O filho único
"...educação de uma criança única não é
tão diferente da educação de uma criança
que tem irmãos. Um filho, seja ele, bebê,
criança ou adolescente, precisa de uma
relação próxima e amorosa com seus pais e
de limites firmes e bem colocados"
A
família é a única instituição que, durante
todo o processo histórico, desde que
criada, nunca desapareceu. Entretanto, a
estrutura da família mudou muito nas
últimas décadas. Além disso, a maneira de
se ter, cuidar e educar filhos também
variaram.
As famílias nucleares,
numerosas de outrora, foram substituídas
pelas famílias cada vez menores.
Dificilmente se optava por ter um filho
apenas ou mesmo por não ter filhos. A função
mais importante da mulher era ter e criar
filhos. Para isso, ela contava em geral com
a orientação e ajuda da própria mãe, sogra,
avó, tia e toda a linhagem feminina da
família. Não havia a necessidade de se
buscar em livros, a instrução a respeito de
como criar filhos. Aliás, a literatura nesse
tema, era escassa e a existente falava,
quase que exclusivamente, sobre doenças
infantis. Eram as mulheres que passavam às
suas descendentes os modos e os jeitos de
cuidar de crianças. Além disso, as babás
eram mais ajudantes que profissionais
especializadas e, portanto, mais fáceis de
se encontrar e, às vezes, faziam parte da
família por gerações.
Hoje, o mundo mudou
radicalmente nesse sentido. Não se pode
contar com tais ajudas. As mulheres se
inseriram no mercado de trabalho. Avós
trabalham e mães e pais cumprem hoje até
mesmo duplas jornadas de trabalho. Na
maioria dos casos, apenas aos pais cabe
assumir o cotidiano da casa e o cuidar dos
filhos.
Família hoje é
gerenciada como empresa
Observa-se que, na
sociedade contemporânea, a família está
sendo gerenciada como uma empresa. Ter,
criar e educar um filho significa um
investimento eterno de afeto, mas também um
investimento financeiro no curto, no médio e
no longo prazo. Pensando no mundo tão
competitivo que o filho terá que enfrentar e
baseando-se nas dificuldades e nas
facilidades que tiveram na vida escolar e
têm na vida profissional, pais planejam para
seu filho um currículo extenso e oneroso
para o aprendizado de vida.
Mães e pais hoje têm
carreiras, ambições profissionais e precisam
avaliar muito bem o compromisso de ter um
filho. A falta de ajuda objetiva para o
cuidar e os altos custos financeiros,
relativos à criação e à educação de uma
criança, têm levado à opção do filho único.
Nem sempre opção por
filho único é tranqüila
Nem sempre a opção por um
filho único é uma opção tranqüila. Por um
lado, existe ainda o preconceito de que uma
criança necessariamente precisa de irmão,
sendo que os pais, ao escolherem ter um só
filho, costumam conviver com sentimentos de
culpa em relação ao filho, julgando-se
egoístas por não lhe darem um irmão. Buscam
compensar, muitas vezes, o filho único com
mimos em excesso. Por outro lado, a
superproteção tende a ser freqüente no caso
de um só filho, que passa a ter a sobrecarga
do excesso de cuidados.
Criança necessita de
mimos e proteção, mas ser excessivamente
mimada e superprotegida constitui um risco
para o desenvolvimento, pois levará a uma
estruturação frágil da personalidade.
Como então, criar um
filho único para que ele seja forte e feliz?
A educação de uma criança única não é tão
diferente da educação de uma criança que tem
irmãos. Um filho, seja ele, bebê, criança ou
adolescente, precisa de uma relação próxima
e amorosa com seus pais e de limites firmes
e bem colocados.
Pais de filho único:
como lidar com as situações mais difíceis
dessa educação
Pode-se descrever aqui,
algumas das situações mais difíceis que pais
de filho único podem enfrentar e como se
posicionar diante desses conflitos mais
delicados:
- inflação do papel de
pai e mãe, em detrimento do papel de marido
e mulher e de outros papéis, como forma de
compensar a “solidão” do filho. Pais
precisam ser figuras valorizadas, até
idealizadas pelo filho. Assim sendo,
precisam ser pessoas completas, não apenas
mamãe e papai.
- apego exagerado a um
dos pais, com a exclusão do outro. Nesse
caso, é necessário que o filho seja ensinado
a se colocar na família como o terceiro,
excluído do casal. Ele precisa saber que,
antes de serem seus pais, eles são marido e
mulher. É um aprendizado importante para o
presente e para o futuro: aprender a viver
como impar frente a um par, aprender a se
entreter sozinho, para não depender sempre
do outro.
- exigência constante do
filho, que quer ser atendido, de maneira
imediata, em suas necessidades e desejos.
Criança precisa aprender a lidar com
frustração, a tolerar espera e a adiar
satisfação de desejos. Precisa aprender a
considerar os desejos e as necessidades
alheias, para que possa fazer trocas
afetivas com as outras pessoas.
- convivência demasiada
com adultos. Criança precisa do convívio de
crianças. A indicação mais precoce da
pré-escola, pode dar à criança um ambiente
adequado, para que ela aprenda a dividir a
atenção do adulto com outras crianças, a
brincar junto, a partilhar seus brinquedos,
a se impor e a ceder.
- filho se torna
superprotegido pelos pais, pois todas as
atenções estão voltadas exclusivamente para
ele. Ele esquece um casaco, os pais levam;
ele esquece um caderno, os pais levam; ele
esquece a lancheira, os pais levam. Depois,
os pais acham que ele é esquecido,
desorganizado, etc. Faz-se necessário, às
vezes, no seu esquecimento, que os pais
deixem o filho arcar com as conseqüências da
distração. Assim, ele começará a lembrar
mais de suas coisas e de suas
responsabilidades. Pais não são serviçais do
filho.
Pois bem, pais que
assumem a condição de ter apenas um filho
enfrentam situações de vida, de criação, tão
complexas quanto pais que optaram por ter
mais de um filho. O que antes era raro (o
filho único), hoje é mais do que comum. É
natural que o filho único tenha uma formação
tão sadia quanto aqueles que possuam irmãos.
Basta, apenas, alguns cuidados.
Fonte:
Site UOL, por Ceres Araujo
Postado por Izabel Cristina
Fonseca, em 2 fevereiro 2010