Cuidando dos Filhos

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O que a violência está fazendo com a cabeça dos nossos filhos. Como lidar com o medo deles e o nosso!

A QUESTÃO É COMPLEXA E URGENTE. QUE IMPACTO A INSEGURANÇA PERMANENTE TEM SOBRE   ADOLESCENTES E CRIANÇAS? E COMO PAIS E ESCOLAS PODEM AJUDÁ-LOS A SUPERAR O  PROBLEMA?

Thiago tem 3 anos. E já sabe o que é violência. Entende que os avós mudaram de casa porque ela foi "invadida pelo lobo mau"- como sua mãe, Silvia MacFarland, explicou. A entrada de ladrões. Dia desses, ele percebeu o perigo e ficou quietinho no banco de trás do carro quando o outro avô,que o deixava na escola,foi rendido por bandidos que rodaram com os dois até um caixa eletrônico. Naquela noite, o menino, que gosta de se fantasiar de Batman,contou à mãe que "pessoas idiotas" entraram no carro.Também este ano ele aprendeu que existe uma "briga de adultos nas ruas de São Paulo" e por isso sua turminha saiu mais cedo das aulas. Foi durante os ataques da organização criminosa PCC, que levaram a escola onde estuda a enviar uma circular orientando os pais a informar os filhos sobre o que se passava. "É triste que, tão pequeno, Thiago já tenha visto e ouvido tantas coisas ruins", lamenta Silvia.

Que impacto tem a violência cotidiana sobre crianças e adolescentes? E como pais e escolas vêm lidando com isso? A complexidade do tema começa pelo fato de que esse conceito não existe no singular, e sim no plural: as violências são variadas. "O menino que vive na favela e bate a sua carteira comete uma violência concreta, e a sociedade pode colocá-lo na cadeia. Mas a pobreza é também uma violência, que, por ser abstrata, não pode ser criminalizada. Daí muitos se esquecem dela e passam a ver o menino como a origem e não parte do problema", explica Michel Misse, professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde coordena o Núcleo de Estudos da Cidadania, Conflito e Violência Urbana. A análise, segundo ele, precisa abranger a "desigualdade social brasileira, o desemprego, a falta de perspectiva para os jovens mais pobres, a inexistência de uma justiça efetiva e de uma polícia respeitada e capaz de esclarecer boa parte dos crimes".

 

Nós contra eles

Mas todos esses são conceitos distantes demais para Victor, 9 anos. Há alguns meses, ele viajava com os pais quando o automóvel foi parado por dois bandidos armados que queriam levar a família a um caixa eletrônico. O casal conseguiu sair do carro e tirar a criança, deixando o veículo com os ladrões. O drama terminou aí. Mas Victor passou um bom tempo apavorado. "Como os assaltantes eram mestiços, ele desenvolveu medo de qualquer pessoa de pele escura. Na cabeça dele, todos os mulatos e negros se tornaram bandidos em potencial", conta a mãe, a empresária Cristina da Costa. Ela viu seu filho único entrar em pânico e berrar dentro do carro só porque parou num posto de gasolina para pedir informação e o frentista era negro.

O incidente ilustra as afirmações de Maria Regina da Costa e Carlos Alberto Máximo Pimenta, ambos doutores em Ciências Sociais, em seu livro A VIOLÊNCIA: NATURAL OU SOCIAL? (ED. PAULUS): "O medo da criminalidade, do terrorismo e da morte instaurado nas sociedades contemporâneas se traduz em um risco ao respeito à pessoa e aos seus direitos coletivos; inclusive traduz-se como suspeita dos pobres, estrangeiros e negros". Isso é preocupante, pois, como alerta o professor Misse, passamos a estratificar a violência: não pode contra alguns, que somos nós; mas pode contra os "outros", leia-se pobres e negros, no caso do Brasil, e pobres e estrangeiros, no caso dos países de primeiro mundo.

Com medo, as sociedades passam a pedir que o Estado adote posturas mais duras - que não tratam as causas do problema e ainda podem agraválo. Já ensinava a filósofa alemã Hannah Arendt que a "prática da violência, como toda ação, muda o mundo, mas a mudança mais provável é para um mundo mais violento". Isso não significa deixar de punir os crimes. Mostra, porém, a necessidade de, ao mesmo tempo, educar para uma sociedade em que a violência - da pessoa física, do grupo organizado ou do Estado - seja sempre a exceção inaceitável.

