcastle, na Inglaterra,
para cursar direito, ela jurou que nunca
mais falaria com Carmem. Cumpriu a
promessa. Construiu uma carreira
vencedora, casou, teve dois filhos.
Submeteu a cirurgias plásticas no nariz,
na boca e nos olhos, numa tentativa de
modificar que a mãe dizia ser horroroso.
Superou as adversidades relatando suas
tristes memórias, Carmem a processou por
causa do livro. Perdeu. Nenhum pai ou mãe
está livre de falhar, perder a paciência
ou a compostura. Mas agir com perversidade
ultrapassa os limites aceitáveis - de
qualquer relacionamento.
"E a humilhação
vinda daqueles a quem se ama é muito mais
dolorosa", diz a psicóloga Márcia
Marques, da Clínica Medicina do
Comportamento, no Rio de Janeiro.
"É como se houvesse uma confirmação para
a pessoa de que ela não é boa o suficiente
para receber afeto."
"Aprendi que, para conviver com
minha mãe, preciso manter uma
distância saudável" M.N., analista
de sistemas, 26 anos
A
postura dos pais tóxicos deixa graves
seqüelas, normalmente levadas para a vida
adulta. As conseqüências são
agressividade, dificuldade de aprendizado,
rebeldia, timidez e um enorme sentimento
de culpa. "Sempre
que alguma coisa sai do controle, seja no
trabalho, seja na minha vida pessoal,
acho que o erro é meu", diz a
analista de sistemas M.N. (ela prefere não
se identificar), 26 anos. Junto com os
três irmãos cresceu ouvindo a mãe dizer
que eram incompetentes burros e que ela
deveria ter abortado todos. Até começar a
freqüentar a casa dos amiguinhos da
escola, M. acreditava que esse
comportamento era normal.
"Ela nunca me fez um cafuné",
recorda. O resultado da violência
emocional para a jovem foi à síndrome do
pânico, distúrbio com o qual conviveu por
dois anos.
Mesmo quando os pais
alternam atitudes carinhosas e
agressivas, o reflexo no desenvolvimento
dos filhos é negativo.
"A criança nunca sabe o que esperar e nem
como agir", diz
o psicólogo Júlio Peres, autor do livro
"Trauma e Superação - O que a Psicologia,
a Neurociência e a
Espiritualidade Ensinam" (Ed. Roca). "Ela
cresce num estado de alerta, o que causa
uma ansiedade que se torna crônica."
A escritora P.O.,
45 anos, lembra de a mãe ser amorosa com
ela em várias situações. Mas também sabe o
quanto ela pode ser cruel quando quer
ofendê-la.
"Uma vez, aos 11 anos, coloquei um biquíni
e ela me repreendeu, dizendo para eu
tirar aquilo porque estava enorme de
gorda."
Anos mais tarde,
a escritora enfrentou a anorexia e a
depressão.
Há diferentes
explicações para compreender por que
esses pais agem assim. Caso uma criança
tenha nascido num momento de dificuldade
financeira, perda ou tristeza, eles podem
criar bloqueios para a construção de uma
ligação afetiva.
"Eles atribuem o problema à vinda do
filho", diz a psicóloga Rosa Maria
Mariotto, professora da Pontifícia
Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).
Outra hipótese é que esses pais também
tenham sido maltratados na infância. Eles
assimilam o que sofreram como sendo a
forma de educar e passam de vítimas a
agressores. E a última possibilidade é
admitir que há realmente pessoas
desprovidas de afeto.
"Mães e pais perversos existem",
diz Rosa.
A constatação coloca na
berlinda o chamado amor incondicional.
Esse sentimento,
dizem os especialistas, é uma construção
moldada de acordo com os desejos de cada
um. Não é intuitivo, como defende a crença
popular.
"É uma questão cultural, imposta pela
sociedade", diz a psicóloga Márcia.
O amor incondicional só existe se os pais
desenvolveram ao longo da vida recursos
para lidar com as adversidades e as
mudanças. Porque um filho muda tudo. E
quem não está preparado para se doar no
papel de mãe ou pai, abrindo mão de uma
série de vontades, acaba considerando o
nascimento da criança um estorvo.
"É um erro acreditar que o fato de uma
mulher dar à luz faz dela naturalmente uma
boa mãe",
destaca a juíza Constance.
Aprender a lidar com
esse sentimento é fundamental e as
terapias em família são indicadas quando
surgem problemas. Já para quem chegou à
vida adulta traumatizado pela relação
tóxica, a psicoterapia é um caminho. Se
transtornos mentais mais graves forem
manifestados, são necessários o
diagnóstico e o tratamento com remédios,
determinados por um psiquiatra. Para
muitas das vítimas, o tratamento inclui
passar a ter uma relação superficial com
os pais.
"Aprendi que, para conviver com minha mãe,
preciso manter uma distância saudável",
diz a analista de sistemas M., que voltou
a falar com a mãe em novembro, depois de
dois anos afastada. Em outras histórias,
cortar relações é o único meio de alcançar
equilíbrio emocional. Foi o que fizeram
Constance e a escritora P.
Mas superar as
tristezas também é possível. A
reconciliação do agente de saúde
catarinense Paulo César Nascimento, 30
anos, com o pai, Francisco, 54, é a prova.
Filho mais velho, Paulo (que é gay)
cresceu pressionado pelas expectativas do
pai, homem de uma geração em que ser
"macho"
e provedor era
lei. Francisco não dizia nada, mas se
irritava quando o filho parecia mais
sensível que os outros meninos.
"Cheguei a apanhar por ser chorão",
lembra. Ele sempre ouvia do pai
"prefiro um filho morto a um filho gay".
Aos 18 anos, não suportou mais. Deixou
clara sua opção durante uma discussão e
foi colocado para fora de casa. Em 2004,
aconteceu a última briga grave entre
eles. "Por um ano, o
risquei da minha vida totalmente",
lembra Paulo. Após o longo silêncio, o
pai procurou o filho e pediu desculpas.
"Sei que não foi fácil para ele e imagino
que ainda não seja. Mas valorizo seu
esforço e percebo o quanto ele me ama",
diz o rapaz, orgulhoso do pai, que mudou
de atitude sozinho. Um raro exemplo de
final feliz nessas relações traumáticas.
Mas que mostra que o amor pode curar até
as piores feridas.
Fonte: Revista ISTOÉ,
Março 2010, por Suzane G. Frutuoso
Postado por Izabel Cristina
Fonseca, em 10 março
2010
(11.524)
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