 

Superando os traumas

É o que tenta fazer a Escola Vera Cruz, de São Paulo, que foi notícia em setembro de 2005 quando um tiroteio ocorreu numa rua que dá na praça em frente ao colégio. "Mesmo antes disso já elaborávamos a questão da paz - o que é mais positivo do que falar de violência. Fazemos trabalhos com os alunos pela aceitação das diferenças e da diversidade cultural, pela cooperação e pelo coletivo", diz Stella Galli Mercadante, diretora do ensino fundamental. Após o tiroteio, o colégio criou o movimento A Vida Pede Socorro, que teve mesa-redonda, manifestação dos alunos na praça e colocação de um Poste da Paz, símbolo encontrado em 160 países com a frase "Que a paz prevaleça na Terra". O trabalho continua, pois conseguir que crianças e jovens superem o trauma causado pelo encontro com a violência é um desafio permanente para escolas e pais.

Renan, 16 anos, já foi assaltado duas vezes. Na primeira, tinha 13: um adolescente levou o celular dele e lhe deu um murro. Na segunda, no ano passado, dois jovens drogados o assaltaram à mão armada. "Um monte de coisa mudou na minha vida com o primeiro assalto e piorei depois do segundo. Não saio a pé à noite, não gosto de andar de ônibus, se tenho que ir ao centro da cidade visto roupa velha", revela. Para se recuperar, ele conta com a ajuda da mãe, Káthia Regina Ferreira de Campos Corrêa, mestre em psicologia da saúde e doutora em neurociências. "Renan passou a ter dificuldade para dormir e sair de casa. Só ia a algum lugar se eu ou meu marido o levássemos", lembra Káthia, que ensinou o filho a fazer relaxamento antes de se deitar, ouvindo música tranqüila - ritual que ele cumpre até hoje. "Tento mostrar a ele que corremos risco o tempo todo. E não dá para parar a vida. Quando Renan lembra o que aconteceu, o cérebro não sabe que aquilo é passado e aciona emoções e sensações como se a situação fosse real. Então digo ao meu filho que ele precisa viver o presente."

 

Riscos e limites

A postura de Káthia é oposta a de pais que prendem os filhos em casa. "Os conflitos familiares estão aumentando porque os pais querem impor uma regra anti-social, a de criar filhos em um mundo separado, onde não há perigo", diz Rosalina de Santa Cruz Leite, vice-diretora da Faculdade de Serviço Social da PUC-SP, membro do Núcleo de Políticas Públicas para Violência da PUC. Essa não é a solução, e sim criar meninos e meninas com responsabilidade, capazes de cuidar de si mesmos."

Uma notícia boa nesse caos? Estamos evoluindo. As sociedades pré-modernas eram mais violentas do que as modernas: só nestas o Estado passou a monopolizar o uso legítimo da violência - a polícia, por exemplo, pode fazer uso de armas para impor a lei. Antes, resolvia-se qualquer disputa na base do conflito",  diz o professor Misse. Se a perspectiva histórica não consola nossas dores de hoje, ao menos pode nos dar alguma esperança. E, quem sabe, nos impedir de perder a ternura.

 

Educar sem medo

OS PAIS PODEM e devem ajudar os filhos a lidar melhor com os efeitos da  violência. Segundo a psicanalista infantil, de adultos e casais Cecília Corrêa de Faria, cabe a  eles evitar o clima de terror e passar aos filhos uma sensação de segurança. Como? De duas  maneiras:


CONTORNANDO A "ESPETACULARIZAÇÃO" DO TEMA
O ser humano sempre enfrentou  problemas de violência, mas hoje ela está mais presente na mídia, sem ser elaborada - o que  gera insegurança. "Os pais podem combater isso conversando com os filhos, contextualizando as  notícias e explicando que problemas sociais sempre existiram e existirão", diz a  especialista.

ENSINANDO A AVALIAR O PERIGO
É fundamental transmitir regras claras tanto para  evitar o perigo como para enfrentá-lo."O discurso dos pais precisa ser adequado àquilo que cada  idade consegue digerir", sublinha a psicanalista. Exemplos de orientações: não falar  com estranhos; não aceitar doces; não sair da escola com ninguém que não seja a pessoa  responsável, mesmo que alguém diga que a mãe sofreu um acidente; entregar o que o ladrão  pedir; não reagir; lembrar que itens materiais podem ser comprados de novo; ficar longe das  drogas.
 

Fonte: Revista Cláudia, por Lúcia Barros

Postado por Izabel Cristina Fonseca, em 8 abril 2010 (12.246)

 

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